O Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) aprovou, nesta terça-feira (9), o tombamento federal da Casa da Ópera – Teatro Municipal de Ouro Preto. Considerado o mais antigo teatro em funcionamento contínuo da América Latina, o bem agora será inscrito no Livro do Tombo Histórico e no Livro do Tombo das Belas Artes, garantindo sua proteção em nível federal.
O tombamento reconhece a importância histórica, arquitetônica e artística do monumento, abrangendo a edificação, o terreno e os bens integrados ao imóvel. Fundado em 1770, o teatro já integrava o Conjunto Arquitetônico e Urbanístico de Ouro Preto, tombado pelo Iphan em 1938. Agora, o edifício passa a contar também com proteção individual, reforçando sua preservação como exemplar do período colonial brasileiro.
De acordo com informações do jornal O Tempo, a relatora do processo, Beatriz Bueno, lembrou que o reconhecimento ocorre após uma longa trajetória administrativa. O processo de tombamento foi iniciado em 1963 e permaneceu décadas sem uma decisão. “Trata-se de processo sexagenário, marcado por percursos institucionais sinuosos e por descaminhos evitáveis”, destacou a relatora em seu parecer, considerando o tombamento a correção de uma lacuna histórica.
A conselheira também sublinhou a relevância do espaço. “O mais antigo prédio teatral da América do Sul constitui um dos raríssimos exemplares remanescentes das casas de ópera do período colonial ainda preservados em sua materialidade e significado histórico”, afirmou Bueno, reforçando a importância da medida para a preservação do patrimônio cultural do país, conforme apurado pelo jornal O Tempo.
Restauração recente devolveu características originais ao espaço
Em dezembro de 2023, o teatro foi reaberto ao público após uma restauração que durou pouco mais de um ano, com custo de R$ 750 mil, financiada pelo Fundo Municipal de Patrimônio e pela Prefeitura de Ouro Preto. A reforma incluiu a revitalização de estruturas de alvenaria, substituição do telhado, pintura, revisão elétrica, descupinização e melhorias no sistema de combate a incêndios.
Segundo o gerente de cultura do município, Wanderson Gomes, em declaração ao jornal O Tempo na época, um dos desafios foi preservar a essência histórica. “Os desafios de uma restauração dessa natureza, desde a concepção do projeto, passando pela aprovação e culminando na execução, é que ela demanda um cuidado muito grande para não se executar ações que prejudiquem o bem e sua história”, disse.
Um exemplo foi a troca do telhado, que exigiu a substituição de duas vigas de madeira de 10 metros. Para não descaracterizar o prédio, o material foi encomendado do Pará. “Não poderíamos simplesmente recorrer, por exemplo, a uma substituição desse material por estruturas metálicas, que descaracterizariam o prédio”, explicou o diretor da Casa da Ópera, Roberto Sussuca, ao veículo de comunicação.
Palco de inconfidentes, imperadores e artistas
Inaugurada em junho de 1770 como Casa da Ópera de Vila Rica, a construção foi uma ordem do governador das Capitanias de Minas Gerais, o Conde de Valadares. O local foi palco de uma opereta de Cláudio Manuel da Costa e um dos primeiros espaços nas Américas a permitir a presença de mulheres nos palcos, em uma época em que homens interpretavam papéis femininos.
Ao longo de sua história, o espaço recebeu personalidades como o imperador Dom Pedro II, o poeta Alvarenga Peixoto e Juscelino Kubitschek. Este último organizou no local um festival de arte em 1955, ano em que foi eleito presidente da República, consolidando a importância do teatro no cenário cultural e político do Brasil, conforme registros históricos levantados pelo jornal O Tempo.
Uma reportagem do mesmo jornal, de dezembro de 2023, destacou a história de Vicente Gomes, músico e técnico de iluminação, então com 70 anos e funcionário há 43 anos. “Trabalho aqui há 43 anos e, para ser bem sincero, não saberia te dizer se passei mais tempo da minha vida aqui ou na minha própria casa”, contou ele na ocasião.
O secretário municipal de Cultura e Turismo, Flávio Malta, afirmou na mesma época que a expectativa era de que o teatro passasse a contar com um edital de ocupação. O projeto, chamado Ocupa Casa da Ópera, visaria fomentar atrações culturais gratuitas. “Queremos que o teatro seja um espaço vivo, de encontro, de fruição, de formação e de valorização da nossa cultura”, disse.
Com a aprovação do tombamento, o Teatro Municipal de Ouro Preto, que completará 255 anos em junho, ganha proteção federal reforçada. A medida busca assegurar que futuras gerações possam continuar a conhecer o espaço. Malta concluiu afirmando que o objetivo é preservar “esse patrimônio que é de todos nós”, garantindo a continuidade de sua história e relevância cultural.
