Estudantes em laboratório da Universidade, em registro feito em 2019 para o vídeo institucional. (Foto: Reprodução)
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Unifal-MG registra maioria feminina em diversas áreas e menor presença em Exatas e Engenharias

A participação feminina no ensino superior e na produção científica tem avançado, mas a desigualdade de gênero persiste em áreas como Ciências Exatas e Engenharias. Um levantamento da Unifal-MG, referente ao período de 2020 a 2025, revela que mulheres são maioria em diversas áreas, mas sub-representadas nos campos tecnológicos e científicos tradicionais.

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Este levantamento foi realizado em celebração ao Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, comemorado em 11 de fevereiro. Os dados da Unifal-MG refletem tendências globais e nacionais sobre a presença feminina na ciência.

No cenário internacional, mulheres representam cerca de um terço da comunidade científica. Dados da UNESCO indicam que a proporção de pesquisadoras aumentou de 28% em 2013 para aproximadamente 33% na última década, mostrando avanço, mas também estagnação.

Nos países do G20, mulheres ocupam cerca de 22% dos empregos em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). Apenas uma em cada dez posições de liderança nessas áreas é ocupada por mulheres, conforme o relatório Changing the equation: Securing STEM futures for women (2024/2025).

No Brasil, levantamentos na Plataforma Lattes indicavam que, no final da década de 2010, cerca de 40% dos pesquisadores com doutorado eram mulheres. Elas tinham maior presença nas áreas de Saúde e em várias áreas de Ciências Humanas e Sociais.

Dados recentes da CAPES e do CNPq mostram que mulheres são maioria entre estudantes de pós-graduação e bolsistas de mestrado e doutorado. No entanto, elas continuam sendo minoria em Engenharias e nas Ciências Exatas e da Terra.

Nessas áreas, estudos apontavam cerca de 26% de mulheres com doutorado em Engenharias e 31% nas Ciências Exatas e da Terra. A presença feminina diminui nos níveis mais altos, como nas bolsas de produtividade e nos cargos de liderança acadêmica.

Graduação na UNIFAL-MG: maioria feminina na maior parte das áreas

Na graduação da Unifal-MG, as mulheres são maioria entre os ingressantes e concluintes na maior parte das grandes áreas. Entre 2020 e 2025, elas representaram 74,40% dos ingressantes na área da Saúde e 76,10% nas Licenciaturas.

Nas Humanas, as mulheres corresponderam a 63,40% das matrículas iniciais, e nas Biológicas, a 58,60%. O mesmo padrão se repete na conclusão dos cursos.

74,70% dos formandos na Saúde e 74,80% nas Licenciaturas foram mulheres. O cenário muda nas áreas de Exatas e Engenharias.

Nesse grupo, os homens ainda são maioria entre os ingressantes (56,20%) e também entre os concluintes (50,80%). A diferença diminui ao final dos cursos, mas os dados indicam menor acesso feminino a essas áreas.

Para fins de análise, os cursos foram agrupados em grandes áreas do conhecimento a partir de dados extraídos do Sistema Acadêmico da UNIFAL-MG. (Arte: Ingridy Bueno Corrêa/Dicom)

Pós-Graduação: crescimento com disparidades

Na pós-graduação, a tendência de maioria feminina se mantém nas áreas da Saúde, Licenciaturas e Biológicas. Entre 2020 e 2025, mulheres representaram 83,50% dos ingressantes e 84,10% dos concluintes na área da Saúde.

Nas Licenciaturas, as mulheres corresponderam a cerca de dois terços dos ingressantes e concluintes. Em contrapartida, nas Exatas e Engenharias, apenas 41% dos ingressantes e 43,30% dos concluintes foram mulheres.

Isso demonstra que a desigualdade se prolonga nos níveis mais avançados da formação científica. Outras áreas também apresentam assimetrias.

Nas Sociais Aplicadas e nas Humanas, por exemplo, a presença masculina é superior na pós-graduação, tanto na entrada quanto na conclusão dos cursos. Esses dados indicam que a distribuição de gênero varia conforme o campo de atuação.

Para fins de análise, os programas foram agrupados em grandes áreas do conhecimento a partir de dados extraídos da Plataforma de Gestão de Projetos de Pesquisa/PRPPG/UNIFAL-MG. (Arte: Ingridy Bueno Corrêa/Dicom)

Base da carreira científica: Iniciação Científica

A presença feminina também é expressiva na Iniciação Científica. Entre 2020 e 2025, a Unifal-MG registrou 4.443 estudantes em projetos de Iniciação Científica nas modalidades com bolsa e voluntária.

