Autores de Minas Gerais estão renovando o cenário da literatura fantástica com obras que abordam desde temas educativos e de fé cristã até o gênero “romantasia”. Nomes como Marcos Mota, Sara Gusella e João Souza exemplificam essa produção que, apesar da criatividade, enfrenta desafios estruturais no mercado editorial brasileiro, como a distribuição e a concorrência com obras estrangeiras.
Marcos Mota, natural de Muriaé, na Zona da Mata, começou a escrever em 2009. A motivação inicial foi seu sobrinho de 5 anos, que estava em fase de alfabetização, e posteriormente a educação de suas filhas. O que era uma narrativa curta evoluiu para a coleção “Objetos de Poder”, uma saga que mescla diferentes mitologias e cenários brasileiros.
Na série, cada objeto possui poderes associados a uma área do conhecimento, como matemática, linguística e ciências. “Eu queria que um dia, quando as minhas filhas fossem adolescentes, elas passassem a gostar das disciplinas escolares. Então, foram criados os objetos cada um com seu poder específico da sua área do conhecimento”, explica o autor.
Ele busca um equilíbrio entre elementos conhecidos e novos em suas histórias. “O cuidado que eu tenho é o de não escrever algo que o leitor vai reconhecer como uma cópia. Ele tem que ter um encontro com essa familiaridade, com elementos que ele já conhece, mas ao mesmo tempo ele tem que encontrar coisas diferentes que, até então, ele não tenha visto na literatura”, detalha.
De acordo com informações do jornal O Tempo, a obra foi adotada em escolas da região metropolitana de Belo Horizonte e o autor se tornou um best-seller.
Ficção cristã
Sara Gusella, de 27 anos, autora de Belo Horizonte, utiliza a fantasia como uma expressão de sua fé cristã. Influenciada por “As Crônicas de Nárnia” desde os 7 anos, ela encontrou no gênero uma forma de explorar temas de restauração e comunhão. Sua fé é um pilar em seu processo criativo, como ela mesma afirma.
“Escrever fantasia é um exercício da minha fé. Eu sou lembrada da narrativa bíblica, daquilo que a queda roubou de nós, a vida eterna e a união completa com a natureza”, afirma. Publicada pelo selo Thomas Nelson Brasil, ela é autora de títulos como “A Escolha do Verão” e “Os Clãs da Lua”.
Gusella também idealizou a Feira de Ficção Cristã e Cultura (FEFICC), descrita como a maior do gênero no Brasil. Seu objetivo principal ao escrever é transmitir esperança. “Que as pessoas compreendam que existe alguém escrevendo uma história que é final e absoluta, e que essa história vai ter um final feliz. Trazer o elemento de esperança é o principal”, frisa.
‘Romantasia’
João Souza, de 17 anos e natural de Pará de Minas, é um representante da nova geração de escritores. Com o livro “Caçada Selvagem – Desejo”, ele explora o gênero ‘romantasia’, que combina romance e fantasia, incluindo elementos de suspense psicológico e lobisomens. O que o atrai é “a dualidade entre o real e o fantástico”.
Ele acredita que histórias sobrenaturais funcionam como um escape e estimulam a imaginação do público jovem. “Hoje em dia os jovens se interessam por histórias simples, mas ainda assim cativantes e diferentes, que estimulam a imaginação mais do que um enredo contemporâneo”, analisa. Como autor jovem e negro do interior, ele enfrenta desafios de visibilidade e reconhecimento.
Desafios Reais
A literatura fantástica produzida em Minas Gerais e no Brasil enfrenta barreiras estruturais, como dificuldades na distribuição, visibilidade limitada e preconceito cultural contra obras nacionais e independentes. Esses são apontados como os principais obstáculos para os autores do gênero, que encontram um mercado com forte presença de títulos estrangeiros.
“O próprio leitor brasileiro muitas vezes acha que o que vem de fora é a única literatura de alta qualidade. Infelizmente, esse preconceito existe e a única forma de quebrá-lo é o autor tendo todo um cuidado na produção do seu livro, com capa impactante, título coerente e revisão impecável”, analisa Marcos Mota.
A autora e pesquisadora Júlia Cadar aponta outras dificuldades. “A literatura fantástica mineira, bem como a nacional, enfrenta dois grandes desafios: a dificuldade de autores independentes adentrarem o mercado editorial tradicional e a colonização do imaginário popular. Muitos escritores brilhantes são perdidos diariamente devido à impossibilidade de se estruturar financeira e profissionalmente como escritores”, aponta.
Apesar dos desafios, a perspectiva para o futuro é positiva. “Eu espero que muitos outros autores mineiros surjam no mercado e se consolidem como escritores de sucesso. Espero que cada vez mais nossas histórias se passem nas nossas próprias montanhas, que misturem magia e pão de queijo e reflitam nosso modo de falar e viver”, afirma Júlia Cadar.
