A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) colaborou na criação do Memorial Digital da Pandemia de Covid-19. Esta iniciativa nacional reúne registros, relatos e documentos sobre o período da pandemia.
A participação da UFJF ocorre por meio do professor Ian Marino, do Programa de Pós-Graduação em História. Ele também coordena o Laboratório de História e Tecnologias Digitais da UFJF (HisTech Lab).
Marino atua na coordenação da equipe responsável pela incorporação de acervos ao memorial. Esta etapa visa reunir, organizar e preservar coleções sobre a pandemia de forma estruturada.
Ian Marino atua na coordenação da equipe responsável pela incorporação de acervos ao memorial (Foto: arquivo pessoal)
O docente também é responsável pela curadoria e arquivamento de documentos. Ele articula com grupos, pesquisadores e comunidades que produziram registros durante a pandemia.
O trabalho envolve a identificação e seleção de materiais, diálogo com comunidades e aplicação de critérios técnicos. O objetivo é assegurar a preservação digital e o acesso público permanente.
O projeto foi lançado em 7 de abril e conta com a participação de órgãos como o Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS). Universidades e centros de pesquisa de todo o país também colaboram.
O portal online reúne, organiza e disponibiliza registros sobre a pandemia no Brasil. A finalidade é preservar a memória, ampliar o acesso à informação em saúde e fortalecer a resposta a futuras emergências sanitárias.
De acordo com a UFJF, o envolvimento da instituição se consolidou ao longo do tempo. “O que começou como uma participação isolada, decorrente da minha trajetória de pesquisa, passou a envolver mais pessoas da UFJF”, explica Marino.
Ele acrescenta: “Hoje somos quatro em uma equipe de 16 pesquisadoras e pesquisadores de várias instituições parceiras, sem contar as equipes técnicas do Ministério da Saúde e da Organização Pan-Americana da Saúde”.

Site do Memorial que reúne registros, relatos e documentos sobre um dos períodos mais marcantes da história (Foto: arquivo pessoal)
Pesquisa, curadoria e preservação
O trabalho de curadoria e preservação conta com o apoio de três estudantes de Iniciação Científica. Eles desempenham um papel na catalogação dos documentos, etapa essencial para a localização e acesso futuro dos registros.
A UFJF informa que esta atuação é fundamental para que os documentos coletados possam ser encontrados. Garante aos estudantes a oportunidade de contato com registros históricos e treinamento para projetos de memória pública.
Formação acadêmica e impacto social
Para os alunos, a experiência impacta diretamente a formação acadêmica e a compreensão social da pesquisa. Lucas Bitarelo destaca a importância do projeto diante dos desafios da preservação digital.
Ele afirma: “Sem esta iniciativa, cada precioso fragmento de memória, produzido durante a pandemia pelas famílias, ficaria perdido no tempo”.
Lucas Bitarelo complementa: “O memorial da pandemia não apenas enxerga o valor do correto arquivamento das memórias produzidas digitalmente, mas se preocupa também em preservar para futuras gerações as diversas realidades, lutas e desafios de um período marcado por ansiedades, angústias e sofrimento”.
Uma das fotos do memorial que retrata funcionário do Cemitério São Francisco Xavier, na região portuária do Caju, zona norte do Rio de Janeiro, realizando sepultamento no contexto da pandemia de COVID-19 (Editora iVentura, 2021)
Mariana Guedes ressalta o aprendizado proporcionado pelo contato com diferentes realidades. “Participar do projeto tem sido fundamental para a minha trajetória acadêmica”, afirma.
Ela acrescenta: “Além de me proporcionar a primeira experiência prática com arquivos digitais, o projeto me permitiu observar a pluralidade de formas como os brasileiros enfrentaram esse período tão difícil”.
Para Maria Carolina de Aquino, o memorial cumpre um papel de humanização da história recente. “O memorial ajuda a não esquecer que a Covid-19 não foram apenas números e dados, mas diversas pessoas e famílias afetadas”, reflete.
Ela conclui: “Ele nos ajuda a lembrar as vidas impactadas durante esse período sombrio. Participar do projeto foi muito importante para minha constituição como pesquisadora”.
Universidade pública e memória livre
De acordo com o professor Marino, o Memorial Digital exemplifica como a pesquisa universitária pode se transformar em iniciativa de impacto social. “O Memorial Digital da Pandemia de Covid-19 é um caso exemplar de uma pesquisa que nasce na universidade pública e se transforma em política pública de amplo impacto”, explica.
Ele complementa: “O Memorial Digital representa uma face da universidade pública que é atenta às demandas da sociedade e elabora conhecimentos voltados para todas e todos, não só para especialistas”.
A proposta do projeto é reunir diferentes coleções em um repositório único. Isso garante a preservação digital adequada e acesso público permanente. A iniciativa também busca estimular a participação de grupos e pessoas interessadas em contribuir com registros e memórias da pandemia.
Foto do memorial retratando diversas pessoas circulando na região do Comércio Popular do Saara, no Centro do Rio de Janeiro, durante a pandemia. (Editora iVentura, 2021).
Memória para o futuro
O Memorial se propõe a preservar histórias e experiências que marcaram a sociedade. Para Marino, o projeto possui uma dimensão ética e histórica fundamental. Ele enfatiza que este é um evento que não pode ser esquecido.
Marino destaca que as vítimas não podem ser esquecidas, nem os responsáveis por políticas de saúde ineficazes, negacionismo, propagação de mentiras e desprezo pelos mais sensíveis. “O Memorial Digital deixa a mensagem de que não esqueceremos da pandemia, mas, também, de lutar por justiça”, afirma.
Ele conclui: “O Memorial Digital vai permitir às gerações futuras contar essa história para que, felizmente, possamos evitar catástrofes semelhantes no futuro”.