A participação feminina no ensino superior e na produção científica tem avançado, mas a desigualdade de gênero persiste em áreas como Ciências Exatas e Engenharias. Um levantamento da Unifal-MG, referente ao período de 2020 a 2025, revela que mulheres são maioria em diversas áreas, mas sub-representadas nos campos tecnológicos e científicos tradicionais.
Este levantamento foi realizado em celebração ao Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, comemorado em 11 de fevereiro. Os dados da Unifal-MG refletem tendências globais e nacionais sobre a presença feminina na ciência.
No cenário internacional, mulheres representam cerca de um terço da comunidade científica. Dados da UNESCO indicam que a proporção de pesquisadoras aumentou de 28% em 2013 para aproximadamente 33% na última década, mostrando avanço, mas também estagnação.
Nos países do G20, mulheres ocupam cerca de 22% dos empregos em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). Apenas uma em cada dez posições de liderança nessas áreas é ocupada por mulheres, conforme o relatório Changing the equation: Securing STEM futures for women (2024/2025).
No Brasil, levantamentos na Plataforma Lattes indicavam que, no final da década de 2010, cerca de 40% dos pesquisadores com doutorado eram mulheres. Elas tinham maior presença nas áreas de Saúde e em várias áreas de Ciências Humanas e Sociais.
Dados recentes da CAPES e do CNPq mostram que mulheres são maioria entre estudantes de pós-graduação e bolsistas de mestrado e doutorado. No entanto, elas continuam sendo minoria em Engenharias e nas Ciências Exatas e da Terra.
Nessas áreas, estudos apontavam cerca de 26% de mulheres com doutorado em Engenharias e 31% nas Ciências Exatas e da Terra. A presença feminina diminui nos níveis mais altos, como nas bolsas de produtividade e nos cargos de liderança acadêmica.
Graduação na UNIFAL-MG: maioria feminina na maior parte das áreas
Na graduação da Unifal-MG, as mulheres são maioria entre os ingressantes e concluintes na maior parte das grandes áreas. Entre 2020 e 2025, elas representaram 74,40% dos ingressantes na área da Saúde e 76,10% nas Licenciaturas.
Nas Humanas, as mulheres corresponderam a 63,40% das matrículas iniciais, e nas Biológicas, a 58,60%. O mesmo padrão se repete na conclusão dos cursos.
74,70% dos formandos na Saúde e 74,80% nas Licenciaturas foram mulheres. O cenário muda nas áreas de Exatas e Engenharias.
Nesse grupo, os homens ainda são maioria entre os ingressantes (56,20%) e também entre os concluintes (50,80%). A diferença diminui ao final dos cursos, mas os dados indicam menor acesso feminino a essas áreas.
Para fins de análise, os cursos foram agrupados em grandes áreas do conhecimento a partir de dados extraídos do Sistema Acadêmico da UNIFAL-MG. (Arte: Ingridy Bueno Corrêa/Dicom)
Pós-Graduação: crescimento com disparidades
Na pós-graduação, a tendência de maioria feminina se mantém nas áreas da Saúde, Licenciaturas e Biológicas. Entre 2020 e 2025, mulheres representaram 83,50% dos ingressantes e 84,10% dos concluintes na área da Saúde.
Nas Licenciaturas, as mulheres corresponderam a cerca de dois terços dos ingressantes e concluintes. Em contrapartida, nas Exatas e Engenharias, apenas 41% dos ingressantes e 43,30% dos concluintes foram mulheres.
Isso demonstra que a desigualdade se prolonga nos níveis mais avançados da formação científica. Outras áreas também apresentam assimetrias.
Nas Sociais Aplicadas e nas Humanas, por exemplo, a presença masculina é superior na pós-graduação, tanto na entrada quanto na conclusão dos cursos. Esses dados indicam que a distribuição de gênero varia conforme o campo de atuação.
