Pesquisadores de diferentes países utilizaram uma estalagmite da Gruta Rei do Mato, em Sete Lagoas (MG), para mostrar que o aquecimento global atual é mais rápido que as mudanças naturais registradas no fim da última era glacial. O estudo, que contou com a participação de cientistas do Brasil, Peru, China, Noruega, Alemanha e Estados Unidos, foi detalhado em uma pesquisa publicada na revista “Nature Communications”.
A análise da estrutura rochosa permitiu reconstruir a temperatura no centro-leste da América do Sul há milhares de anos. De acordo com o jornal O Tempo, a estalagmite é tratada como um “termômetro do passado”. O professor Luiz Eduardo Panisset Travassos, da PUC Minas, foi o responsável por monitorar as condições atuais da caverna, etapa fundamental para calibrar os dados históricos obtidos na pesquisa.
Para os cientistas, as estalagmites funcionam como arquivos do clima. “Estalagmites crescem lentamente, gota a gota, ao longo de milhares de anos, à medida que a água da chuva se infiltra pelo solo e pinga no piso da caverna, depositando carbonato de cálcio”, explica Travassos. Durante esse processo, a formação rochosa aprisiona gotas de água em cavidades microscópicas, que funcionam como cápsulas do tempo.
A Gruta Rei do Mato é um monumento natural estadual localizado em Sete Lagoas. Aberta à visitação, a caverna possui passarelas e iluminação para os turistas. Suas estalactites e estalagmites são as principais atrações, com algumas formações consideradas raras. A gruta está situada na margem da BR-040, em frente ao trevo de acesso à cidade, que tem cerca de 240 mil habitantes.
Estalagmite estudada guarda registro de até 22,5 mil atrás
A estalagmite analisada, nomeada REI 7-2, foi encontrada partida em 2009. “Suas camadas guardam um registro contínuo que vai de 22,5 mil até 9,3 mil anos atrás”, destaca o pesquisador da PUC-MG. Para determinar a temperatura do passado, a equipe utilizou uma técnica de alta precisão chamada microtermometria assistida por nucleação, analisando mais de 850 inclusões fluidas, que são as gotas de água aprisionadas.
Os resultados indicam que, entre o auge da última era glacial e o início do período atual, a temperatura na caverna aumentou cerca de 5,8 °C, passando de uma média de 14,4 °C para 20,1 °C. O aquecimento não foi contínuo, ocorrendo em etapas, incluindo uma pausa de resfriamento de 0,5 °C. O momento mais marcante foi um aumento de 1,4 °C em apenas dois séculos, há 13 mil anos.
Essas mudanças estão associadas a alterações na Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico (Amoc), um sistema de correntes oceânicas que distribui calor entre os hemisférios e influencia o regime de chuvas na América do Sul. Segundo Travassos, mesmo o aquecimento abrupto registrado na estalagmite foi mais lento do que o aquecimento observado atualmente na região de Sete Lagoas.
Desde 1980, a região esquenta a um ritmo de 0,32 °C por década. A velocidade máxima do aquecimento natural no fim da era glacial foi de aproximadamente 0,12 °C por década. “Em outras palavras: o aquecimento atual é cerca de duas vezes e meia mais rápido do que a mudança natural mais veloz dos últimos milhares de anos, impulsionado pelo aumento da concentração de gases de efeito estufa”, afirma o pesquisador.
Rei do Mato tem estruturas raras e está em formação
A Gruta Rei do Mato possui quatro salões abertos à visitação, em um percurso de 220 metros de caminhada e descida de até 40 metros. O Salão das Raridades é o que mais se destaca, com estruturas encontradas em poucos lugares do planeta. Entre elas estão as Torres Gêmeas, duas colunas cilíndricas com cerca de 20 metros de altura e 30 centímetros de diâmetro.
Especialistas classificam a caverna como uma gruta viva, pois ela ainda está em processo de formação, com gotejamento de água ativo em alguns pontos. Acredita-se que existam outros cinco salões ainda não explorados, o que poderia elevar a extensão total da gruta para aproximadamente 1.000 metros. O nome da caverna é uma referência a José Elói de Deus, que teria usado o local como refúgio.
