O Brasil entrou em alerta para extremos de chuva e seca após o Cemaden emitir 685 alertas em fevereiro. O novo boletim da instituição aponta pressão sobre bacias hidrográficas estratégicas, rios e áreas urbanas. O cenário de contraste entre excesso e falta de água pode gerar impactos em setores como abastecimento, energia, agricultura e navegação nos próximos meses, até maio, de acordo com o relatório.
O boletim mensal do Cemaden é um relatório técnico que analisa dados de chuva, seca, nível de rios e alertas de desastres. O documento cruza essas informações com os impactos em setores estratégicos para o país, como o abastecimento de água para a população, a geração de energia hidrelétrica, a produção agrícola e a navegação fluvial, oferecendo um panorama integrado dos riscos hídricos e geológicos.
Segundo o boletim, dos 685 alertas emitidos em fevereiro, 426 foram de origem hidrológica, como alagamentos e enxurradas, e 259 de origem geológica, como deslizamentos de terra. No mesmo período, foram registradas 541 ocorrências. A região Sudeste concentrou 80% dos alertas, com 547 registros, indicando maior pressão sobre suas áreas urbanas e de risco, sendo a mais afetada do país no período.
No início de março, rios do noroeste da região Norte, norte do Centro-Oeste, de grande parte do Nordeste e do norte do Sudeste apresentavam níveis acima da média para o período. Em contrapartida, rios no Acre, Rondônia, Amapá e em partes do Sul e Sudeste registraram vazões abaixo da média, evidenciando a divisão hídrica que afeta o território nacional e pressiona diferentes setores da economia.
Projeções e impactos da seca
Para o trimestre de março a maio, a tendência é de vazões acima do normal no sudoeste da região Norte, em partes do oeste de Mato Grosso e no norte do Sudeste. Já a porção central do Brasil deve continuar com vazões abaixo da média. Segundo o Cemaden, os impactos podem persistir devido à resposta lenta dos rios e reservatórios aos regimes de chuva recentes.
O boletim aponta uma redução nas categorias mais graves de seca, embora o problema persista. O número de municípios em seca severa caiu de 361 em janeiro para 70 em fevereiro, uma queda de 80,6%. No entanto, a quantidade de cidades em seca fraca aumentou, passando de 2.320 para 2.526, mostrando que o déficit hídrico ainda afeta uma grande área do território nacional.
As condições de seca moderada e severa continuam concentradas em áreas de Tocantins, Pará, e em partes de Mato Grosso e Goiás. A situação também afeta trechos do Triângulo Mineiro, de São Paulo e do Paraná. Isso indica que, apesar da melhora geral, o quadro de estiagem ainda exige atenção nessas localidades específicas, conforme detalhado pelo centro de monitoramento em seu mais recente relatório.
Situação de reservatórios e bacias estratégicas
O Sistema Cantareira, essencial para o abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo, encerrou fevereiro com 36% de seu volume útil, permanecendo na faixa de alerta. Embora tenha havido uma melhora em relação a janeiro, o nível atual é inferior ao registrado no mesmo período de 2025 e também aos níveis anteriores à crise hídrica, mantendo o sistema em estado de atenção.
No setor hidrelétrico, o relatório do Cemaden destaca uma situação mais crítica nas bacias dos rios Paraná e Tocantins-Araguaia, com trechos em condição de seca hidrológica excepcional. Bacias como as dos rios Paraíba do Sul, Jequitinhonha, Doce e São Francisco também apresentaram níveis variando de seca fraca a extrema, impactando a geração de energia e a disponibilidade de água para outros usos.
A análise também chama a atenção para a bacia do rio Paraguai, onde a condição de seca pode gerar impactos diretos sobre a navegação. Pontos importantes para o escoamento de produtos, como os portos de Murtinho e Ladário, podem ter suas operações afetadas pela redução do nível do rio, o que representa um risco para a logística da região central do Brasil.
Os extremos de chuva e seca afetam diretamente a população. Em áreas com rios acima da média, os riscos são de alagamentos, enchentes e transtornos urbanos. Onde a seca predomina, os problemas se manifestam na possível restrição do abastecimento de água, em perdas na produção agrícola e em dificuldades para a navegação e a geração de energia em usinas hidrelétricas.
