Uma pesquisa da Opera, divulgada no Dia do Estudante, nesta terça-feira (11), revela que estudantes brasileiros já integraram a inteligência artificial em suas rotinas de estudo, mas a maioria o faz sem orientação formal das instituições de ensino. O levantamento, que ouviu mais de 2.400 alunos, aponta uma lacuna entre a adoção da tecnologia pelos estudantes e a orientação oferecida por escolas e universidades.
O estudo abrangeu mais de 2.400 estudantes brasileiros de diversas faixas etárias, desde menores de 14 anos até maiores de 35. De acordo com informações do O Tempo, os dados mostram que 71% dos entrevistados consideram que a IA auxilia na compreensão dos conteúdos ou que seus efeitos dependem da forma como é utilizada, indicando uma percepção geral sobre o potencial da ferramenta.
Apesar do uso disseminado, a pesquisa evidencia a falta de instrução formal. Apenas 5% dos alunos afirmaram ter recebido orientação de suas instituições sobre como utilizar as ferramentas de IA. Em contrapartida, uma parcela de 40% dos entrevistados declarou nunca ter recebido qualquer tipo de direcionamento sobre o assunto, o que sugere que a exploração da tecnologia ocorre de forma autônoma.
Os estudantes entrevistados demonstraram preocupação com a qualidade das respostas da IA e interesse em entender como são elaboradas, em vez de apenas usar a ferramenta para concluir tarefas. Para especialistas, isso indica que o desafio atual não é mais a presença da IA em sala de aula, mas sim ensinar como utilizá-la de maneira crítica para aprimorar o aprendizado.
“A inteligência artificial pode apoiar o processo de aprendizagem, mas isso depende de como ela é usada. Quando bem orientada, ela pode ajudar o estudante a desenvolver autonomia, revisar conteúdos e identificar lacunas de compreensão. O ponto central não é substituir o esforço do aluno, mas potencializar o aprendizado”, afirma Juliana Psaros, diretora regional da Opera no Brasil.
Segundo Psaros, os resultados indicam que os próprios estudantes reconhecem essa diferença e apontam a necessidade de uma orientação mais clara. Ela avalia que existe uma oportunidade para que professores e instituições incorporem a ferramenta ao processo de ensino, focando em métodos para revisar conteúdos e aprofundar conhecimentos, em vez de apenas gerar respostas prontas.
Uso produtivo x prejudicial
A pesquisa também apontou que, para 52% dos entrevistados, o principal aspecto a ser melhorado nas ferramentas de IA é a confiabilidade das informações. Essa preocupação é ainda maior entre os estudantes de 15 a 17 anos. Nesse grupo, 60% destacaram a necessidade de informações mais confiáveis e verificadas, demonstrando uma postura crítica em relação aos resultados gerados pela tecnologia.
A professora Mônica Garbin, pedagoga e doutora em educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), explica que a diferença entre um uso produtivo e um prejudicial está na forma de interação com a tecnologia. Para ela, recorrer à IA para esclarecer dúvidas após a leitura de um texto pode ampliar a aprendizagem, mas o problema ocorre quando o estudante delega atividades que deveriam desenvolver suas próprias capacidades.
“Com isso, o estudante não consegue desenvolver aspectos que se repetem, um uso ético dessas ferramentas, um uso crítico dessas ferramentas. Mas, ao mesmo tempo, os professores hoje em dia, nos cursos de formação de professores, pouco têm conteúdos que se remetem à ideia das tecnologias na educação.”
“Mais importante do que descobrir se um trabalho foi produzido com IA é garantir que o estudante demonstre que entendeu o conteúdo e consiga explicar o raciocínio por trás das respostas”, afirma Ademar Celedônio, diretor de ensino e inovações educacionais da Arco Educação.
O diretor de ensino afirma que esse movimento deve alterar o foco da avaliação nas escolas, que passará a valorizar mais a capacidade de argumentação e compreensão do que a simples verificação de resultados. Essa mudança reflete a nova realidade em que o acesso à informação é imediato, mas o entendimento continua sendo uma habilidade fundamental a ser desenvolvida pelos alunos.
O levantamento da Opera também mostra que 17% dos entrevistados recorrem frequentemente à IA para produzir a maior parte de um trabalho, enquanto 31% a utilizam apenas como ponto de partida, realizando adaptações antes da entrega. Por outro lado, 22% dos alunos afirmam produzir seus trabalhos sem o uso desse tipo de ferramenta, o que indica uma diversidade na adoção da tecnologia.
Em relação às políticas institucionais, apenas 20% dos entrevistados afirmam que suas escolas ou universidades possuem diretrizes claras para o uso de IA. Outros 32% recebem orientações informais de professores, enquanto 9% estudam em instituições que proíbem o uso das ferramentas. Os dados reforçam a ausência de uma abordagem padronizada sobre o tema no sistema educacional brasileiro.
UFMG lança documento para uso responsável da IA
Nas próximas duas semanas, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) realizará eventos para lançar o guia “Princípios e diretrizes para o uso responsável da IA na UFMG: orientações práticas”. O documento será destinado à consulta de estudantes, professores, técnicos-administrativos e trabalhadores terceirizados da instituição, com o objetivo de estabelecer um referencial claro para a comunidade acadêmica.
O objetivo central do documento é orientar sobre o funcionamento e as potencialidades da Inteligência Artificial, demarcando os riscos, indicando os cuidados éticos necessários e sugerindo boas práticas. O texto estabelece princípios para o uso dessas tecnologias na UFMG, garantindo que o avanço tecnológico ocorra de forma ética e responsável, alinhado com a missão da universidade.
“É um guia que observa a legislação brasileira e que respeita a missão, os valores e o arcabouço normativo que regem a UFMG, em diálogo com iniciativas de outras universidades brasileiras, assim como de conselhos, associações e órgãos de controle de diferentes áreas do conhecimento”, diz o professor Marco Antônio Sousa Alves, da Faculdade de Direito e integrante da Comissão Permanente de IA da Universidade.