Para fins de análise, os programas foram agrupados em grandes áreas do conhecimento a partir de dados extraídos da Plataforma de Gestão de Projetos de Pesquisa/PRPPG/UNIFAL-MG. (Arte: Ingridy Bueno Corrêa/Dicom)
Base da carreira científica: Iniciação Científica
A presença feminina também é expressiva na Iniciação Científica. Entre 2020 e 2025, a Unifal-MG registrou 4.443 estudantes em projetos de Iniciação Científica nas modalidades com bolsa e voluntária.
Desse total, 49,40% são mulheres e 50,60% homens, o que indica equilíbrio de gênero na porta de entrada da carreira científica. A maior concentração feminina está na área da Saúde.
Nas áreas de Exatas e Engenharias, os homens são maioria entre os estudantes envolvidos em projetos de Iniciação Científica. Nas áreas de Humanas e Biológicas, os dados mostram distribuição equilibrada entre mulheres e homens.
Dados extraídos da Plataforma de Gestão de Projetos de Pesquisa/PRPPG/UNIFAL-MG. (Arte: Ingridy Bueno Corrêa/Dicom)
Servidores: titulação e gênero
O levantamento da Unifal-MG também analisou o perfil dos servidores da Instituição quanto à titulação acadêmica. Entre os docentes com doutorado, há um equilíbrio entre mulheres (49,40%) e homens (50,60%).
Já entre os docentes que possuem apenas o mestrado, os homens são maioria, representando 72% desse grupo. Entre os técnicos-administrativos com alta titulação, o cenário se inverte.
As mulheres correspondem a 63,60% dos técnicos com doutorado e a 54,80% daqueles com mestrado. Isso demonstra um investimento feminino na qualificação profissional também fora da carreira docente.
Dados extraídos do Portal de Dados Abertos/UNIFAL-MG. (Arte: Ingridy Bueno Corrêa/Dicom)
Produção acadêmica: teses e dissertações
A análise também considerou a produção acadêmica registrada no Repositório Institucional da Unifal-MG. Foram analisadas teses e dissertações defendidas entre 2020 e 2025.
No caso das teses de doutorado, foram identificados 145 trabalhos no período. A análise dos nomes dos primeiros autores indica equilíbrio entre mulheres e homens na autoria: 48,30% das teses foram assinadas por mulheres e 51,70% por homens.
No entanto, ao observar a distribuição por áreas, nota-se maior presença masculina nos trabalhos vinculados às áreas de Exatas e Engenharias. Isso reproduz o padrão de desigualdade já observado na formação acadêmica.
Já entre as dissertações de mestrado, foram identificados 1.051 trabalhos no mesmo período. Desses, 40,60% tiveram mulheres como primeiras autoras e 59,40% homens.
Assim como nas teses, as dissertações apresentam maior concentração nas áreas da Saúde e das Ciências Biológicas. Os trabalhos nas áreas de Exatas e Engenharias mantêm predominância masculina.
A análise foi realizada a partir dos metadados disponíveis no Repositório Institucional. A identificação do primeiro autor foi feita pelo nome e a classificação temática dos trabalhos com base em palavras-chave dos títulos.
Dados extraídos do Repositório Institucional/UNIFAL-MG. (Arte: Ingridy Bueno Corrêa/Dicom)
Vozes que ampliam a presença feminina na ciência da UNIFAL-MG
Os dados apresentados revelam avanços na formação de meninas e mulheres na ciência, mas também mostram que os desafios persistem. Isso é especialmente verdadeiro nas áreas de Exatas e Engenharias.
Além dos números, as trajetórias individuais traduzem, em experiências concretas, o que significa ocupar esses espaços. Ana Lidia de Castro, Carolina Mendes Gonçalves, Isabelle Ferreira e Victória Maria Da Ré Silva são exemplos.
Reconhecidas como Destaque Acadêmico, elas simbolizam, em diferentes cursos das Engenharias e do Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia, o avanço da presença feminina na formação científica da Unifal-MG.
Suas histórias revelam percursos marcados por dedicação acadêmica, participação em projetos de extensão, iniciação científica e envolvimento institucional. Esses elementos fortalecem não apenas currículos, mas também o sentimento de pertencimento.
