Foto: Imagem: ramonparaiba | Shutterstock
folclore

Integrando memes ao ensino do folclore nas escolas

Advertisement

Especialistas em educação defendem uma nova abordagem para o ensino do folclore, celebrado neste sábado (22). A proposta é conectar as tradições populares à realidade dos estudantes, incluindo manifestações culturais contemporâneas como memes e o funk, para demonstrar que o folclore é uma expressão viva e em constante transformação, e não algo restrito ao passado e a personagens como Saci, Cuca e Curupira.

A celebração do Dia do Folclore, em 22 de agosto, é frequentemente associada a personagens tradicionais. No entanto, limitar a data a essas lendas impede a exploração de um dos papéis centrais do folclore: demonstrar como a cultura popular se transforma e continua a ser produzida pelas novas gerações, refletindo a dinâmica social e as mudanças ao longo do tempo, em vez de ser vista como algo estático.

De acordo com informações do jornal O Tempo, o desafio para as escolas é aproximar o tema da realidade dos estudantes. Milena Fiuza, diretora pedagógica do Sistema Positivo, aponta a necessidade de superar abordagens pontuais. “Uma das maiores armadilhas ao ensinar folclore é tratá-lo como algo morto, congelado no tempo, que só existia no Brasil rural do século XIX”, afirma Fiuza.

Ela questiona como as manifestações culturais são construídas atualmente, propondo uma reflexão sobre a cultura urbana. “Se o folclore é a expressão viva do povo, onde ele está hoje na cidade? O funk é folclore? O meme é folclore? Essas perguntas provocam uma reflexão importante sobre como as manifestações culturais continuam sendo construídas”, complementa a diretora pedagógica do Sistema Positivo, incentivando o debate em sala de aula.

Advertisement

Milena Fiuza esclarece que discutir manifestações atuais não busca substituir as tradições, mas sim entender que a cultura popular se mantém viva ao incorporar novas linguagens e comportamentos. Segundo ela, uma abordagem caricata do folclore nas escolas desperdiça a chance de explorar temas contemporâneos como diversidade cultural, preservação ambiental, ancestralidade, identidade e o patrimônio imaterial presente nessas narrativas e tradições.

Maria Elba Soares, especialista em soluções educacionais da Arco Educação, sugere que o Dia do Folclore sirva como ponto de partida para atividades interdisciplinares ao longo de todo o ano letivo. Essa abordagem contínua permite que os estudantes percebam as conexões do folclore com histórias, músicas, brincadeiras, culinária e a linguagem, compreendendo sua importância na construção da identidade brasileira.

Ensinando sobre folclore para as crianças de hoje

Para ampliar o debate, especialistas sugerem atividades. Uma delas é conhecer as origens das lendas brasileiras, investigando suas raízes indígenas, africanas e populares para entender como foram reinterpretadas. A produção de podcasts ou vídeos comparando diferentes versões das lendas é uma das atividades sugeridas para aprofundar o conhecimento dos alunos sobre o tema e suas variações regionais e temporais.

Outra proposta é relacionar o folclore à preservação ambiental. Personagens como Curupira, Caipora e Iara podem ser usados para discutir a proteção de biomas, queimadas e a conservação da biodiversidade. Como atividade, os estudantes podem ser incentivados a criar um novo guardião para um bioma brasileiro, apresentando suas características e poderes de proteção para a turma, conectando mitologia e ecologia.

Advertisement

A discussão sobre se o meme pode fazer parte dessa conversa também é incentivada. As especialistas propõem analisar como memes, músicas e vídeos virais refletem comportamentos coletivos e demonstram a contínua transformação da cultura popular. A análise de fenômenos culturais das redes sociais pode gerar debates sobre quais elementos representam as manifestações culturais contemporâneas e como elas se disseminam rapidamente.

As histórias que atravessam gerações são outro ponto de exploração. O folclore se manifesta nas famílias por meio de brincadeiras, receitas, superstições e ditados populares. Uma sugestão de atividade é que os alunos entrevistem seus familiares para produzir um “Almanaque de saberes da turma”, registrando e valorizando o conhecimento transmitido oralmente entre as diferentes gerações da comunidade escolar.

Explorar as diferentes lendas do Brasil revela a diversidade cultural do país, já que cada região possui seus próprios personagens e tradições. Para visualizar essa riqueza, os alunos podem ser orientados a elaborar um mapa ilustrado com as principais lendas de cada estado ou região, destacando as particularidades e a variedade do imaginário popular brasileiro em um projeto colaborativo e visualmente informativo.

O estudo de saberes populares e plantas medicinais aproxima ciência, cultura e história. Os conhecimentos tradicionais sobre o uso de plantas são uma parte importante do folclore. Uma atividade prática sugerida é a criação de um herbário ilustrado, onde os alunos registram espécies conhecidas pela comunidade escolar, seus nomes populares e seus usos, valorizando o conhecimento ancestral e local.

Advertisement

A oralidade, presente em cantigas, cordéis e adivinhas, é uma das principais formas de preservação da cultura popular. Para trabalhar essa dimensão, as escolas podem promover rodas de cantigas, desafios de adivinhas e oficinas de produção de cordéis. Essas atividades estimulam a expressão oral, a criatividade e o contato direto com formas tradicionais de arte e comunicação popular.

Por fim, a culinária como patrimônio cultural é destacada, pois receitas tradicionais contam a história dos povos que formaram o Brasil. Uma sugestão é a organização de uma feira gastronômica, na qual os pratos pesquisados pelas famílias dos alunos são apresentados e degustados. A atividade conecta a escola à comunidade e mostra como a alimentação também é uma forma de expressão cultural.

Milena Fiuza conclui que, ao ser trabalhado durante todo o ano, o folclore deixa de ser visto como um conteúdo distante. “Quando a cultura popular aparece ao longo de todo o ano letivo, ela deixa de parecer um conteúdo distante e passa a ser compreendida como parte da identidade, da história e das formas de expressão das diferentes gerações”, finaliza.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *