O uso de um repertório sociocultural articulado é um critério importante na avaliação da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), sendo parte da Competência 2. Segundo o professor e coordenador de Redação do Curso Anglo, Sérgio Paganim, a forma como o estudante aplica conceitos de diferentes áreas do conhecimento para sustentar sua tese é um ponto decisivo na avaliação e um dos aspectos mais temidos pelos candidatos.
A avaliação dessa competência analisa a coerência entre a referência utilizada, como o pensamento de um filósofo, o tema proposto pela banca e a tese desenvolvida pelo autor do texto. De acordo com informações do jornal O Tempo, o repertório precisa ser pertinente e estar conectado à reflexão para que o candidato obtenha uma boa pontuação neste critério específico da prova de redação, que também avalia a estrutura do texto dissertativo-argumentativo.
Para Paganim, o que torna um repertório sociocultural eficiente é a maneira como ele é empregado para dar sustentação à abordagem do participante. Informações, conceitos, reflexões de pensadores ou dados numéricos podem se transformar em um repertório válido, desde que sejam bem articulados com o tema e a tese defendida pelo estudante no texto dissertativo-argumentativo exigido pelo exame, demonstrando autoria e capacidade de análise.
O professor destaca que desenvolver um arsenal de repertórios durante a preparação é uma iniciativa estratégica. As referências socioculturais são encontradas com frequência nas disciplinas de humanidades do Ensino Médio. “Nas aulas de História, Geografia, Sociologia, Filosofia ou Literatura, o estudante aprende os conteúdos exigidos para as avaliações e, ao mesmo tempo, entra em contato com ideias, conceitos, reflexões e pensadores que podem ser manipulados como repertórios socioculturais para a redação”, exemplifica.
Aplicação prática do repertório
Sérgio Paganim ressalta que a seleção de um repertório consistente pode ser decisiva para o parágrafo. “Tanto na introdução quanto nos parágrafos de desenvolvimento, essas referências costumam funcionar como fundamentação da análise, dando suporte à visão de mundo que o autor construiu naquele trecho”, afirma o professor. A escolha correta fortalece a argumentação do candidato e a progressão do texto, conferindo mais credibilidade à análise apresentada.
Para ilustrar o uso prático, o professor cita um exemplo: “Se o texto está desenvolvendo a reflexão sobre o racismo estrutural como causa da não valorização da herança africana no Brasil, o repertório sociocultural poderia ser, por exemplo, a dinâmica colonial brasileira de apartheid encarnada na separação entre Casa Grande e Senzala, como teorizou o sociólogo Gilberto Freyre. Esse é um exemplo de repertório legitimado, pertinente e produtivo”.
Como desenvolver um repertório
O professor elenca algumas práticas para a construção de um repertório. Uma delas é estudar diferentes temáticas de redação para treinar a busca por referências compatíveis. Outra sugestão é analisar redações que obtiveram nota máxima em edições anteriores do Enem, a fim de compreender como os candidatos selecionaram e articularam seus repertórios para embasar a argumentação e a defesa de suas teses de forma produtiva.
Manter-se atento aos fatos cotidianos por meio de jornais e portais de notícias também é uma recomendação. Além disso, é importante registrar de forma organizada todas as informações e conhecimentos adquiridos, como conceitos e pensadores vistos em aula ou em filmes e séries. Esse material pode ser consultado durante a prática da escrita e na preparação final para o exame, servindo como um banco de dados pessoal.
Por fim, Paganim sugere refletir sobre as referências anotadas para desenvolver um olhar mais crítico. Ele reforça que, desde a edição de 2024, a banca corretora tem sido mais rigorosa com citações genéricas e superficiais, os chamados “repertórios-coringa”. “É preciso evitar modelos prontos, citações muito genéricas decoradas, ideias muito amplas que vão gerar conexões muito simplistas na redação”, finaliza o especialista, segundo o jornal O Tempo.
