A expansão de cursos de medicina em instituições privadas de alta qualidade, somada a uma mudança de prioridades entre os estudantes, como a proximidade familiar e a saúde mental, tem alterado o cenário do ensino superior no Brasil. Fatores como custos de vida em outras cidades e a busca por distinção social também influenciam a decisão de optar por faculdades particulares em detrimento das universidades federais.
A entrada de grandes hospitais no ensino médico mudou o cenário, com instituições privadas ligadas a estruturas de alta complexidade disputando alunos com as federais. “Dentro da medicina, a entrada dos hospitais na formação médica mudou o jogo. Uma graduação do Einstein ou do Sírio-Libanês rapidamente agrega um patamar de qualidade extremamente elevado”, afirma o consultor em ensino superior João Vianney, sócio da Hoper Educação.
De acordo com dados do Censo do Ensino Superior, citados pelo jornal O Tempo, as vagas em medicina na rede privada saltaram de 28 mil em 2019 para quase 42 mil em 2024, um crescimento de 49%. No mesmo período, as instituições públicas registraram uma expansão de 19%, passando de 11,5 mil para 13,7 mil vagas disponíveis para os estudantes.
A mudança também reflete uma geração que prioriza saúde mental e proximidade familiar. Segundo a professora Rosana Heringer, da Faculdade de Educação da UFRJ, esse movimento se tornou mais visível após a pandemia. “Muitos estudantes começaram a ter muito mais dificuldades de lidar com situações de pressão”, disse a especialista em ensino superior, que estuda desigualdades no acesso à universidade.
A estudante Laila Duarte, de 19 anos, exemplifica essa nova realidade. Aprovada em medicina na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em uma cidade a 190 km de Salvador, onde mora, ela também conseguiu uma bolsa integral pelo Prouni na Universidade de Salvador (Unifacs), a poucos minutos de sua casa. A decisão foi permanecer na capital baiana.
Apesar da gratuidade da universidade federal, o custo de moradia e alimentação pesou na escolha. “Fiquei com medo de fazer uma má escolha, porque… Poxa, federal sempre foi meu sonho”, disse Laila. “Medicina não tem como trabalhar. É o dia todo. Minha família teria que dar conta disso. Isso me chateou muito”, completou a estudante, que cursou o pré-vestibular com apoio da ONG Projeto Gaus.
Distinção social
A discussão sobre a escolha entre universidades públicas e privadas ganhou as redes sociais com um vídeo de Tulianne Maravilha, filha do ex-jogador Túlio Maravilha. Ela relatou ter recusado vagas na UFRJ e na Uerj para cursar o ensino superior em uma instituição privada, alegando que a decisão ajudaria a “manter os valores familiares” e estaria mais alinhada às suas convicções.
Para a professora Rosana Heringer, o episódio tornou público um debate antes restrito a conversas privadas. Ela menciona que, à medida que o acesso às universidades públicas se torna mais diverso, grupos privilegiados buscam novas formas de distinção social. A preferência por certas instituições privadas ou por estudar no exterior pode funcionar como um desses marcadores sociais de status.
A rápida expansão das faculdades privadas de medicina também alterou a dinâmica do mercado. Conforme análise do consultor João Vianney, o país já vive um cenário de superoferta de vagas, especialmente em cidades de porte médio e pequeno. “Isso acaba pressionando os preços e reduzindo o valor das mensalidades em algumas regiões”, afirma o especialista.
O avanço de programas de crédito educativo, como o Fies, também é um fator que facilita a decisão de estudar na rede privada. “Para uma família de classe média hoje, dá para manter um filho na medicina privada no interior pagando parte da mensalidade e financiando a outra metade”, conclui Vianney, destacando a viabilidade financeira para um número maior de pessoas.
