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IFMG Campus Ouro Preto diploma ex-aluno morto na ditadura

O Campus Ouro Preto realizou, em 5 de março, a diplomação póstuma de Hélcio Pereira Fortes. Ele foi estudante da antiga Escola Técnica Federal de Ouro Preto (Etfop) e uma liderança estudantil. Sua trajetória foi interrompida durante a ditadura militar brasileira.

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De acordo com o IFMG, este ato é a primeira diplomação póstuma de um estudante secundarista na instituição. A organização ocorreu em parceria com o Grêmio Estudantil do campus. A cerimônia reuniu representantes de movimentos estudantis, servidores, estudantes, membros da comunidade e autoridades institucionais.

A mesa da solenidade foi composta por diversas autoridades. Entre elas, o diretor-geral do Campus Ouro Preto, Reginato Fernandes, e o pró-reitor de Ensino do IFMG, Mário Alvarenga. Também estiveram presentes o reitor substituto do IFMG, José Roberto de Paula, e o presidente do Grêmio Estudantil do Campus Ouro Preto, Zion Trevisani.

Délcio Pereira Fortes, irmão de Hélcio Fortes, também participou. O chefe de gabinete Hamilton Silva representou a ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo. Wadson Ribeiro representou a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos.

O prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo, e a secretária municipal de Educação, Débora Etrusco, compareceram. A vice-reitora da Ufop, Roberta Fróes, a ex-deputada federal Jô Moraes e o deputado estadual Celinho Sintrocel também estiveram presentes. A diretora da Ubes, Jhennifer Nicoly, e o presidente da UCMG, Leonardo Souza, completaram a mesa.

Hélcio Pereira Fortes nasceu em 24 de janeiro de 1948, em Ouro Preto (MG). Ele estudou na então Etfop, que originou o atual IFMG Campus Ouro Preto. Desde jovem, ele se envolveu em atividades estudantis.

Ele integrou o Grêmio Literário Tristão de Athayde e a União Colegial Ouro-pretana. Hélcio era reconhecido pelo interesse em debates políticos, pela produção cultural e pelo entusiasmo intelectual. Após o golpe militar de 1964, ele atuou politicamente na resistência ao regime.

Hélcio teve papel na greve dos metalúrgicos em Minas Gerais, em 1968. Em 1970, tornou-se coordenador nacional da Ação Libertadora Nacional (ALN). Posteriormente, ele foi responsável pela organização regional do movimento no Rio de Janeiro.

Em 22 de janeiro de 1972, Hélcio foi preso no Rio de Janeiro e transferido para o DOI-CODI do II Exército, em São Paulo. Investigações posteriores indicaram que ele foi submetido a torturas e morreu nas dependências do órgão repressivo entre 28 e 31 de janeiro de 1972, dias após completar 24 anos.

A versão oficial da época, que atribuía a morte a um confronto armado, foi contestada por testemunhos e investigações. O caso foi reconhecido pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) em 1996. Também consta nos relatórios da Comissão Nacional da Verdade, divulgados em 2014.

Atualmente, Hélcio Pereira Fortes nomeia o Grêmio Estudantil do IFMG Campus Ouro Preto.

Origem da proposta de diplomação

A iniciativa de diplomação póstuma surgiu de atividades acadêmicas e culturais. Servidores e estudantes do campus promoveram essas atividades para refletir sobre história e democracia. Segundo a servidora Líria Lara Soares, a ideia começou a ser desenvolvida em 2024.

A organização ocorreu durante as atividades do Mês do Estudante, coordenadas por ela e pela pedagoga Talita Valadares. As ações focaram nos 60 anos do golpe militar de 1964 e, posteriormente, nos 40 anos da redemocratização do país.

Para o evento, servidores e integrantes do Grêmio Estudantil foram convidados. Eles participaram de debates, exibição de filmes, exposições e rodas de conversa sobre o período histórico. Líria Lara Soares afirmou: “A ideia da diplomação surgiu nesse contexto e, a partir da dedicação da servidora Fabrícia Coelho, com sua experiência no registro escolar, os encaminhamentos para o processo foram realizados. Com uma construção coletiva, contribuímos para a reflexão dos estudantes sobre paginas recentes de nossa história, cientes de ue o conhecimento e a educação são importantes para o fortalecimento da nossa democracia”.

