Fenômenos climáticos extremos, como enchentes, secas e ondas de calor, estão se tornando um tema recorrente nas principais provas de vestibulares e no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A abordagem é multidisciplinar, exigindo que os candidatos relacionem os eventos atuais a conceitos de geografia, biologia, matemática e ciências humanas.
De acordo com O Tempo, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) classificou um ano recente como um dos mais extremos, registrando 1.493 desastres ligados a chuvas. No Brasil, o El Niño, confirmado pelo INMET, deve se intensificar, enquanto ondas de calor e ciclones também colocam o clima em evidência.
As provas têm abordado os impactos das mudanças climáticas de forma multidisciplinar, conectando geografia, história, biologia e física. A Fuvest 2025, por exemplo, usou as enchentes do Rio Grande do Sul de maio de 2024 em uma questão de matemática, enquanto a Unicamp 2025 também abordou o mesmo evento em sua primeira fase.
Um evento como uma enchente pode ser analisado por diversas áreas do conhecimento nas provas. A abordagem pode envolver o ciclo da água (ciências da natureza), a ocupação das cidades (geografia), a interpretação de dados de chuva (matemática) e questões sobre políticas públicas e direitos (cidadania), segundo explica o coordenador pedagógico da Verbum Educação, Marcos Benfica.
Geografia e impactos socioambientais
Em geografia, o conceito de El Niño pode ser cobrado de várias formas, desde suas características até seus impactos no regime de chuvas e temperaturas. As provas podem associar o fenômeno às mudanças climáticas, devido ao aumento da intensidade e frequência dos eventos. É importante conhecer os impactos socioambientais, como secas no Norte e Nordeste e chuvas intensas no Sul e Sudeste do Brasil.
“Quando esses fenômenos ocorrem, há uma alteração na evaporação e na liberação de calor das águas oceânicas, o que impacta a umidade, as temperaturas e o sistema de circulação das massas atmosféricas, afetando a distribuição das chuvas”, afirma Fabiana Pegoraro, coordenadora de geografia do Colégio Rio Branco.
Os vestibulares também podem explorar a desigualdade socioespacial e a vulnerabilidade de diferentes populações. Os impactos dos eventos climáticos não são distribuídos igualmente, afetando comunidades indígenas e ribeirinhas com a alteração do nível dos rios e moradores de áreas urbanas vulneráveis com enchentes e deslizamentos, por exemplo, interrompendo o acesso a serviços básicos.
Biologia, química e física
Nas ciências da natureza, as questões exigem a compreensão da relação causal entre um fenômeno e seus efeitos nos ecossistemas. Os exames podem explorar de forma interdisciplinar o aumento das temperaturas e as queimadas, relacionando-os à fragmentação de habitats, efeito estufa, acidificação dos oceanos e derretimento de geleiras, segundo o professor de biologia Rafael Lucena Lomazi.
As ondas de calor e secas podem ser associadas aos impactos na fauna e flora. Uma questão pode apresentar um gráfico sobre o aumento da temperatura e pedir ao candidato que identifique consequências para a agricultura, como a redução de agentes polinizadores. Esses temas permitem abordar conteúdos de química e física, como a relação entre o derretimento de geleiras, calor latente e expansão térmica.
Matemática
Na matemática, os desastres climáticos são transformados em dados para análise, podendo ser cobrados em questões de porcentagem, razão, proporção e médias. O estudante pode encontrar gráficos comparando o volume de chuva com a média histórica, tabelas sobre o avanço de queimadas ou dados do número de pessoas afetadas por enchentes, por exemplo.
Para se preparar, é útil observar como os números são apresentados em notícias, analisando o período, a unidade de medida e a escala do gráfico. Segundo Tainara Dias, da Casio Educação, um erro comum é analisar um número isoladamente, sem compreender sua base de comparação. A interpretação correta dos dados é frequentemente tão importante quanto o cálculo em si.
História, sociologia e atualidades
As questões ambientais estão cada vez mais conectadas a processos históricos, sociais, econômicos e políticos. Para compreender os impactos das mudanças climáticas, é preciso analisá-las sob diferentes perspectivas, como a Revolução Industrial, a expansão de atividades produtivas e as desigualdades entre países e populações, o que torna o acompanhamento de atualidades fundamental.
“Os desastres climáticos são as evidências perceptíveis de um processo global que surgiu com os miasmas urbanos da Revolução Industrial. Se no início eles ocorriam em escala local nas cidades europeias industrializadas, atualmente estamos debatendo as inter-relações de extração, produção, distribuição, consumo e descarte ao redor do globo, com ampla desvantagem para o chamado Sul Global. Ao longo do século XX, principalmente a partir de 1950/1960, as empresas deslocaram suas unidades fabris do Norte para o Sul Global em busca de mão de obra mais barata e leis ambientais mais flexíveis”, compartilha Vitor Mizuki, professor de geografia na Beacon School.
Analisar a relação entre economia, geopolítica, desigualdade social, racismo ambiental e acordos climáticos pode ser um caminho para a compreensão de questões mais complexas sobre o tema nos exames de vestibular e no Enem.
