A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) divulgou um pedido formal de desculpas à sociedade brasileira. A instituição reconhece sua participação em um período da história da saúde pública do país. O comunicado foi emitido em 18 de maio de 2026, Dia Nacional da Luta Antimanicomial.
A UFJF aborda a história da saúde mental no Brasil, marcada por abandono e segregação. Essa realidade esteve ligada a estruturas manicomiais, que geraram diversas formas de violência. Tais condições foram documentadas em várias regiões do país.
A ideia de “loucura” foi associada à incapacidade e periculosidade, resultando em estigmas e discriminação. Isso levou à exclusão e ao enclausuramento de pessoas. Elas eram frequentemente privadas de condições mínimas de sobrevivência e submetidas a práticas punitivas.
As estruturas manicomiais também se basearam na concepção de que “desvios sociais” deveriam ser isolados e punidos. No Brasil, esses mecanismos foram usados como controle social. Eles afetavam comportamentos e características relacionadas a classe, raça, gênero e sexualidade.
O Hospital Colônia de Barbacena é citado como uma instituição com graves violações de direitos humanos. Estima-se que mais de 60 mil pessoas morreram no local no século XX. Muitas delas eram classificadas como indigentes, conforme o livro “Holocausto Brasileiro” de Daniela Arbex.
A obra de Daniela Arbex também registra que 1.853 corpos de internos foram comercializados. Esses corpos foram destinados a instituições de ensino da área da saúde para aulas de anatomia. A UFJF reconhece ter recebido parte desses corpos.
De acordo com a UFJF, os registros internos do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) indicam o recebimento de 169 corpos. Isso ocorreu entre os anos de 1962 e 1971. Os corpos foram utilizados em atividades didáticas de anatomia para cursos da área da saúde.
A Universidade Federal de Juiz de Fora pede desculpas à sociedade brasileira por essa prática. A UFJF afirma que a ação aviltou os corpos e a dignidade das pessoas falecidas no Hospital Colônia de Barbacena. A instituição se compromete a adotar medidas de reparação simbólica.
Essas medidas estão em consonância com as recomendações da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão da Procuradoria da República em Minas Gerais (MPF). A UFJF desenvolverá novas iniciativas e fortalecerá as existentes.
As ações incluem uma campanha de conscientização sobre direitos humanos e saúde mental. A universidade promoverá um evento sobre o tema e buscará apoio para a criação de um memorial. Também ampliará a inclusão do tema como eixo transversal nos cursos da área da saúde.
Além disso, a UFJF buscará apoio para sistematizar pesquisas documentais históricas. O objetivo é registrar as relações entre a UFJF e o Hospital Colônia de Barbacena. Essas iniciativas visam a reparação e a conscientização.
Desde 2010, o Departamento de Anatomia do ICB implementou o Programa de Doação Voluntária de Corpos – Sempre Vivo. A partir de então, todos os corpos recebidos pela instituição são provenientes exclusivamente de doações voluntárias.
A UFJF também realiza ações de conscientização e sensibilização sobre a importância da doação voluntária de corpos. Essas ações são direcionadas à sociedade e aos alunos ingressantes dos cursos da saúde. A prática segue as normas vigentes e o respeito à dignidade humana.
A UFJF se descreve como uma universidade dedicada ao ensino, pesquisa, extensão, cultura e inovação. A instituição afirma seu compromisso com a democracia, preceitos éticos e direitos humanos. Reconhece que a prática técnico-científica deve considerar o contexto histórico.
A produção científica da UFJF é orientada pela justiça social. A universidade foca no fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Atua em diversas áreas e níveis de atenção, com formação técnica de qualidade, ética e compromisso social.
Na área de saúde mental, a UFJF desenvolve ações de ensino, pesquisa e extensão interdisciplinares. Essas ações estão inseridas na Rede de Atenção Psicossocial de Juiz de Fora, de Minas Gerais e do país. A universidade reitera seu compromisso com o cuidado em liberdade.
A UFJF reafirma seu compromisso com o avanço das políticas de saúde mental no Brasil. Reconhece as conquistas da Reforma Psiquiátrica e da Luta Antimanicomial. Essa trajetória foi construída por militantes, profissionais, pesquisadores, intelectuais e usuários.
A luta é em defesa de serviços comunitários, abertos e orientados pelo respeito aos direitos e à dignidade de todas as pessoas. A universidade destaca a importância de assegurar que os direitos conquistados sejam acompanhados por assistência integral.
Essa assistência deve ser interdisciplinar, tecnicamente qualificada e com cobertura adequada em todos os níveis de atenção. O documento é assinado por Girlene Alves da Silva, Reitora, e Telmo Mota Ronzani, Vice-reitor.
