O artigo Autonomy without Proliferation: Latin America’s Atomic Exceptionalism and the Brazilian Nuclear Programme, escrito pelo pesquisador João Paulo Nicolini Gabriel, egresso do doutorado no Departamento de Ciência Política (DCP) da UFMG, e pelo professor Dawisson Belém Lopes, também do DCP, venceu a segunda edição do Prêmio Antônio Augusto Cançado Trindade. A premiação é concedida pela Agência para a Proibição de Armas Nucleares na América Latina e no Caribe (Opanal), organização internacional com 33 Estados-membros que fiscaliza o cumprimento do Tratado de Tlatelolco, firmado em 1967 para banir armas nucleares na região.
O estudo analisa a estratégia nuclear brasileira, destacando a “operação mental” que permitiu ao país adotar uma postura autônoma sem abandonar o pacifismo. Segundo os autores, o Brasil, como membro fundador da Opanal, tem sido um dos principais responsáveis por manter a América Latina e o Caribe como zona livre de armas nucleares.
A cerimônia de premiação ocorrerá na Cidade do México, sede da Opanal, em data a ser definida. O secretário-geral da organização fará a entrega do prêmio.
Pesquisa e reconhecimento
De acordo com Dawisson Lopes, o prêmio reconhece uma trajetória de pesquisa sobre o papel do Brasil no regime global de não proliferação nuclear. “O estudo combina economia política internacional, história diplomática e teoria das Relações Internacionais para mostrar como o país conciliou autonomia tecnológica com o uso pacífico da energia nuclear”, explicou.
A pesquisa utilizou análise documental e entrevistas com formuladores de políticas públicas, diplomatas e cientistas. “Dialogamos com a produção intelectual do Sul Global e com abordagens institucionalistas que estruturam a literatura dominante”, disse Lopes.
O artigo argumenta que o Brasil consolidou um modelo de autonomia sem proliferação, baseado em compromissos jurídicos regionais, capacidades tecnológicas locais e diplomacia ativa. “Isso desafia interpretações que associam autonomia nuclear à busca por armamentos”, completou o professor.
Origem e conexões
O trabalho é um desdobramento da tese de doutorado de João Paulo Gabriel, defendida em 2023 e premiada pela Capes em 2024. Foi desenvolvido em parceria entre a UFMG e a Universidade Católica da Lovaina, na Bélgica.
O prêmio homenageia Antônio Augusto Cançado Trindade, jurista formado pela Faculdade de Direito da UFMG e doutor honoris causa pela universidade em 2018. Ele faleceu em 2022 enquanto atuava como juiz da Corte Internacional de Justiça.
Lopes destacou sua ligação com o homenageado: “Fui aluno da Faculdade de Direito onde Cançado Trindade estudou. Ele também foi patrono da minha turma de Relações Internacionais na PUC Minas”. João Paulo Gabriel atualmente realiza pós-doutorado no King’s College London.
