Entre 2014 e 2024, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) registrou um aumento no ingresso de mulheres em cargos docentes efetivos. Neste período, 420 mulheres (51,28%) foram contratadas, superando os 399 homens (48,72%) que ingressaram na instituição.
Esses dados foram compilados na pesquisa de doutorado intitulada “Desigualdades de gênero e raça na universidade pública: trajetórias, silêncios e resistências na carreira docente da UFJF”. O estudo foi defendido em novembro de 2025 pela jornalista e doutora em Ciências Sociais Flávia Lopes.
Gráfico: Flávia Lopes e Arte: Gian Rezende
De acordo com a UFJF, a motivação para este recorte da pesquisa foi o maior número de mulheres formadas em programas de pós-graduação nas últimas duas décadas. A pesquisadora Flávia Lopes observou que este crescimento não é uma tendência nacional, mas um fenômeno específico da UFJF.
Flávia Lopes solicitou dados de outras Instituições Federais de Ensino (Ifes) mineiras para comparar. Ela constatou que o fenômeno de maior contratação de mulheres docentes era particular da UFJF, não se repetindo em outras instituições de porte similar.
Gráfico: Flávia Lopes e Arte: Gian Rezende
A pesquisa indicou que, no mesmo período, o país registrou 62.378 ingressos, com 34.448 homens (55,21%) e 27.930 mulheres (44,78%). Entre as cinco instituições analisadas (UFMG, UFU, UFOP, UFV e UFJF) de 2018 a 2023, apenas a UFJF apresentou maior proporção de contratação de mulheres.
A UFV registrou a maior discrepância, com 38,83% de mulheres e 61,17% de homens contratados de um total de 273. Na UFMG, que teve o maior volume de contratações entre as mineiras analisadas (498), 45% foram mulheres e 55% homens.
Flávia Lopes observou que, na UFJF, houve oscilações anuais no ingresso de docentes entre 2014 e 2024, influenciadas pela pandemia e restrições orçamentárias. No entanto, a tendência geral foi de maior presença feminina, com homens sendo maioria em apenas três anos (2014, 2015 e 2022).
A pesquisadora investigou fatores que podem explicar essa tendência na UFJF. Uma das explicações é o perfil dos cursos da instituição, concentrados em áreas como saúde, humanas, linguística, letras e artes, que historicamente atraem mais mulheres.
Outro ponto levantado é que o perfil da UFJF, mais voltado para o ensino, tende a apresentar menor desigualdade de gênero, conforme a classificação de Schwartzman. A localização da cidade, de médio porte, com menor custo de vida e maior segurança, também pode influenciar.
Pesquisas indicam que grandes centros urbanos tendem a atrair mais homens, devido à maior mobilidade e acesso a instituições com mais investimentos em pesquisa. O perfil da cidade de Juiz de Fora pode, portanto, ser um atrativo para mulheres docentes.
Desafios da docência feminina: sobrecarga e desigualdade
O aumento do número de mulheres na docência universitária é um avanço, mas a pesquisa revela que a presença feminina ainda ocorre em condições de desigualdade estrutural. Isso se manifesta na cultura institucional, nas políticas de carreira e na persistência da divisão sexual do trabalho.
Entrevistas com docentes recém-ingressas na UFJF indicam que, apesar do maior acesso, os desafios incluem expectativas de gênero, sobrecarga de trabalho, exigências produtivistas e a necessidade constante de legitimação profissional, especialmente em áreas predominantemente masculinas.
A pesquisa aponta que, em 2025, mulheres, mesmo sem filhos, dedicam pelo menos cinco horas semanais a mais que homens às atividades domésticas. Quando há filhos ou dependentes, essa diferença ultrapassa 11 horas semanais.
Segundo a pesquisadora, “Essa sobrecarga, somada à lógica produtivista que orienta a carreira universitária (baseada em publicações, participação em eventos, captação de recursos e indicadores de desempenho) aprofunda uma condição de esgotamento físico e mental.”
O resultado é um ciclo vicioso: com menos tempo, mulheres se sentem mais pressionadas a comprovar produtividade em prazos reduzidos, muitas vezes sacrificando descanso, saúde e vida pessoal. Isso gera um custo elevado para as docentes.
