No Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, 18 de maio, o Hospital Universitário Clemente de Faria (HUCF), ligado à Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), ressalta a seriedade dos casos de violência sexual. O HUCF é referência no Norte de Minas para atendimento a vítimas de violência sexual e física.
Em 2025, a unidade da Unimontes registrou 211 atendimentos relacionados à violência sexual. De janeiro a abril de 2026, foram 66 casos. Esses números indicam a continuidade da demanda por serviços e a necessidade de fortalecer as políticas públicas de prevenção e enfrentamento.
O Hospital Universitário Clemente de Faria oferece acolhimento multidisciplinar a vítimas de violência sexual. O serviço inclui atendimento médico, psicológico e social, disponível 24 horas por dia. São oferecidas profilaxias contra infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e HIV.
Além disso, o hospital realiza a interrupção de gravidez nos casos previstos em lei. O atendimento busca oferecer suporte integral às vítimas, considerando os aspectos físicos e emocionais envolvidos na situação de violência.
Perfil dos atendimentos
A comparação direta entre os dados de 2025 (ano completo) e 2026 (parcial) não é recomendada devido à diferença nos períodos. No entanto, a análise proporcional permite identificar tendências no perfil dos atendimentos realizados.
Crianças e adolescentes continuam sendo os grupos mais afetados pela violência sexual. Em 2025, foram 142 casos (67%), sendo 91 crianças (43%) e 51 adolescentes (24%) do total de atendimentos registrados.
Em 2026, até abril, esse público representou 37 casos (56%). Desse total, 19 eram crianças (29%) e 18 adolescentes (27%). Esses dados reforçam a vulnerabilidade desses grupos.
Em relação ao gênero, a maioria das vítimas é do sexo feminino. Em 2025, foram 178 casos (84%) de mulheres. Em 2026, esse número corresponde a 64 registros (97%) de vítimas femininas.
Vítimas do sexo masculino somaram 33 casos (16%) em 2025. Em 2026, houve 1 caso (2%) de vítima masculina. A predominância feminina é uma característica constante nos registros.
Quanto à procedência, em 2025, 150 atendimentos (71%) foram de moradores de Montes Claros. Outros 61 casos (29%) vieram de outras regiões. A maioria dos atendimentos é local.
Já em 2026, até abril, 36 casos (55%) foram do município de Montes Claros. Outros 30 casos (45%) vieram de outras localidades. Houve um aumento na proporção de atendimentos de outras regiões.
O perfil dos agressores mostra que a maioria dos casos envolve pessoas conhecidas das vítimas. Em 2025, os dados destacam a proximidade entre agressor e vítima.
Amigos ou conhecidos foram responsáveis por 45 casos (21%). Pais agrediram em 18 casos (9%). Companheiros(as) ou namorados(as) foram agressores em 16 casos (8%).
Padrastos ou madrastas somaram 8 casos (4%). Primos(as) também foram agressores em 8 casos (4%). Outros familiares foram responsáveis por 8 casos (4%).
Casos com agressores desconhecidos totalizaram 27 registros (13%). Em 39 casos (18%), a informação sobre o agressor não foi identificada. Isso dificulta a ação preventiva em alguns cenários.
Em 2026, até abril, o padrão de agressores se manteve. Amigos ou conhecidos foram responsáveis por 20 casos (30%). Companheiros(as) ou namorados(as) agrediram em 8 casos (12%).
Padrastos ou madrastas somaram 3 casos (5%). Primos(as) foram agressores em 3 casos (5%). Pais agrediram em 1 caso (2%) e filhos(as) em 1 caso (2%).
Os casos com autores desconhecidos corresponderam a 16 registros (24%). Em 11 casos (17%), a informação não foi registrada. A proximidade do agressor com a vítima é um fator relevante.
De acordo com informações da Unimontes, a socióloga Theresa Raquel Bethônico Corrêa Martinez, do Hospital Universitário Clemente de Faria, afirma que os dados locais refletem um padrão nacional.
“Os nossos dados são muito parecidos com o que acontece nacionalmente. A gente tem uma incidência maior de crianças e adolescentes, em torno de 70%, com predominância de crianças. A violência sexual é majoritariamente maior em mulheres, embora haja um percentual de homens, que geralmente são crianças”, explica Martinez.
A socióloga também destaca que o vínculo entre vítima e agressor é um dos principais desafios no combate à violência. A confiança depositada no agressor dificulta a denúncia e a identificação dos casos.
“A maior parte dos agressores são pessoas conhecidas, de confiança das vítimas. No caso das crianças, são pessoas próximas da rotina, como pais, avôs, tios, padrastos e vizinhos. Já entre adultos, aparecem companheiros ou ex-companheiros”, afirma Martinez.
Sobre o local das ocorrências, Martinez reforça que os dados confirmam a predominância de ambientes privados. A violência ocorre frequentemente em locais onde a vítima deveria se sentir segura.
“Quase metade dos casos ocorre na residência da vítima ou do agressor. Também há um número expressivo de situações em que essa informação não é registrada, especialmente quando a violência envolve pessoas sem vínculo prévio claro”, pontua Martinez.
O levantamento do HUCF demonstra que a maioria dos casos de violência sexual e física ocorre dentro dos lares. Em 2025, 100 casos (47%) aconteceram em residências.
Em seguida, 23 casos (11%) ocorreram em via pública. Em 2026, foram 35 casos em residência (56%) e 9 em via pública (14%). A residência é o local mais comum.
Em ambos os períodos, há um número significativo de registros sem informação sobre o local (27% em 2025 e 24% em 2026). Isso indica a dificuldade em obter essa informação em todos os atendimentos.
No que se refere à produção de provas periciais, foram realizados 79 kits de coleta de vestígios em 2025. Desse total, 71 foram em vítimas do sexo feminino (90%) e 8 em vítimas do sexo masculino (10%).
Entre os atendimentos com coleta de vestígios em 2025, a distribuição foi: crianças (17 casos – 22%), adolescentes (24 casos – 30%), adultos (37 casos – 47%) e idosos (1 caso – 1%).
Em 2026, foram 35 kits de coleta de vestígios. Desses, 32 foram em vítimas do sexo feminino (91%), 2 em vítimas do sexo masculino (6%) e 1 em mulher trans (3%).
Entre os atendimentos com coleta de vestígios em 2026, a distribuição foi: crianças (11 casos – 31%), adolescentes (12 – 34%), adultos (11 – 31%) e idosos (1 – 3%).
Também foram registrados 9 casos de aborto legal em 2025, todos em vítimas adultas do sexo feminino. Esses procedimentos são realizados conforme a legislação vigente.
Em 2026, até abril, foram 10 casos de aborto legal. Desses, 9 foram em adultas (90%) e 1 em adolescente (10%). Os dados mostram a continuidade da demanda por esse serviço.
Os dados evidenciam a necessidade de atuação conjunta entre saúde, segurança pública e rede de proteção social. É fundamental ampliar as ações preventivas, especialmente durante o mês de combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes.
O Hospital Universitário da Unimontes destaca que o atendimento às vítimas é realizado de forma humanizada, sigilosa e multiprofissional. Essa abordagem contribui para o cuidado integral e para a geração de informações que apoiam a formulação de políticas públicas.