Ana Lidia, da Engenharia Ambiental, associa a premiação à validação de uma trajetória construída com resiliência e suporte institucional. “A competência técnica não tem gênero e nossa presença é indispensável”, afirma.
Sua trajetória, marcada pela permanência estudantil e pelo compromisso com projetos de extensão em educação ambiental, reforça que a democratização do acesso ao ensino superior público também é parte da equação para ampliar a presença feminina na ciência.
Na Engenharia de Minas, área tradicionalmente masculina, Carolina destaca que o reconhecimento carrega um significado coletivo. “Ter o reconhecimento de Destaque Acadêmico dentro da Engenharia de Minas, em um curso majoritariamente masculino, significa que posso incentivar outras meninas a seguir a carreira científica”, pontua.
Ao falar sobre os desafios enfrentados, ela reconhece que os obstáculos existem. No entanto, ressalta a força das redes de apoio femininas construídas dentro da Universidade, apoio que transforma resistência em permanência.
Com uma formação que transita entre empresa júnior, PET, monitoria e Iniciação Científica, Isabelle, da Engenharia Química, demonstra como a universidade pública pode formar lideranças técnicas e científicas quando oferece oportunidades e incentivo.
Reconhecida pela segunda vez como Destaque Acadêmico, ela enfatiza o valor da constância e do envolvimento acadêmico. “Cada esforço valeu a pena e a dedicação sempre encontra seu caminho”, garante.
No Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia, Victória vê no reconhecimento uma reafirmação simbólica de pertencimento. “Mulheres pertencem e podem se destacar em cursos que historicamente possuem predominância masculina”, afirma.
Se as graduadas representam o presente da formação científica, a professora Renata Piacentini Rodriguez, do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT), e a professora Olga Luisa Tavano, da Faculdade de Nutrição, aprofundam o debate.
A professora Renata está à frente de uma iniciativa nacional de incentivo a meninas na ciência. A professora Olga é referência internacional em produção científica de alto impacto. Ambas promovem uma reflexão para as estruturas que ainda precisam ser revistas.
“Se as meninas não têm contato com mulheres cientistas, se elas não fazem ideia de que a ciência é uma carreira possível para elas e se isso não parece algo factível, como poderão sonhar em ser cientistas?”, questiona a coordenadora do projeto Ciência, Coisa de Menina, a professora Renata.
Ela lembra que o estímulo precisa começar cedo. Para a professora Renata, romper estereótipos e ampliar modelos femininos é condição essencial para reduzir a lacuna de gênero nas áreas de STEM.
No topo da carreira acadêmica, a professora Olga, única pesquisadora mulher da Unifal-MG a integrar o ranking internacional World’s Top 2% Scientists, chama atenção para uma dimensão menos visível da desigualdade.
Ao mencionar a “carga mental” ainda desigualmente distribuída fora do ambiente de trabalho, a pesquisadora aponta para desafios que ultrapassam a universidade e dialogam com estruturas sociais mais amplas. “Estamos chegando aos mesmos cargos, mas será que ao mesmo custo?”, pergunta.
Juntas, essas vozes mostram que ampliar a presença feminina na ciência não é apenas uma questão de acesso. Envolve permanência, reconhecimento, políticas públicas, redes de apoio, combate a estereótipos e transformação cultural.
Envolve, sobretudo, garantir que meninas e mulheres não apenas ingressem na ciência, mas permaneçam, avancem e liderem. Em 2026, a UNESCO escolheu como tema do Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência “From Vision to Impact: Redefining STEM by Closing the Gender Gap”.
A escolha reflete a necessidade de transformar diagnósticos em ações concretas capazes de reduzir a desigualdade de gênero nas áreas científicas e tecnológicas, especialmente em STEM. Os relatos completos das graduadas e das professoras, que aprofundam suas trajetórias, desafios e reflexões sobre a presença feminina na ciência, podem ser acessados nas páginas especiais da série.