Desse total, 49,40% são mulheres e 50,60% homens, o que indica equilíbrio de gênero na porta de entrada da carreira científica. A maior concentração feminina está na área da Saúde.

Nas áreas de Exatas e Engenharias, os homens são maioria entre os estudantes envolvidos em projetos de Iniciação Científica. Nas áreas de Humanas e Biológicas, os dados mostram distribuição equilibrada entre mulheres e homens.

Dados extraídos da Plataforma de Gestão de Projetos de Pesquisa/PRPPG/UNIFAL-MG. (Arte: Ingridy Bueno Corrêa/Dicom)

Servidores: titulação e gênero

O levantamento da Unifal-MG também analisou o perfil dos servidores da Instituição quanto à titulação acadêmica. Entre os docentes com doutorado, há um equilíbrio entre mulheres (49,40%) e homens (50,60%).

Já entre os docentes que possuem apenas o mestrado, os homens são maioria, representando 72% desse grupo. Entre os técnicos-administrativos com alta titulação, o cenário se inverte.

As mulheres correspondem a 63,60% dos técnicos com doutorado e a 54,80% daqueles com mestrado. Isso demonstra um investimento feminino na qualificação profissional também fora da carreira docente.

Dados extraídos do Portal de Dados Abertos/UNIFAL-MG. (Arte: Ingridy Bueno Corrêa/Dicom)

Produção acadêmica: teses e dissertações

A análise também considerou a produção acadêmica registrada no Repositório Institucional da Unifal-MG. Foram analisadas teses e dissertações defendidas entre 2020 e 2025.

No caso das teses de doutorado, foram identificados 145 trabalhos no período. A análise dos nomes dos primeiros autores indica equilíbrio entre mulheres e homens na autoria: 48,30% das teses foram assinadas por mulheres e 51,70% por homens.

No entanto, ao observar a distribuição por áreas, nota-se maior presença masculina nos trabalhos vinculados às áreas de Exatas e Engenharias. Isso reproduz o padrão de desigualdade já observado na formação acadêmica.

Já entre as dissertações de mestrado, foram identificados 1.051 trabalhos no mesmo período. Desses, 40,60% tiveram mulheres como primeiras autoras e 59,40% homens.

Assim como nas teses, as dissertações apresentam maior concentração nas áreas da Saúde e das Ciências Biológicas. Os trabalhos nas áreas de Exatas e Engenharias mantêm predominância masculina.

A análise foi realizada a partir dos metadados disponíveis no Repositório Institucional. A identificação do primeiro autor foi feita pelo nome e a classificação temática dos trabalhos com base em palavras-chave dos títulos.

Dados extraídos do Repositório Institucional/UNIFAL-MG. (Arte: Ingridy Bueno Corrêa/Dicom)

Vozes que ampliam a presença feminina na ciência da UNIFAL-MG

Os dados apresentados revelam avanços na formação de meninas e mulheres na ciência, mas também mostram que os desafios persistem. Isso é especialmente verdadeiro nas áreas de Exatas e Engenharias.

Além dos números, as trajetórias individuais traduzem, em experiências concretas, o que significa ocupar esses espaços. Ana Lidia de Castro, Carolina Mendes Gonçalves, Isabelle Ferreira e Victória Maria Da Ré Silva são exemplos.

Reconhecidas como Destaque Acadêmico, elas simbolizam, em diferentes cursos das Engenharias e do Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia, o avanço da presença feminina na formação científica da Unifal-MG.

Suas histórias revelam percursos marcados por dedicação acadêmica, participação em projetos de extensão, iniciação científica e envolvimento institucional. Esses elementos fortalecem não apenas currículos, mas também o sentimento de pertencimento.

Ana Lidia de Castro – graduada em Engenharia Ambiental. (Foto: Arquivo Pessoal)

Ana Lidia, da Engenharia Ambiental, associa a premiação à validação de uma trajetória construída com resiliência e suporte institucional. “A competência técnica não tem gênero e nossa presença é indispensável”, afirma.

