Estudantes da Faculdade de Comunicação (Facom) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) foram premiados na 18ª edição do Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão, do Instituto Vladimir Herzog. Alice Ferreira Lannes, Alice Vitória de Oliveira Diogo e Marcos Vinícius da Silva desenvolveram o documentário A chuva e a cor: quem paga o preço do descaso habitacional?, sob orientação da professora Iluska Maria da Silva Coutinho e mentoria da jornalista Bianca Vasconcellos.
A pauta foi selecionada em maio, entre 110 propostas de todo o país. Os estudantes receberam apoio financeiro e técnico do Instituto Vladimir Herzog para a produção do documentário. A etapa final da premiação ocorreu em São Paulo, nos dias 13 e 14 de agosto, com audiência pública e cerimônia de premiação.
O trabalho aborda os impactos das chuvas de fevereiro de 2026 em Juiz de Fora, com foco em bairros da Região Leste, como Vitorino Braga, Linhares, Três Moinhos e Parque Burnier. A produção investiga a relação entre a crise climática e as desigualdades sociais que afetam grupos e territórios específicos em eventos extremos.
Ao conhecerem o tema desta edição, “O Brasil e a Agenda 2030 da ONU: desafios do desenvolvimento sustentável”, os estudantes identificaram uma relação com as chuvas de fevereiro em Juiz de Fora. A partir de suas vivências e questionamentos, decidiram investigar a conexão entre a crise climática e as desigualdades sociais na cidade.
Estudantes identificaram uma relação direta com as experiências vividas em Juiz de Fora durante as chuvas de fevereiro (Foto: arquivo pessoal)
A estudante Alice Vitória explica que o grupo observou uma concentração dos impactos mais severos em áreas periféricas e historicamente ocupadas por populações racializadas. “Percebemos também que a maior parte dos bairros que foram mais atingidos, com maior número de óbitos e desabrigados, eram periféricos, em regiões de risco e historicamente povoados por pessoas racializadas que vivem neles até hoje”, afirma.
A investigação também apontou o aumento dos preços dos aluguéis na cidade. Essa situação levou o grupo a investigar as causas do fenômeno e a resgatar a história dos bairros afetados. Durante a pesquisa, constataram que essas regiões já enfrentavam problemas relacionados às chuvas.
A participação no prêmio surgiu de uma oficina da professora Iluska Coutinho na disciplina optativa Jornalismo Político, cursada por Alice Lannes. Após a atividade, a estudante e seus colegas decidiram desenvolver a pauta. A professora também disponibilizou as plataformas do Núcleo de Jornalismo Audiovisual, que coordena, para a publicação do documentário, requisito para a inscrição.
Três pesquisadores da UFJF contribuíram como fontes: Flávia Chein, da Economia; Hebe Mattos, da História; e Miguel Felippe, da Geografia. Segundo Alice Vitória, os pesquisadores “foram muito abertos em explicar, trazer novas informações e pontuar coisas que pretendíamos colocar”.
A direção da Facom cedeu equipamentos para as gravações. Para a estudante, o suporte da equipe técnica da faculdade foi importante. “Quero agradecer os funcionários da sala 115, eles foram essenciais para que pudéssemos fazer a captação”, destaca. Ela acrescenta que a equipe auxiliou na escolha dos equipamentos adequados para cada etapa da captação.
Direitos Humanos e transformação social
Para Alice Vitória, a produção do documentário confirma a capacidade de estudantes desenvolverem um jornalismo comprometido com os Direitos Humanos e a transformação social. Moradora da Região Leste, ela relaciona o trabalho às suas próprias experiências com os impactos das chuvas. “Mostra que a gente é capaz de fazer um jornalismo que seja pensado nos Direitos Humanos, que seja pensado na transformação social”, afirma.
Ela também considera a produção uma forma de contribuir com o local onde cresceu: “poder materializar de alguma forma uma dor ou uma indignação também significou muito”. Alice Lannes destaca a importância do reconhecimento. Os três estudantes estão no último período da graduação e já haviam tentado participar do prêmio anteriormente.
“A gente se dedicou muito, mas não tínhamos expectativas de vencer. Ficamos muito surpresos”, conta Alice Lannes. Para ela, a premiação reforça a perspectiva de futuro e valorização da profissão: “dá muita esperança em um futuro onde a gente tenha uma perspectiva de trabalho melhor e de maior reconhecimento também”.
Marcos Vinícius associa a conquista à trajetória na graduação e à persistência do grupo. “Eu me encontrei no Jornalismo e acredito que toda a trajetória que eu fiz, valeu a pena”, afirma. O estudante também ressalta o apoio recebido na Facom, especialmente da equipe técnica e dos professores: “não tem como não comentar a bagagem e apoio que a gente recebe da Faculdade de Comunicação”.
Sobre o documentário, ele explica que a intenção foi preservar as histórias das pessoas atingidas: “quando você perde uma pessoa, não é simplesmente só uma vida, ela é uma mãe, um amigo, um primo e principalmente, uma história, que merecia muito ser contada”. Uma exibição do documentário na faculdade está prevista, mas sem data definida.
O prêmio
O Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão é realizado anualmente pelo Instituto Vladimir Herzog desde 2009. Ele busca mobilizar estudantes de Jornalismo para a produção de pautas relacionadas aos Direitos Humanos. A iniciativa oferece apoio financeiro e técnico às equipes selecionadas, desde a elaboração da pauta até a produção final das reportagens.
Em 2026, o prêmio teve como tema “O Brasil e a Agenda 2030 da ONU: desafios do desenvolvimento sustentável”. A proposta foi refletir sobre a relação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) com diferentes realidades locais.
