Foto: Última Hora/Arquivo Público do Estado de São Paulo
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Comissão federal conclui que Juscelino Kubitschek foi assassinado pela ditadura em 1976

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A morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek em 22 de agosto de 1976, em um episódio com circunstâncias suspeitas, ocorreu doze anos após ele ter apoiado o golpe militar. Na época de seu falecimento, JK havia se tornado um dos principais opositores da ditadura, regime pelo qual se sentiu traído por não ter cumprido os acordos políticos estabelecidos no período da deposição do então presidente João Goulart.

Em 31 de março de 1964, Juscelino Kubitschek, então senador, foi uma das lideranças que apoiaram a deposição de João Goulart. Conforme informações do jornal O Tempo, o acordo previa que o general Castello Branco, ao assumir a Presidência, apenas completaria o mandato de Jango. As eleições diretas estavam previstas para 1965, e JK era apontado como favorito com o slogan “JK 65: A Vez da Agricultura”.

O acordo, no entanto, não foi cumprido pelos militares. Nas semanas seguintes ao golpe, foi sinalizado que não haveria eleições diretas. Cresceram também as ameaças de cassação de direitos políticos de opositores ao novo regime, incluindo o próprio Juscelino. Seus concorrentes no pleito seriam nomes como Carlos Lacerda, Jânio Quadros, Leonel Brizola e Miguel Arraes, que também foram afetados pela mudança de rumos.

Em 3 de junho de 1964, JK proferiu seu último discurso como político, ciente da iminência da perda de seus direitos. A confirmação da cassação ocorreu cinco dias depois. Em sua fala, ele buscou denunciar o que considerava um atentado às instituições livres, que se consumaria com o seu afastamento da vida pública, caso a violência se concretizasse contra sua pessoa e mandato.

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“Faço-o agora para que se o ato de violência vier a consumar-se, não me veja eu privado do dever de denunciar o atentado que na minha pessoa vão sofrer as instituições livres. […] Será um ato de traição às promessas da revolução que ofereciam a oportunidade a todos os brasileiros de colaborarem na obra comum de reconstrução do país. Muito mais do que a mim, cassam os direitos políticos do Brasil”, disse.

Da tribuna do Senado, JK afirmou que a mobilização que apoiou havia se tornado uma “sanha liberticida”, da qual ele era a “vítima preferida”, e previu a escalada de ações autoritárias que se seguiram nos anos posteriores.

“Adianto-me apenas ao sofrimento que o povo vai enfrentar nessas horas de trevas que já estão caindo sobre nós. Mas dela sairemos para a ressurreição de um novo dia em que se restabelecerão a justiça e o respeito à pessoa humana. O ato das forças tirânicas que ameaçam apossar-se da revolução, de banir-me da vida pública, terá consequências que dificilmente poderão ser previstas”.

Em outubro de 1965, em vez de eleições diretas, foi editado o Ato Institucional n.º 2. A medida dissolveu os partidos políticos existentes, impôs eleições presidenciais indiretas, realizadas pelo Congresso Nacional, e deu ao presidente da República poder para cassar mandatos, entre outras determinações.

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Exílio, retorno e Frente Ampla

Com os direitos políticos cassados, JK se exilou, passando por cidades como Paris, Lisboa e Nova York, assim como outros políticos e artistas que se opunham ao regime. Ele retornou ao Brasil em 1967 e, considerado persona non-grata em Brasília, a cidade que idealizou e fundou, passou a viver como fazendeiro no município de Luziânia, em Goiás, no entorno do Distrito Federal.

No ano de 1968, Juscelino Kubitschek integrou a Frente Ampla, um movimento de oposição à ditadura que pedia a retomada das eleições diretas. A articulação uniu antigos adversários políticos, como Carlos Lacerda e João Goulart. O movimento, no entanto, foi proibido e reprimido pelo regime militar, resultando na cassação dos direitos políticos de Lacerda, que havia sido um dos apoiadores civis do golpe de 1964.

Morte é reconhecida como atentado político

A versão oficial do governo militar para a morte de Juscelino Kubitschek aponta para um acidente automobilístico na Rodovia Presidente Dutra, no Rio de Janeiro. Segundo os registros da época, o Opala do ex-presidente, dirigido pelo motorista Geraldo Ribeiro, teria perdido o controle, invadido a pista contrária e colidido com uma carreta, o que causou a morte de ambos os ocupantes do veículo.

As circunstâncias da morte sempre foram cercadas de suspeitas. Historiadores apontam que, na época, houve destruição de provas e os corpos não foram submetidos a exames de necropsia detalhados. Além disso, o motorista do ônibus que, segundo a tese inicial, teria fechado o Opala e induzido o acidente, foi absolvido pela Justiça em segunda instância, aumentando as dúvidas sobre a versão oficial dos fatos.

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Em maio de 2024, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, do governo federal, concluiu que JK foi assassinado pela ditadura militar. De acordo com o jornal O Tempo, o relatório analisado sustenta que a tese de acidente apresentava inconsistências técnicas e não foram encontradas provas da colisão entre o ônibus e o carro do ex-presidente, reforçando a hipótese de atentado.

Uma investigação do Ministério Público Federal, divulgada em 2021, já havia descartado evidências de choque entre os veículos e apontou falhas nas apurações conduzidas pelo Estado brasileiro na época. Entre os problemas citados, estão a ausência de exames toxicológicos mais amplos no motorista Geraldo Ribeiro e inconsistências nos laudos periciais produzidos durante o período da ditadura militar.

Um dos pontos centrais do parecer que embasou novas conclusões foi uma perícia técnica coordenada pelo engenheiro Sergio Ejzenberg, especialista em transportes. O trabalho consistiu na revisão de laudos antigos que foram produzidos pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli, no Rio de Janeiro, e que serviram de base para a versão oficial do acidente na época dos acontecimentos.

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