Sua trajetória, marcada pela permanência estudantil e pelo compromisso com projetos de extensão em educação ambiental, reforça que a democratização do acesso ao ensino superior público também é parte da equação para ampliar a presença feminina na ciência.

Carolina Mendes Gonçalves – graduada em Engenharia de Minas. (Foto: Arquivo Pessoal)

Na Engenharia de Minas, área tradicionalmente masculina, Carolina destaca que o reconhecimento carrega um significado coletivo. “Ter o reconhecimento de Destaque Acadêmico dentro da Engenharia de Minas, em um curso majoritariamente masculino, significa que posso incentivar outras meninas a seguir a carreira científica”, pontua.

Ao falar sobre os desafios enfrentados, ela reconhece que os obstáculos existem. No entanto, ressalta a força das redes de apoio femininas construídas dentro da Universidade, apoio que transforma resistência em permanência.

Isabelle Ferreira – graduada em Engenharia Química. (Foto: Arquivo Pessoal)

Com uma formação que transita entre empresa júnior, PET, monitoria e Iniciação Científica, Isabelle, da Engenharia Química, demonstra como a universidade pública pode formar lideranças técnicas e científicas quando oferece oportunidades e incentivo.

Reconhecida pela segunda vez como Destaque Acadêmico, ela enfatiza o valor da constância e do envolvimento acadêmico. “Cada esforço valeu a pena e a dedicação sempre encontra seu caminho”, garante.

Victória Maria Da Ré Silva – graduada no Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia. (Foto: Arquivo Pessoal)

No Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia, Victória vê no reconhecimento uma reafirmação simbólica de pertencimento. “Mulheres pertencem e podem se destacar em cursos que historicamente possuem predominância masculina”, afirma.

Se as graduadas representam o presente da formação científica, a professora Renata Piacentini Rodriguez, do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT), e a professora Olga Luisa Tavano, da Faculdade de Nutrição, aprofundam o debate.

A professora Renata está à frente de uma iniciativa nacional de incentivo a meninas na ciência. A professora Olga é referência internacional em produção científica de alto impacto. Ambas promovem uma reflexão para as estruturas que ainda precisam ser revistas.

Renata Piacentini Rodriguez – professora do Instituto de Ciência e Tecnologia e coordenadora do projeto Ciência, Coisa de Menina. (Foto: Arquivo Pessoal)

“Se as meninas não têm contato com mulheres cientistas, se elas não fazem ideia de que a ciência é uma carreira possível para elas e se isso não parece algo factível, como poderão sonhar em ser cientistas?”, questiona a coordenadora do projeto Ciência, Coisa de Menina, a professora Renata.

Ela lembra que o estímulo precisa começar cedo. Para a professora Renata, romper estereótipos e ampliar modelos femininos é condição essencial para reduzir a lacuna de gênero nas áreas de STEM.

Olga Luisa Tavano – professora da Faculdade de Nutrição e única pesquisadora mulher da UNIFAL-MG entre as mais citadas do mundo. (Foto: Arquivo/Dicom)

No topo da carreira acadêmica, a professora Olga, única pesquisadora mulher da Unifal-MG a integrar o ranking internacional World’s Top 2% Scientists, chama atenção para uma dimensão menos visível da desigualdade.

Ao mencionar a “carga mental” ainda desigualmente distribuída fora do ambiente de trabalho, a pesquisadora aponta para desafios que ultrapassam a universidade e dialogam com estruturas sociais mais amplas. “Estamos chegando aos mesmos cargos, mas será que ao mesmo custo?”, pergunta.

Juntas, essas vozes mostram que ampliar a presença feminina na ciência não é apenas uma questão de acesso. Envolve permanência, reconhecimento, políticas públicas, redes de apoio, combate a estereótipos e transformação cultural.

Envolve, sobretudo, garantir que meninas e mulheres não apenas ingressem na ciência, mas permaneçam, avancem e liderem. Em 2026, a UNESCO escolheu como tema do Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência “From Vision to Impact: Redefining STEM by Closing the Gender Gap”.

A escolha reflete a necessidade de transformar diagnósticos em ações concretas capazes de reduzir a desigualdade de gênero nas áreas científicas e tecnológicas, especialmente em STEM. Os relatos completos das graduadas e das professoras, que aprofundam suas trajetórias, desafios e reflexões sobre a presença feminina na ciência, podem ser acessados nas páginas especiais da série.

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