Para docentes em áreas majoritariamente masculinas, como Engenharias e Ciências Exatas, os desafios são específicos. A professora Lahis Souza de Assis, que ingressou na UFJF em abril de 2025, destaca a necessidade de se afirmar profissionalmente.
Ela afirma: “Acredito que, no ambiente acadêmico, o machismo tende a ser menos explícito. No entanto, ele ainda se manifesta de forma sutil. Um exemplo disso é a percepção de que, muitas vezes, os alunos atribuem maior credibilidade aos professores homens, o que revela um machismo velado, mas presente.”
Segundo a professora Assis, o machismo sutil exige um esforço adicional de legitimação das mulheres. “Além de ser mulher e ser ainda jovem, enfrento também o desafio de me posicionar diante dos meus colegas e alunos, de modo que eles me reconheçam e me percebam, de fato, como docente.”
A professora Tatiana Danelon de Assis, do Departamento de Mecânica Aplicada e Computacional, aponta que aprender a se posicionar é um desafio central. Ela explica: “Características que em homens são associadas à liderança, em mulheres ainda podem ser interpretadas como rigidez ou grosseria.”
Ela também ressalta a vigilância constante sobre as mulheres: forma de vestir, linguagem e comportamento são monitorados como estratégias de autoproteção. Isso gera uma sobrecarga significativa. “Nada disso justifica o machismo ou o assédio, mas essa tentativa de autoproteção gera uma sobrecarga mental muito grande.”
Segundo a docente, essa lógica, marcada por expectativas mais altas sobre as mulheres, produz um custo emocional e físico significativo. Isso ocorre especialmente quando combinada às múltiplas demandas que atravessam a vida das mulheres, mesmo as que não são mães. “Esse padrão pode até contribuir para que alcancemos determinados espaços, mas ele cobra um preço alto e nem sempre visível”, reflete.
A docente destaca que muitas situações só se tornam evidentes com o tempo e com o acesso a leituras feministas. “Apenas com distanciamento temporal percebi que alguns comentários sobre minha capacidade intelectual, em momentos da formação acadêmica, tinham origem no machismo”, afirma. Segundo ela, em ambientes majoritariamente masculinos, questionamentos dirigidos às mulheres tendem a ser mais frequentes.
Maternidade, cuidado e carreira acadêmica
Segundo a professora Silva, a exigência por produtividade contínua desconsidera desigualdades estruturais e afeta especialmente mulheres, muitas delas mães solo. Ela considera fundamental que políticas institucionais reconheçam essas assimetrias, ampliando a licença-maternidade e flexibilizando prazos na pós-graduação.
A docente também enfatiza a importância de considerar essas condições em processos seletivos e concursos docentes. Além disso, ela destaca a necessidade de ampliação das políticas sociais para apoiar as mulheres. “Políticas públicas de educação e de segurança alimentar que funcionem de forma efetiva são fundamentais para que as mulheres possam exercer suas atividades profissionais com mais tranquilidade.”
Nicole Silva ressalta que as mulheres não deveriam ter a sobrecarga de múltiplas responsabilidades que, muitas vezes, deveriam ser supridas pelo próprio Estado. “Essa sobrecarga do trabalho feminino ainda é profundamente desigual quando comparada às exigências impostas aos homens.”
Para Tatiana Danelon, “enquanto é considerado natural que um homem priorize a carreira, mulheres são educadas para assumir o papel de cuidadoras e podem sentir culpa ao focar em seus próprios objetivos profissionais, como se estivessem negligenciando outras responsabilidades.”
Ela conclui: “Reconhecer esses mecanismos é importante para que possamos ser mais gentis conosco mesmas e seguir com confiança na construção da nossa trajetória.” As docentes entrevistadas concordam que o avanço da presença feminina na universidade é uma conquista, mas precisa ser expandida.
Elas afirmam: “Quanto mais diversa for a comunidade que a produz, mais relevantes e abrangentes serão os resultados.” O desafio é garantir condições equitativas para que as trajetórias femininas se consolidem, com menos sobrecarga, mais reconhecimento e políticas institucionais que enfrentem as desigualdades de gênero na academia.
Mais informações:
Confira a tese na íntegra: “Desigualdades de gênero e raça na universidade pública: trajetórias, silêncios e resistências na carreira docente da UFJF”
Equidade de gênero e raça na universidade: @eqgenuniversidade
