O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) deu início ao Segundo Ciclo de Diálogos sobre Patrimônio Cultural e Ações Climáticas. O marco inicial foi a “Formação Institucional: Letramento Climático Aplicado ao Patrimônio Cultural”, realizada nos dias 16 e 17 de abril. De acordo com o Iphan, o evento híbrido, com atividades presenciais em Brasília e on-line, teve como objetivo capacitar servidores e gestores para a proteção do patrimônio frente às mudanças climáticas.
A formação ocorreu no contexto do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, celebrado em 18 de abril. Dados apresentados pelo Grupo de Trabalho em Ação Climática do ICOMOS indicam que um em cada seis sítios de patrimônio cultural está ameaçado pelas mudanças climáticas. O evento foi realizado em parceria com este grupo e reuniu servidores do Iphan e de suas unidades descentralizadas.
Para o presidente do Iphan, Deyvesson Gusmão, a capacitação é etapa fundamental para a ação. “Por ser um tema novo e desafiador, precisamos dominar o vocabulário, os instrumentos e os métodos para que a reflexão sobre as mudanças climáticas deixe de ser algo isolado”, disse. Segundo ele, o conhecimento técnico permite ajustar desde intervenções em edificações históricas até a relação com comunidades detentoras de patrimônio imaterial.
Continuidade ao Primeiro Ciclo
Esta ação dá sequência ao primeiro Ciclo de Diálogos, iniciado em outubro de 2023. A primeira etapa, com duração de dois anos, percorreu seis biomas e ouviu comunidades tradicionais, povos indígenas, quilombolas, gestores públicos e pesquisadores. O trabalho resultou em duas publicações de referência: o “Método para Diálogos sobre Patrimônio Cultural e Mudanças Climáticas” e a “Carta Brasileira do Patrimônio Cultural e Mudanças Climáticas”.
Enquanto o foco inicial foi a escuta da sociedade civil, a segunda etapa priorizará o fortalecimento institucional para a implementação das ações. O objetivo, de acordo com o Iphan, é atuar dentro do próprio Instituto e junto a gestores do Sistema Nacional de Patrimônio Cultural (SNPC).
Do Conceito à Prática
A oficina de dois dias foi ministrada pela professora Luana Campos, do Mestrado Profissional do Iphan/CLC. O primeiro dia foi dedicado ao nivelamento conceitual e ao diálogo técnico. No segundo, os participantes discutiram exemplos de ações e projetos relacionados às mudanças climáticas com potencial de integração a estratégias de adaptação no campo do patrimônio.
O conceito central da formação, apresentado pela professora, foi o letramento climático. Ele foi definido como a capacidade de entender a influência humana no clima, interpretar seus impactos e identificar as melhores formas de agir sob uma perspectiva cultural. De acordo com Luana Campos, o conceito investiga “os impactos climáticos ao patrimônio e à cultura simultaneamente”.
Na prática, isso significa reconhecer que a mudança climática ameaça o patrimônio de duas formas: pelos danos físicos visíveis, como inundações que deterioram monumentos, e pelos danos invisíveis, como a perda de línguas, rituais e o sentimento de pertencimento de uma comunidade ao seu lugar.
Patrimônio como Parte da Solução
Um dos eixos da formação foi destacar o patrimônio cultural não apenas como vítima, mas como parte ativa da resposta à crise climática. Um exemplo citado é que restaurar um edifício histórico é mais sustentável ambientalmente do que demolir e construir um novo, evitando o custo ambiental de uma nova obra.
Outro exemplo vem dos conhecimentos acumulados por povos indígenas e comunidades tradicionais sobre manejo do território e técnicas construtivas adaptadas ao clima. Esses saberes são reconhecidos como ferramentas valiosas para as ações climáticas. A perspectiva é de que a ação climática no patrimônio seja justa e inclusiva, considerando que as comunidades que menos contribuíram para o aquecimento global muitas vezes são as mais afetadas.
Estratégia Nacional em Desenvolvimento
De acordo com o Iphan, nos próximos meses o Instituto trabalhará na construção e no lançamento da Estratégia Nacional de Patrimônio Cultural e Ação Climática, prevista para maio ou junho. O Segundo Ciclo de Diálogos será um dos instrumentos para implementar essa estratégia.
Para a diretora do Departamento de Articulação, Fomento e Educação (Dafe/Iphan), Cejane Pacini, a formação é a base do trabalho futuro. “A formação iniciada neste ciclo é fundamental para nivelarmos o entendimento sobre os conceitos climáticos aplicados ao patrimônio. A partir desse conhecimento, vamos consolidar uma estratégia nacional que dê respostas concretas aos impactos que já observamos”, afirmou.
