O documentário “12 Dias” está sendo gravado na Biblioteca Central da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e nos estúdios da Faculdade de Comunicação (Facom/UFJF). A produção reconstitui o sequestro da Rua das Margaridas, ocorrido em agosto de 1990 no bairro Novo Horizonte, em Juiz de Fora.
Este episódio é considerado um dos sequestros mais longos da história de Minas Gerais. O evento permanece na memória da população de Juiz de Fora. O documentário busca detalhar os fatos e o contexto da época.
A produção inclui depoimentos de jornalistas que cobriram o caso. Entre eles, está Álvaro Americano, professor da Facom/UFJF, que atuava como repórter e entrou na casa dos reféns. Mauro Pianta, jornalista e diretor de fotografia do documentário, foi um dos primeiros a chegar à Avenida Rio Branco.
Pianta presenciou o momento em que o grupo criminoso estacionou antes de seguir para o sítio na Rua das Margaridas. O documentário aborda a repercussão nacional do crime. Ele também propõe uma reflexão sobre o papel da imprensa na cobertura policial e os direitos humanos no sistema carcerário.
O financiamento do documentário é da Fundação Alfredo Ferreira Lage (Funalfa), por meio do edital da Lei Paulo Gustavo. As gravações ocorrem na UFJF e em outras cidades. Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Brasília estão na rota, com a possibilidade de filmagens em São Paulo.
Pesquisa histórica e acervo da UFJF
A obra é baseada em uma pesquisa da jornalista Fernanda Visiane, iniciada há cerca de oito anos. A pesquisa começou durante seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Jornalismo. Grande parte do levantamento documental foi realizada na Biblioteca Central da UFJF.
De acordo com a UFJF, a pesquisa utilizou edições impressas dos jornais Tribuna de Minas e Diário da Tarde, preservadas no acervo da Universidade. Fernanda Visiane explicou: “Durante mais de um mês, pesquisamos diariamente na Biblioteca Central. Tivemos acesso a reportagens da época que não estão digitalizadas. Esse acervo foi essencial para reconstruir a cronologia dos 12 dias do sequestro”.
Segundo Fernanda, o projeto foi viabilizado em 2023, após a aprovação do financiamento. Além do documentário, um livro será lançado como desdobramento da pesquisa. A iniciativa visa aprofundar a análise dos eventos e seu impacto.
Imagem mostra carro forte com sequestradores na Avenida Barão do Rio Branco, no centro de Juiz de Fora. (Imagem: Acervo Impulso Filmes)
Um crime que parou o país
Em 24 de agosto de 1990, cinco detentos renderam agentes penitenciários e fizeram nove reféns na Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem. Após negociações, o grupo deixou a unidade prisional em um carro-forte com quatro policiais militares. Um dos policiais foi morto durante a ação.
No dia seguinte, os sequestradores chegaram a Juiz de Fora e estacionaram na Avenida Barão do Rio Branco, no centro da cidade. De lá, seguiram para o bairro Grajaú. Próximo à Igreja Nossa Senhora do Líbano, receberam armamento e um veículo.
Em seguida, deslocaram-se em direção à BR-040 com o coronel Edgar Soares. Pouco depois, renderam uma família em um posto de gasolina e retornaram à cidade. Invadiram um sítio na Rua das Margaridas, no bairro Novo Horizonte, onde permaneceram por 12 dias.
No décimo dia, o grupo tentou fugir do sítio e trocou tiros com a polícia. Três deles ficaram feridos e se entregaram. No 11º dia de sequestro, os dois fugitivos restantes deixaram a casa. Um dia depois, houve a liberação do coronel e a prisão dos outros dois criminosos.
Apoio da Universidade
Daniel Couto, sócio-diretor da Impulso Filmes, ex-estudante de Jornalismo da UFJF e doutorando em Cinema na Universidade, destacou o apoio institucional. Ele afirmou: “A UFJF contribuiu com a estrutura da Facom. Gravamos depoimentos no laboratório de rádio e no estúdio de televisão, escolhendo cenários que dialogam com a atuação profissional dos personagens na época”.
Couto também ressaltou a importância simbólica da Universidade. “A história passa pela UFJF, seja pelo acervo da biblioteca, seja pelos professores e jornalistas que participaram da cobertura. Para nós, que também somos ex-alunos, voltar à Instituição com esse projeto é muito significativo.”
Além da reconstrução histórica, “12 Dias” busca ampliar o debate sobre a cobertura midiática de crimes de grande repercussão. Daniel Couto explicou: “O sequestro teve entradas constantes nos plantões de TV e mobilizou a cidade. Queremos discutir como a imprensa se posicionou e como esse tipo de cobertura impacta a sociedade”.
Vivência e memória
Coronel Edgar Soares sendo liberado do sequestro da Rua das Margaridas. (Imagem: Acervo Impulso Filmes)
Mauro Pianta, diretor de fotografia do documentário e personagem da narrativa, relembrou o clima na cidade durante o sequestro. Ele relatou: “Havia muito medo, que era real, mas, ao mesmo tempo, uma curiosidade enorme. As pessoas se aproximavam, mesmo diante de homens armados. As imagens mostram multidões muito próximas dos sequestradores”.
Segundo Pianta, o documentário também serve como um exercício de memória coletiva. “Rever fotos e arquivos traz à tona lembranças e reflexões sobre como a cidade viveu aqueles dias.” A previsão é que “12 Dias” seja finalizado no segundo semestre deste ano.
A partir de 2027, o documentário deve iniciar sua trajetória em festivais. Posteriormente, buscará exibições em canais de televisão. O projeto visa preservar a memória do evento e promover discussões sobre seus impactos.
