O Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU/HU Brasil) realizou, em 18 de maio, a aplicação de polilaminina em um paciente com paraplegia. O diagnóstico ocorreu após um acidente que afetou a medula espinhal. Este procedimento é inédito na unidade hospitalar.
A aplicação faz parte de um tratamento em investigação científica, que busca a regeneração de lesões medulares agudas. Mateus Barbosa Costa, de 25 anos, recebeu alta médica parcial em 22 de maio. Ele seguirá para a etapa de reabilitação fisioterápica intensiva.
A polilaminina é uma molécula sintetizada em laboratório, resultado de pesquisas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do laboratório Cristália. Ela é derivada da laminina, uma proteína presente no corpo humano.
De acordo com Paulo Henrique de Sousa Fernandes, médico e chefe da Divisão Médica do HC-UFU, a substância atua como sustentação das células. “Ela serve como uma sustentação das células, ajudando a organizá-las. Com o trauma e a lesão dos neurônios, essa estrutura fica desorganizada.”
Fernandes complementa que a aplicação da polilaminina tenta formar um “andaime” microscópico. O objetivo é reorganizar os tecidos para que os axônios e neurônios possam crescer novamente no sentido correto e, possivelmente, voltar a funcionar.
O composto ainda não possui comprovação definitiva de eficácia e segurança em larga escala. Sua aplicação ocorre sob protocolos de pesquisa clínica e consentimento informado do paciente. A equipe médica mantém cautela em relação aos resultados.
“Não é uma resposta rápida. Uma cicatrização pode demorar até um ano. Agora, a fisioterapia é fundamental para estimular esse crescimento dentro do eixo natural”, ressalta o médico. O paciente assinou um termo de ciência sobre o caráter experimental do procedimento.
Acidente e Aplicação da Polilaminina
Em 20 de março, um portão de ferro de aproximadamente oito metros caiu sobre Mateus Costa durante o trabalho. O acidente resultou em um trauma na 12ª vértebra torácica (T12), com perda imediata dos movimentos das pernas.
“Eu estava acostumado a me movimentar. Quando recebi a notícia, foi muito difícil. Mas logo na hora do acidente eu já tinha sentido que perdi os movimentos”, relembra o paciente. Ele foi atendido no HC-UFU.
Dyego Vilela, cirurgião que operou e acompanhou Costa, descreve a gravidade do quadro na chegada ao hospital. “Ele teve uma fratura de luxação gravíssima da coluna, com déficit neurológico completo já no trauma.”
A equipe se mobilizou rapidamente, e a cirurgia foi realizada no mesmo dia. Após a estabilização cirúrgica, a família do jovem buscou alternativas, tomando conhecimento da pesquisa com a polilaminina.
O processo burocrático para a inclusão no estudo não exigiu judicialização. “Foi através de e-mail. Nós conseguimos o contato, enviamos os documentos e eles se interessaram pelo caso”, explica Francisco Wanderley de Souza, padrasto de Costa.
A equipe do estudo, sediada no Rio de Janeiro, deslocou-se a Uberlândia para a aplicação. O HC-UFU atuou como ponte logística e assistencial, fornecendo a infraestrutura necessária para o procedimento.
Vilela foi contatado pelo laboratório para validar os dados clínicos do paciente. “Eles queriam conferir a gravidade do quadro. Eu expliquei o caso e aceitei participar, porque vi a possibilidade de melhora.”
O cirurgião acrescenta: “É um jovem de 25 anos com uma lesão completa. Qualquer tentativa que mostre alguma eficácia nos testes e ofereça esperança, nós apoiamos”. A aplicação abriu um precedente na região.
O HC-UFU alerta que a inclusão em protocolos de pesquisa obedece a critérios estabelecidos pelo laboratório desenvolvedor da substância. Esses critérios envolvem tempo de lesão, idade e comorbidades do paciente.
“O laboratório se responsabiliza pela avaliação, administração e fornecimento do componente, baseado em seus critérios de pesquisa. O compromisso da UFU é com a assistência integral, o ensino e a pesquisa médica”, esclarece Fernandes.
Para Costa, o foco agora é a reabilitação intensiva. Ele expressa a expectativa de que seu esforço nas sessões de fisioterapia contribua para o sucesso do tratamento. “É um pouco pesado, mas estou torcendo para que dê certo.”
O paciente conclui: “Se encaminhado, isso vai ajudar não só a mim, mas vai abrir caminho para várias outras pessoas”. Ele continuará sendo acompanhado pelo laboratório e equipe médica para avaliação dos resultados e da recuperação.
