Uma escultura denominada “As Três Graças”, peça central da atual novela das nove da Globo, possui uma versão real em Belo Horizonte, atribuída ao artista Alfredo Ceschiatti. Exposta no Minas Tênis Clube, a obra é cercada de mistérios sobre sua origem e autenticidade, refletindo o enredo de ficção. A peça na capital mineira levanta debates sobre a documentação e o legado do escultor modernista.
A escultura está no hall de entrada do Minas Tênis Clube, no bairro de Lourdes, desde 2013. De acordo com informações do jornal O Tempo, a obra foi doada por um associado que exigiu anonimato no termo de doação. Não existem registros de cerimônias de entrega ou outros detalhes sobre o trabalho, o que contribui para a falta de informações precisas sobre sua chegada ao local.
A pesquisadora da obra de Ceschiatti, Gisele Guedes, aponta que o artista deixou poucos documentos que certificam a autoria de suas esculturas. Essa ausência pode gerar questionamentos, levantando a hipótese de cópias não autorizadas ou réplicas. No entanto, ela não afirma que este seja o caso específico da peça exposta no clube, mas ressalta a dificuldade geral de autenticação dos trabalhos do artista.
Além da escultura em Belo Horizonte, há registros de outras versões da mesma obra. Uma delas foi fotografada em 1956 na Casa das Canoas, no Rio de Janeiro, projetada por Oscar Niemeyer. Outras peças em bronze, com características semelhantes, foram identificadas em anúncios de casas de leilão, com lances iniciais de R$ 65 mil, o que demonstra a multiplicidade de leituras do tema pelo artista.
A releitura do mito e a obra na novela
Na análise da pesquisadora Gisele Guedes, a força da obra de Ceschiatti reside na forma como ele trabalha as figuras femininas para criar um conjunto harmonioso. O foco não está na individualidade, mas na diluição de ritmo e harmonia para representar as relações entre os corpos, os volumes e o espaço. A escultura funciona mais como uma estrutura de relações do que como uma narrativa ou um retrato.
Essa abordagem se insere no modernismo brasileiro, período em que Ceschiatti atuou. Conforme a pesquisadora, o artista participou da transição das décadas de 1940 e 1950, quando as formas clássicas foram adaptadas, simplificadas e geometrizadas. Ele era capaz de pegar um tema tradicional e oferecer uma versão nova, integrada ao seu tempo, explorando a forma em sua essência, sem se prender a repetições.
Na novela, a escultura é o objeto central da trama, associada a uma suposta maldição que afeta seus proprietários. Personagens como Rogério (Eduardo Moscovis), Arminda (Grazi Massafera) e os grupos de Gerluce (Sophie Charlotte) e Kasper (Miguel Falabella) sofrem revezes após possuírem a peça, que exerce um fascínio e ocupa o centro da narrativa, movimentando as diferentes histórias que se cruzam.
Para a produção televisiva, a equipe de cenografia dos Estúdios Globo criou uma peça de 1,80 m e 220 kg, feita de resina com pó de mármore. A inspiração principal, segundo o jornal O Tempo, foi a versão do escultor neoclássico Antonio Canova. Sua obra, esculpida entre 1814 e 1817, possui versões em acervos de museus como o Hermitage, na Rússia, e o Victoria and Albert Museum, em Londres.
A obra remete ao mito grego das três filhas de Zeus: Eufrosina (alegria), Aglaia (elegância) e Thalia (juventude). Descritas como dançarinas do Olimpo, elas ganharam projeção a partir do Renascimento, tornando-se um símbolo de harmonia e da idealização das relações humanas e do corpo. O tema foi revisitado por diversos artistas ao longo dos séculos, atravessando diferentes correntes da história da arte.
