O ano de 2026 iniciou com uma situação de crise no continente. A escolha das palavras para descrever os eventos pode gerar diferentes narrativas, um desafio para o jornalismo e para a comunicação pública e científica.
Em 3 de janeiro, os Estados Unidos realizaram uma operação militar na Venezuela, resultando na remoção do presidente venezuelano, Nicolás Maduro. A ação levanta questionamentos sobre a legalidade de um país intervir em outro.
Termos como intervenção, invasão, captura ou sequestro são debatidos. A discussão se estende à legitimidade de tais ações, especialmente quando os líderes envolvidos são considerados ditadores.
As ciências humanas podem auxiliar na compreensão dos acontecimentos e na identificação de pontos de atenção. Para isso, pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) foram consultados.
A UFU já havia sido procurada para esclarecer temas como o coronavírus e data centers, demonstrando seu papel na análise de questões de relevância local e global.
Os professores Danilo Enrico Martuscelli (Ciência Política, Incis/UFU), Georgia Cristina Amitrano (Filosofia Política, Ifilo/UFU) e Aureo de Toledo Gomes (Paz e Segurança Internacional, Ieri/UFU) participaram da análise.
Também contribuiu Alex Cabello Ayzama, ex-aluno da Faculdade de Direito (Fadir/UFU) e atual professor de Direito Internacional na Universidade Privada Domingo Savio, na Bolívia.
Os pesquisadores classificam a operação como invasão de território e sequestro do presidente Maduro. Eles argumentam que a ação ocorreu à margem do direito internacional e sem a aprovação da Organização das Nações Unidas (ONU).
A ação é vista como uma violação direta da soberania nacional e do princípio de autodeterminação dos povos. Ayzama esclarece: “É importante deixar claro que não se trata de defender uma pessoa ou um modelo de governo, mas, sim, de defender princípios básicos: a soberania, o respeito às normas internacionais e a proibição do uso unilateral da força.”
Os Estados Unidos e seus apoiadores justificam a ação como combate ao narcoterrorismo ou defesa da democracia. No entanto, os entrevistados concordam que os interesses reais são econômicos, visando o controle de recursos estratégicos como petróleo, lítio e terras raras.
Segundo o professor de Direito, o discurso de defesa da democracia e dos direitos humanos tem sido utilizado de forma seletiva, subordinado a interesses geopolíticos e estratégicos. A professora Amitrano, da Filosofia, prefere o termo “colonização” a “imperialismo”, devido à invasão de terras para a retirada de bens.
Os professores apontam para uma nova forma de imperialismo ou neocolonização. Os Estados Unidos buscam reafirmar a América Latina como sua área de influência para conter a expansão de potências como China e Rússia.
Martuscelli afirma: “Falo aqui em agressão imperialista, pois o governo Trump [atual presidente estadunidense] demonstrou em vários discursos e ações que pretende implementar uma nova Doutrina Monroe [anunciada, em 1823, pelo presidente estadunidense James Monroe, com a frase ‘América para os americanos’], cujo resultado é projetar unilateralmente os Estados Unidos como dono do mundo.”
A queda forçada do governo venezuelano pode gerar riscos para outros países, alertam os cientistas. Colômbia e México podem se tornar alvos de pressão ou desestabilização.
Cuba deve ser diretamente impactada pela interrupção do apoio econômico venezuelano, especialmente no fornecimento de petróleo subsidiado. Acordos de paz, como o das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), podem ser afetados pela instabilidade na fronteira.
O Brasil é visto em uma posição de “saia justa” diplomática e vulnerabilidade logística. Os pesquisadores preveem uma nova e intensa onda migratória, exigindo coordenação federal e internacional para o acolhimento de refugiados.
Há preocupação com a segurança das fronteiras terrestres e a proteção de comunidades indígenas, como os Yanomami. A ação cria um precedente jurídico alarmante.
Ao ignorar as normas internacionais, os Estados Unidos sinalizam que o uso da força pode substituir o direito. Isso poderia autorizar outras potências a desconsiderar soberanias em conflitos como os de Taiwan ou da Ucrânia.
Tal cenário empurraria o sistema internacional para uma lógica similar à do início do século 20. A conclusão comum dos professores é que os países latino-americanos, liderados pelo Brasil, precisam agir em bloco.
A desunião facilitaria a instalação de governos fantoches. Uma resposta institucional conjunta e mobilizações populares seriam caminhos para restaurar a autonomia política e impor custos diplomáticos à ação estadunidense.
Os períodos eleitorais ampliam a vulnerabilidade a interferências externas e operações de influência, que precisam ser ativamente contidas para preservar a soberania popular e a integridade dos processos democráticos, afirma Gomes.
Além do Brasil, outros quatro países latino-americanos têm eleições presidenciais previstas para 2026: Colômbia, Costa Rica, Peru e Haiti. Ayzama defende: “Defender a soberania hoje não significa apoiar governos, mas, sim, evitar que a força substitua definitivamente o direito no sistema internacional.”
Gomes explica: “Desunidos, os países da região terão pouquíssima capacidade de barganha frente às grandes potências; em concerto, ainda é possível impor custos políticos e diplomáticos relevantes a novas aventuras intervencionistas.”
Ele conclui: “A coordenação desses esforços na América do Sul cabe, de maneira inescapável, ao Brasil, que precisa se preparar política e institucionalmente para assumir esse papel de liderança regional em defesa da não‑intervenção e da autodeterminação dos povos.”
Para mais informações sobre pesquisas científicas relacionadas à Venezuela, acesse os trabalhos acadêmicos disponíveis no Repositório da UFU.
