Lançamento de livro sobre escravidão infantil no século 19 aborda resistência de crianças negras

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A historiadora Silvana Santus lança nesta quinta-feira (19), em Vitória (ES), o livro “Sobre a vida delas”, que investiga o cotidiano e as lutas de crianças negras durante o período da escravidão no Espírito Santo. O evento ocorre no Museu Capixaba do Negro (Mucane) e inclui uma exposição de fotos e gravuras da época, retratando a exploração do trabalho infantil escravizado entre 1870 e 1888.

A exposição que acompanha o lançamento apresenta 14 fotos e gravuras do período. As imagens, de domínio público, fazem parte de acervos como o do Instituto Moreira Sales (IMS) e ilustram o uso da mão de obra infantil escravizada, tema central da obra de Santus, que foca na realidade vivida por essas crianças no século 19, com base em casos reais de resistência.

De acordo com informações do jornal O Tempo, a pesquisa de Santus revela que as crianças eram comercializadas, vendidas ou alugadas por valores geralmente inferiores aos de um adulto escravizado. Elas desempenhavam as mesmas tarefas que os adultos, tanto no campo quanto nas casas, vivendo em um contexto de exploração e invisibilidade, conforme aponta a historiadora.

“Estavam dentro desse contexto de escravidão, vivendo uma não infância e um processo de invisibilidade, exploração e apagamento”, complementa a autora na obra. O livro analisa como as crianças eram vistas pela sociedade e tratadas politicamente, com um recorte temporal que vai de 1869 até os anos posteriores à abolição da escravidão, em 1888, na região do Espírito Santo.

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Um exemplo abordado no livro é a lei provincial nº 25, de 1869, que destinava recursos para libertar meninas de 5 a 10 anos, com a condição de que fossem educadas. No entanto, segundo a pesquisa, a lei teve um alcance limitado, beneficiando apenas 50 meninas em todo o período de sua vigência, o que demonstra a complexidade das políticas da época.

Relação com o presente e políticas públicas

A historiadora explica que a pesquisa busca contribuir para o debate sobre os desafios enfrentados por crianças negras no passado e no presente. Ela estabelece uma conexão entre a desumanização do período escravista e casos contemporâneos de violência e negligência, mostrando como certas atitudes e percepções sociais persistem ao longo do tempo.

Santus cita o caso do menino Miguel Santana da Silva, de 5 anos, ocorrido em 2020 no Recife. A criança caiu de um prédio após ser deixada sozinha em um elevador. “Quando uma mulher branca coloca uma criança negra dentro de um elevador, sozinha, abandonada à própria sorte, revela uma atitude desumana e que essa criança negra não tem importância ou tem menos valor, algo herdado desse passado escravista”, reflete a autora.

A autora defende uma atuação mais eficiente do poder público em relação às crianças negras, especialmente no ambiente escolar. “Minha proposta é voltarmos nosso olhar para o lugar que a criança preta vem ocupando na sociedade, a partir de reflexões que passam por proposições de políticas públicas mais justas e inclusivas”, afirma Silvana Santus.

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Ela também aponta a necessidade de reformular os currículos escolares para combater a invisibilidade e a violência. “[É preciso] transformar as estatísticas que colocam a criança negra em um lugar de invisibilidade e a tornam sujeita a violências já na primeira infância, na educação infantil, quando adentram o espaço escolar e são vitimadas pela violência do racismo”.

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