Com a iminente troca no comando do governo de Minas Gerais, servidores públicos estaduais se articulam para apresentar reivindicações ao vice-governador Mateus Simões (PSD), que assume o cargo no próximo domingo (22). A principal demanda é a recomposição salarial, diante de uma proposta de reajuste de 5,4% considerada insuficiente pelas categorias para cobrir perdas inflacionárias acumuladas.
Romeu Zema (Novo) deixará o Palácio Tiradentes para se dedicar à sua campanha presidencial, passando a gestão para Simões. Conforme informações do jornal O Tempo, lideranças sindicais das áreas de educação, segurança e saúde apontam a valorização do funcionalismo e o aumento real dos salários como a prioridade a ser negociada com o novo governador a partir da próxima semana.
Uma proposta de reajuste geral de 5,4%, retroativa a janeiro de 2026, já foi enviada por Zema à Assembleia Legislativa. Embora o índice supere a inflação de 2025, de 4,26%, os sindicatos afirmam que ele não compensa as perdas de anos anteriores. Em 2022, Zema prometeu reajustes anuais, mas concedeu apenas um aumento geral, de 4,62%, em 2024.
Em entrevista ao O Tempo, Zema afirmou que o percentual de 5,4% “está no limite daquilo que o estado pode dar”. O governador argumentou que qualquer valor acima disso poderia comprometer as finanças estaduais e resultar novamente em atrasos no pagamento dos salários. A declaração indica pouca margem para negociação por parte do governo atual.
Caso decida negociar um aumento maior, Simões enfrentará um prazo curto. A legislação eleitoral determina que reajustes acima da inflação só podem ser aprovados até 180 dias antes do pleito. Com isso, o novo governador teria até 4 de abril para firmar um acordo, obter aprovação legislativa e sancionar a nova lei com um valor superior.
O advogado Paulo Studart, especialista em direito administrativo, acrescenta que o estado possui limitações orçamentárias, pois aderiu recentemente ao Propag para gerenciar uma dívida de mais de R$ 180 bilhões com a União. Diante deste cenário, a relação com o funcionalismo público deve ser um dos principais desafios iniciais da gestão de Simões.
A justificativa financeira não diminui a mobilização dos servidores. “Esperamos pouca coisa ou nada do governo Simões. Mas entre nossas prioridades está o pagamento das perdas de 41,83% que o governo Zema não pagou ou pagou a menos”, reivindica Denise Romano, coordenadora-geral do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação (Sind-UTE/MG).
A insatisfação é compartilhada pelos servidores da segurança pública. Heder Martins, diretor jurídico da Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares, cobra que o novo governador cumpra as promessas não efetivadas pela gestão anterior. “Que ele cumpra o compromisso que Zema não cumpriu, de fazer a recomposição das perdas inflacionárias”, declarou.
Impasse pode impactar campanha eleitoral
A forma como Mateus Simões conduzirá a negociação com os servidores públicos pode influenciar sua campanha eleitoral ao governo de Minas em 2026, segundo analistas. Embora seja pré-candidato, Simões afirmou na última sexta-feira (13) que as eleições não orientam suas decisões sobre o tema, ressaltando o esforço orçamentário que o reajuste de 5,4% já representa.
Apesar da declaração, o advogado Paulo Studart, em análise para o jornal O Tempo, argumenta que a relação com os servidores é um fator político relevante. Para ele, um impasse prolongado na questão salarial pode ser interpretado como uma dificuldade de diálogo do governo com categorias estratégicas, como segurança, educação e saúde, afetando a percepção pública.
O cientista político Lucas Gelape observa que o pagamento de salários em dia, um trunfo do primeiro mandato de Zema, já não é suficiente para satisfazer o funcionalismo. “Os servidores querem mais. Eles não querem só receber em dia, eles querem ter aumento real de salários. O que já foi um ativo para o governo Zema, pode vir agora a ser um problema para a candidatura de Simões”.
