Resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) indicam que 72% dos estudantes brasileiros de 15 anos estão abaixo do nível básico em matemática. Diante do cenário, que se mantém estagnado há uma década, um especialista aponta caminhos para que as famílias possam auxiliar no processo de aprendizagem e reverter as dificuldades dos jovens com a disciplina, conforme informações do jornal O Tempo.
Na prática, sete em cada dez estudantes não atingem a proficiência necessária para representar matematicamente situações simples, como comparar distâncias ou converter preços para outra moeda. A média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de 35%. No topo da escala, praticamente nenhum aluno brasileiro alcança os níveis mais altos, ante 8% na média dos países avaliados.
O desempenho do país segue praticamente estável há cerca de uma década. A matemática é uma disciplina cumulativa, e as lacunas não resolvidas nos primeiros anos se acumulam até comprometer o aprendizado de conteúdos mais complexos no fim da educação básica. Diante desse cenário, muitos pais se questionam sobre como podem ajudar os filhos a superar essas barreiras.
Para Ralph Reis, vice-presidente do Instituto Fliegen, projeto social que prepara gratuitamente estudantes da rede pública para olimpíadas do conhecimento, a família tem um papel decisivo, mesmo sem dominar a matéria. “Muitas vezes, não estamos falando de capacidade ou de talento, mas de acesso e de incentivo. O potencial está distribuído por igual; o que nem sempre está é a oportunidade”, afirma.
A crença de que não se leva jeito para a disciplina costuma pesar mais do que a própria dificuldade de conteúdo. “Muitos estudantes chegam acreditando que não são bons em matemática, e esse discurso, quando repetido, acaba virando uma profecia. O papel da família é reforçar o contrário: a dificuldade é momentânea e todo mundo é capaz de aprender, desde que tenha tempo e apoio”, afirma Ralph Reis.
Boa parte dos obstáculos em matemática começa na interpretação de texto. Segundo o especialista, sem entender bem o enunciado, a criança não consegue resolver um problema que dominaria do ponto de vista das contas. Incentivar a leitura em casa, conversar sobre o que foi lido e pedir que ela explique o próprio raciocínio ajuda tanto no português quanto na matemática.
A disciplina fica menos abstrata quando sai do campo teórico e ganha sentido prático. Cozinhar e calcular proporções, comparar preços no mercado, medir distâncias ou dividir uma conta em família são situações simples que mostram para a criança que a matemática faz parte da vida real. Esse vínculo com o cotidiano pode reduzir a ansiedade e despertar o interesse.
O engajamento cresce quando o aprendizado deixa de ser uma cobrança e se torna um convite à curiosidade. O especialista aponta que as olimpíadas do conhecimento transformam a forma como os jovens enxergam a matemática. Em casa, jogos, quebra-cabeças e pequenos desafios estimulam o raciocínio e a criatividade sem pressionar, o que aumenta o interesse do estudante pela matéria.
É fundamental identificar as dificuldades logo nos primeiros sinais para que não se acumulem. “O que não foi bem aprendido em um ano vira obstáculo no seguinte. Por isso, quanto antes a família identificar a dificuldade e buscar apoio, seja com o professor, com reforço escolar ou com iniciativas gratuitas, mais fácil é reverter o quadro. Deixar para depois apenas aumenta a distância”, ressalta.
Para Ralph Reis, o recado às famílias é de corresponsabilidade e esperança. “Nenhuma família resolve isso sozinha, assim como nenhuma escola resolve sozinha. Mas o incentivo em casa faz uma diferença enorme. O talento existe em todos os lugares; o que precisamos garantir é que a oportunidade e o apoio também existam”, conclui.