O processo institucional

A servidora Fabrícia Coelho participou do processo de homenagem. Ela explica que a proposta ganhou forma após a identificação de documentos históricos. Isso ocorreu durante a organização do acervo acadêmico do campus. Foram encontrados registros de estudantes com trajetórias acadêmicas impactadas por perseguições políticas, incluindo Hélcio Pereira Fortes.

A partir dessa constatação, iniciou-se a busca por documentos e informações para fundamentar a diplomação póstuma. O processo foi encaminhado à Reitoria do IFMG para análise e tramitação institucional. Fabrícia Coelho considera a iniciativa um gesto de reconhecimento da história da instituição.

Fabrícia Coelho afirmou: “Hélcio Pereira Fortes não é apenas um nome numa pasta acadêmica ou num dossiê da Comissão da Verdade. Ele é filho de Ouro Preto, ex-aluno da escola e símbolo de uma geração inteira que pagou com a própria vida o preço da resistência ao autoritarismo. A diplomação póstuma é um ato de autoconhecimento institucional. A escola olha para sua própria história, reconhece que um de seus alunos foi morto pelo Estado e declara que isso não será esquecido”.

Significado para estudantes e comunidade

O diretor-geral Reginato Fernandes relatou que, durante as atividades do Mês do Estudante, acessou uma pasta de Hélcio. Essa pasta, do acervo acadêmico da instituição, chamou a atenção por registros incompletos e um fato marcante. Ele descreveu o último documento da pasta.

Reginato Fernandes afirmou: “O último documento desta pasta era um telegrama enviado pela escola à família do estudante pedindo que ele retornasse, porque estava deixando de comparecer às aulas. A resposta foi simples e muito pesada: ‘Nós perdemos o contato com ele’. É uma frase pequena, mas que conta toda uma história”. Para o diretor, a diplomação faz com que a documentação acadêmica do ex-aluno registre o reconhecimento institucional de sua trajetória.

O presidente do Grêmio Estudantil do Campus Ouro Preto, Zion Trevisani, destacou a importância da memória histórica para as novas gerações. Ele afirmou: “Esse estudante que um dia pisou nas salas de aula dessa instituição jamais abandonou a mais preciosa luta de uma juventude: o sonho de uma escola emancipatória, com qualidade de ensino gratuita, com dignidade humana e permanência estudantil. Tenho orgulho de dizer que a primeira diplomação póstuma de um secundarista no Brasil foi conduzida por uma organização estudantil de uma das escolas técnicas mais antigas do país. Esse diploma é também para tantos outros Hélcios que a história tentou apagar”.

De acordo com o pró-reitor de Ensino do IFMG, Mário Alvarenga, a homenagem impacta a formação cidadã dos alunos. Ele afirmou: “Sabemos que não há como reparar a perda de uma vida, mas este ato tem um significado importante para os estudantes, pois serve como referência e inspiração. O movimento estudantil é um processo fundamental de formação de caráter e de cidadania. Esse momento é muito significativo para os estudantes de todo o IFMG”.

Durante a cerimônia, Délcio Pereira Fortes, irmão do homenageado, ressaltou o significado do gesto. Ele destacou a importância para a preservação da memória do estudante e de jovens que resistiram ao regime. Délcio Pereira Fortes afirmou: “Com a redemocratização do país, Hélcio vem recebendo várias homenagens post mortem, o que nos leva a crer que ele continua inspirando comportamentos e, acima de tudo, mora dentro dos nossos corações”.

Délcio Pereira Fortes é autor do livro Hélcio: Alex, Toninho, Ernesto, Nelson, Fradinho. A obra está em sua segunda edição, revista e ampliada. O livro retrata a trajetória do jovem revolucionário que marcou a história do movimento estudantil.

Resolução

O pedido de diplomação post mortem do ex-aluno passou por análise e aprovação do Conselho Superior do IFMG. A concessão ocorreu por meio da Resolução nº 45 de 5 de novembro de 2025.

Fonte: Comunicação / Campus Ouro Preto

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