Às vésperas do Dia Nacional da Cachaça, celebrado em 13 de setembro, chefs de Minas Gerais demonstram a crescente utilização da bebida como um ingrediente versátil na gastronomia. Eles exploram a cachaça em marinadas, molhos, sobremesas e até cafés, movendo o destilado para além do copo e integrando-o às diversas etapas da preparação de pratos, com o objetivo de agregar sabor e complexidade.
A chef Ana Gabi Costa, do restaurante Trintaeum, utiliza a bebida no prato “Porco sem Mágoas”. A técnica, inspirada em uma tradição familiar, emprega a cachaça na marinada da copa-lombo e na finalização do molho. O uso do destilado não é apenas simbólico, mas funcional, atuando diretamente na composição do sabor e na textura da carne, demonstrando seu papel prático na cozinha.
De acordo com informações do jornal O Tempo, o Dia Nacional da Cachaça foi instituído em 2009. A data remete ao dia em que, no ano de 1661, a Coroa Portuguesa liberou a produção e a comercialização da bebida no Brasil, após um movimento de produtores conhecido como “Revolta da Cachaça”. O evento marca um momento histórico para o destilado nacional.
Minas Gerais se destaca no cenário nacional. Segundo o Anuário da Cachaça 2026, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado possuía 564 estabelecimentos produtores registrados em 2025, mantendo a liderança no país. “A cachaça faz parte da construção do nosso sistema alimentar mineiro. Trata-se de um ingrediente intrinsecamente ligado à nossa gastronomia”, pontua a chef Ana Gabi Costa.
No Trintaeum, a bebida está presente em diversos preparos, como pudim, fígado, caldo de galinha, tutu e conservas. Para garantir a harmonização, a chef trabalha com a sommelier Polly Ávila, que auxilia na seleção das cachaças adequadas para cada técnica e nota de sabor desejada. “A cachaça também é um ingrediente de extrema qualidade de Minas Gerais”, afirma Ana Gabi.
Técnicas e Sabores
No Dorsé Bar, o chef Elmo Barra utiliza a cachaça para equilibrar sabores. Em um molho à base de rapadura para acompanhar uma coxinha de tapioca, a bebida foi adicionada para quebrar o dulçor, trazendo acidez e criando um perfil agridoce. “O molho tinha como base a rapadura, então, pra quebrar o dulçor, testamos a cachaça, que trouxe a acidez e o equilíbrio”, explica o chef.
Elmo Barra considera a cachaça uma “espécie de especiaria líquida”, destacando sua versatilidade em diferentes preparos. A variedade da bebida, influenciada pela matéria-prima, processo de produção e envelhecimento em diferentes madeiras, como amburana ou carvalho, resulta em comportamentos e notas sensoriais distintas, que podem ser exploradas na cozinha para perfumar, intensificar ou equilibrar pratos, conforme a intenção do cozinheiro.
Para a sommelier Isadora Fornari, a multiplicidade da cachaça a torna um ingrediente complexo e interessante para a gastronomia. Ela aponta que a bebida possui camadas sensoriais de dulçor, acidez, amargor e madeira, características que demandam atenção para serem combinadas de forma adequada nos pratos. “Cachaça como ingrediente traz muita complexidade, é um dos destilados mais complexos que existem”, explica.
Na Lapinha da Serra, a chef Marina Leite, do restaurante Casulo, trabalha com a cachaça Xavier, produzida na Serra do Cipó. Em seu menu-degustação, uma reserva especial envelhecida por dez anos em carvalho acompanha araticum e sorvete de jabuticaba. “Nossas criações são elaboradas a partir dos insumos e produtos da nossa região. Trabalhar com a cachaça tradicional local e premiada agrega muito valor”, disse.
Redefinindo o Uso da Bebida
Leandro Dornas, do empório Minas Demais, criou o “Uairish Coffee” ao substituir o uísque por cachaça envelhecida em uma receita de irish coffee. A bebida combina café expresso, doce de leite, leite vaporizado e o destilado brasileiro. A escolha de uma cachaça com notas de madeira que dialogam com o café, sem se sobrepor, foi fundamental para o equilíbrio da criação.
A iniciativa de Dornas levanta uma questão sobre a percepção de destilados na gastronomia. Enquanto bebidas estrangeiras são comumente aceitas na cozinha e na confeitaria, a cachaça ainda busca seu espaço. “Essa brincadeira do Uairish Coffee com o irish original mostra que a nossa cachaça, essa bebida genuinamente brasileira, tem uma infinidade de possibilidades”, disse Leandro Dornas sobre o potencial do produto.
Na confeitaria, a chef Marina Mendes, do Sá Marina, criou um choux com recheio de caipirinha e avelã. Ela vê na cachaça uma forma de trabalhar a brasilidade com sofisticação técnica, sem recorrer a estereótipos. “Ela tem toda a potencialidade para ocupar, na pâtisserie, o mesmo lugar que o conhaque e o uísque já ocupam há séculos”, compara a chef.
Para Marina Mendes, o uso da cachaça na gastronomia representa uma mudança de perspectiva. A bebida passa a ser escolhida por suas características e funcionalidade na receita, e não apenas para conferir uma identidade nacional ao prato. “Não é sobre ‘abrasileirar’ a sobremesa. É sobre deixar o Brasil falar por ele mesmo”, afirma, defendendo o uso do ingrediente por seus próprios méritos.
Valorização e Mercado
Apesar da diversidade e qualidade da produção nacional, a percepção sobre a cachaça ainda enfrenta desafios. A sommelier Isadora Fornari aponta que, historicamente, produtos brasileiros foram vistos como inferiores aos importados. Esse cenário, no entanto, está mudando à medida que produtores aprimoram processos e exploram novas técnicas, como o envelhecimento em diferentes tipos de madeira, para criar bebidas mais distintas.
Dados do Anuário da Cachaça 2026, do Ministério da Agricultura, mostram que o Brasil registrou 1.538 estabelecimentos produtores e 8.379 produtos de cachaça em 2025. Conforme divulgado pelo jornal O Tempo, Minas Gerais lidera o setor, com 564 estabelecimentos e 2.922 produtos registrados, evidenciando a força do estado na produção do destilado.
Guilherme Costa, sócio da Cachaçaria Lamparina, destaca que a variedade de madeiras usadas para envelhecer a bebida, como amburana, bálsamo e carvalho, é um dos grandes diferenciais da cachaça. Cada madeira imprime características únicas ao destilado, resultando em uma gama de produtos com perfis aromáticos, especiados ou adocicados, que começam a receber mais atenção de especialistas e consumidores.
Ainda assim, Guilherme Costa acredita que há um caminho a ser percorrido para a plena valorização da bebida. “Falta a nós, consumidores e brasileiros, estar mais abertos ao consumo da cachaça, diminuir esse ruído que existe”, disse. Ele se refere à ideia de que a cachaça é uma bebida de baixa qualidade, uma percepção que, embora esteja diminuindo, ainda persiste.
