A Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG) passou a integrar, em março de 2026, uma frente estadual para fortalecer a medicina de precisão no Sistema Único de Saúde (SUS).
Por meio do Serviço de Diagnóstico Genético (SDG), a UNIFAL-MG atua em parceria com o Instituto Mário Penna (IMP), em Belo Horizonte, e com o Setor de Oncohematologia da Santa Casa de Alfenas.
Esta iniciativa é da Rede Mineira de Pesquisa Translacional em Oncologia (ReMPTO). A rede é coordenada pela professora Letícia Conceição Braga.
A rede busca transformar resultados da pesquisa básica em ferramentas aplicáveis à prática clínica. O foco inicial são pacientes com Leucemia Linfocítica Crônica (LLC) atendidos integralmente pelo SUS.
Na UNIFAL-MG, o trabalho é conduzido pelo professor Angel Mauricio Castro Gamero, do Instituto de Ciências da Natureza (ICN). Ele é responsável pelo SDG e conta com a participação da pesquisadora Carolina Pereira de Souza Melo e da equipe do serviço.
Segundo o professor Angel Gamero, a proposta vai além da realização de exames e da geração de dados laboratoriais. “Não estamos apenas prestando um serviço; estamos validando caminhos científicos e sociais para que a medicina de precisão deixe de ser um luxo e se torne um direito acessível no SUS”, afirma.
A parceria estabelece um fluxo contínuo entre a capital e o Sul de Minas. Amostras de pacientes do Instituto Mário Penna são enviadas a Alfenas para análises citogenéticas de maior complexidade.
Materiais genéticos coletados na região seguem para Belo Horizonte, onde passam por sequenciamento de DNA por NGS e processamento bioinformático. O objetivo é identificar alterações genéticas associadas ao comportamento da doença e à resposta terapêutica.
Para isso, a equipe utiliza técnicas como o cariótipo, que permite observar alterações nos cromossomos. Também é usada a hibridização fluorescente in situ (FISH), capaz de detectar mudanças específicas em genes relacionados ao câncer, como o TP53.
Essas ferramentas auxiliam na definição do prognóstico e na orientação de condutas terapêuticas. De acordo com a professora Letícia Braga, a relevância da parceria está na articulação entre conhecimento acadêmico e prática assistencial.
“O objetivo da nossa parceria é integrar o rigor acadêmico da UNIFAL-MG à vasta experiência clínica do Instituto Mário Penna. Focamos no mapeamento genômico e no estudo do cariótipo de pacientes com Leucemia Linfocítica Crônica atendidos 100% pelo SUS”, destaca.
A professora Letícia Braga complementa que a meta é “buscar entender as particularidades genéticas da nossa população para oferecer diagnósticos mais precisos e prognósticos assertivos”. A docente ressalta que a participação da Universidade é estratégica para consolidar a inovação em saúde no estado.
“A importância dessa parceria reside em ser o elo que transforma a pesquisa básica em protocolos robustos de diagnóstico. Além de pacientes, o Instituto Mário Penna irá prover a infraestrutura de ponta com o sequenciamento de DNA por NGS e o processamento de bioinformática”, explica.
A UNIFAL-MG, por sua vez, “garantirá a expertise em interpretação genética e a formação de recursos humanos qualificados”, conforme a professora Letícia Braga. Na avaliação da coordenadora da ReMPTO, o principal impacto do projeto está na democratização do acesso à tecnologia.
“Os pacientes do SUS não teriam acesso a esse tipo de tecnologia se não pela pesquisa. É a pesquisa democratizando acesso e favorecendo a equidade para os pacientes. Trata-se da busca pela soberania tecnológica dentro de Minas Gerais”, afirma.
Na ponta assistencial, os resultados já são percebidos como um avanço para o cuidado oncológico regional. O médico Carlos Eduardo Engel Velano, responsável pelo Setor de Oncohematologia da Santa Casa de Alfenas, explica que o diagnóstico genético permite decisões mais seguras e individualizadas.
“Na prática, essa parceria nos permite enxergar o que os exames convencionais não mostram. Ao recebermos as análises genéticas detalhadas da UNIFAL-MG, conseguimos estratificar o risco de cada paciente com Leucemia Linfocítica Crônica de forma individualizada”, afirma.
Segundo ele, isso significa definir com mais clareza quais pacientes precisam de tratamento imediato e quais podem ser acompanhados de forma conservadora. “Podemos decidir, com segurança, quem precisa de um tratamento mais intensivo e quem pode ser monitorado de forma mais conservadora”, ressalta.
O médico Carlos Eduardo Engel Velano acrescenta que a medida evita “toxicidades desnecessárias e otimizando os recursos do SUS na Santa Casa”. Ele destaca que a parceria insere a assistência oncológica regional em uma nova lógica de cuidado.
“Contar com esse suporte é entrar na era da medicina de precisão. O diagnóstico genético não é mais um ‘luxo’ acadêmico, mas uma ferramenta essencial para definir a terapia mais eficaz”, pontua. Para o oncologista, identificar previamente mutações que inviabilizam determinadas quimioterapias evita sofrimento desnecessário.
A identificação de mutações direciona o tratamento para alternativas mais adequadas, incluindo drogas-alvo. Além do impacto direto na assistência, a iniciativa fortalece o tripé universitário de ensino, pesquisa e extensão.
Segundo o professor Angel Mauricio Castro Gamero, a prestação de serviços do SDG contribui para a formação de estudantes de graduação e pós-graduação. Também subsidia trabalhos de conclusão de curso, estágios obrigatórios e projetos científicos.
A iniciativa amplia a inserção da Universidade em uma rede de pesquisa aplicada com repercussão social. De acordo com o docente, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), o grupo pretende, futuramente, contribuir para a elaboração de instrumentos que auxiliem médicos de diferentes regiões do estado na estratificação de risco e na tomada de decisão clínica.
