O papel atual das instituições museológicas

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Celebrado nesta segunda-feira (18), o Dia Internacional dos Museus levanta um debate sobre a função contemporânea dessas instituições. Agentes culturais e gestores de espaços em Minas Gerais discutem a transição dos museus de locais de preservação para ambientes de diálogo, educação e pertencimento, refletindo transformações sociais e tecnológicas que redefinem seu papel na sociedade, quase 50 anos após a criação da data comemorativa.

As discussões estão alinhadas a preocupações do Plano Nacional Setorial de Museus (PNSM) 2025-2035. De acordo com informações do jornal O Tempo, o documento foi construído ao longo de 2024 pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e serve como referência para o planejamento do setor, propondo uma gestão compartilhada entre as instituições para enfrentar os novos desafios do cenário cultural.

A percepção é que os museus não são mais apenas espaços de contemplação. Ana Vilela, presidente da Casa Fiat de Cultura, afirma que houve transformações na relação com o público. “O museu hoje é um espaço de convivência, de encontro, de formação, de troca. Ele deixou de ser um lugar silencioso, quase intimidante, para se tornar um ambiente em que as pessoas podem se reconhecer, experimentar e construir repertório”, determina.

A gestora complementa que não é suficiente apenas abrir as portas, é preciso que o público sinta que o espaço lhe pertence. “O público passou de espectador a participante ativo. O conhecimento passou a se dar pela mediação, pela escuta e pelo diálogo, pelas atividades de experimentação artística”, observa Vilela, destacando a mudança na dinâmica de interação com os visitantes e a importância de criar um ambiente acolhedor.

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Gislane Tanaka, gerente-geral do CCBB-BH, aponta que o sentimento de pertencimento é um fator central para a aproximação do público. “Muitas vezes o problema não é o valor da entrada. É a ausência do hábito, da sensação de pertencimento, da compreensão de que aquele espaço também foi pensado para você”, atesta, indicando a necessidade de uma busca ativa para atrair novos visitantes.

Tanaka também ressalta o impacto que uma primeira visita pode ter na vida de uma criança e posiciona a educação como um pilar. “Um dos principais papéis dos museus é a educação. A mediação cultural não é entretenimento, é educação não formal que dialoga com a escola”, defende, reforçando a dimensão formativa dessas instituições culturais para além da simples exposição de acervos.

O PNSM 2025-2035 reconhece a centralidade da educação museal, dedicando uma diretriz ao seu fortalecimento por meio da Política Nacional de Educação Museal (PNEM). O documento define a prática como uma “função essencial dos museus que visa possibilitar a formação integral a públicos visitantes, potenciais e não visitantes (…) pela mobilização do conteúdo museal em vivências culturais mediadas e acessíveis”.

Relação com o território

Paula Azevedo, diretora-presidente do Inhotim, afirma que o papel dos museus inclui a construção de vínculos com seus territórios. “Museus devem ser espaços democráticos de encontro, capazes de promover pensamento crítico, ampliar repertórios e refletir as complexidades do seu tempo”, crava. Ela acrescenta que não faz sentido pensar em uma instituição desconectada da comunidade ao seu redor, reforçando a necessidade de engajamento local.

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“A experiência estética continua sendo importante, mas ela não existe separada das relações humanas e do território”, complementa Azevedo. Essa visão se alinha ao PNSM 2025-2035, que aponta para a necessidade de “criar e potencializar instâncias participativas de acompanhamento, monitoramento e gestão compartilhada dos patrimônios culturais musealizados”, reconhecendo a importância da participação social para a legitimidade das instituições.

Leônidas Oliveira, secretário de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais, também comenta sobre a mudança. “Os museus deixaram de ser apenas lugares de guarda do passado. Hoje, eles são territórios vivos de diálogo, educação, afeto e construção coletiva de sentidos”. Isabela Guerra, diretora de museus da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, concorda, afirmando que eles são “indutores de transformação social e cidadania”.

No ambiente acadêmico, o Espaço do Conhecimento UFMG é definido por sua diretora, Camila Mantovani, como “um lugar de encontro, escuta e troca”. Já Gabriela Franco, do Museu de Ciências Naturais da PUC Minas, destaca a atuação na “interface entre ensino, pesquisa, extensão, preservação de acervos, divulgação científica e interação com a sociedade”, aproximando a produção acadêmica do público geral.

Disputa de narrativa

A discussão sobre o papel dos museus também envolve a disputa de narrativas históricas, conforme aponta o padre Mauro Luiz da Silva, curador do Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos (Muquifu). “O papel social dos museus hoje não é apenas conservar objetos, mas disputar espaços de poder. Museu é, também, território de memória, conflito, decisão política e luta por reparação histórica”, avalia.

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Segundo o curador, o desafio é criar instituições onde certos grupos se reconheçam. “Durante muito tempo, os museus ajudaram a contar a história das elites e a silenciar outras experiências”, pontua. “Então, quando a favela constrói o próprio museu, ela deixa de ser objeto de observação e passa a produzir sua própria narrativa. O problema nunca foi só físico”.

Dulcilene Silva Fonseca, coordenadora do programa educativo do Palácio das Artes, ressalta que museus são espaços de escolha e representação. “Os museus não guardam apenas objetos; eles também guardam disputas de memória. (…) Quando determinados grupos nunca se veem representados, a mensagem implícita é que suas histórias não importam”, argumenta, destacando que as escolhas de acervo refletem pontos de vista específicos.

Essa preocupação está presente no PNSM 2025-2035, que estabelece o compromisso de “reconhecer e estimular a reparação histórica e a promoção do protagonismo de grupos historicamente excluídos nas ações dos órgãos e entidades do setor museal”. O documento enfatiza que estratégias de reparação devem estar presentes em toda a atuação do setor museal, incluindo os processos de musealização de memórias coletivas.

Xavier Vieira, presidente da Associação Pró-Cultura e Promoção das Artes (Appa), defende que os museus têm uma função na formação crítica da sociedade. Segundo ele, essa função é a de “gerando, principalmente, reconhecimento da sua própria origem, sua própria história e senso crítico para reconhecer o que faz sentido dentro da sua identidade”, em linha com a discussão sobre reparação histórica e protagonismo.

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