O escritor mineiro Murilo Rubião, considerado o precursor do realismo fantástico na literatura brasileira com a obra “O ex-mágico” de 1947, tem seu legado refletido na produção contemporânea de literatura fantástica em Minas Gerais. A influência do autor é observada em uma nova geração de escritores e no crescente interesse do público jovem pelo gênero, impulsionando o cenário literário do estado.
O escritor publicou seu primeiro conto, “Elvira, outros mistérios”, em 1940. Sete anos depois, lançou a obra “O ex-mágico”, que, de acordo com o jornal O Tempo, inaugurou o realismo fantástico moderno na literatura brasileira. A narrativa do livro une elementos do cotidiano ao absurdo, contando a história de um mágico que perde seus poderes ao se tornar funcionário público.
Na trama, a monotonia da vida moderna é transformada em um cenário irônico, onde a magia é suprimida pela rotina do serviço público, com situações como lápis surgindo no lugar de pistolas. Nascido em Carmo de Minas e radicado em Belo Horizonte, Rubião é apontado como um dos principais nomes do gênero no Brasil, dialogando com o realismo mágico latino-americano.
Sua obra se diferencia pelo uso da economia de palavras, humor ácido e melancolia, com foco no surreal e no impossível que se manifesta na rotina. “Murilo Rubião representa a tradição e o resgate da identidade autoral mineira. Apesar de não muito extensa – sua obra completa é formada por 33 contos –, suas coletâneas de contos foram sucesso com o público e com a crítica no século passado”, afirma Júlia Cadar, doutoranda em estudos literários na UFMG.
Para a pesquisadora, a escrita de Rubião expressa a cultura mineira. “O autor expressa, muitas vezes na sutilidade da linguagem, como a cultura mineira é constituída pela contradição entre a superstição e a praticidade, a ironia e a autenticidade, a desconfiança e a fé. A linguagem irônica e bem-humorada é uma ferramenta de sobrevivência. As superstições aceitam o absurdo que é frequentemente interrompido pela banalidade do cotidiano”, relata.
A herança do fantástico em Minas Gerais continua presente na produção literária atual. “Muitas obras produzidas hoje em dia dão continuidade à tradição de mistério, superstição, realismo mágico e fantasia urbana de Murilo Rubião, adotando uma linguagem e humor similares aos do autor”, ressalta a pesquisadora, que coordena o Grupo de Estudos em Literatura Fantástica (ELF) na UFMG.
Segundo Cadar, a produção contemporânea no estado se divide em duas vertentes: as urbanas, que exploram os espaços de Belo Horizonte, e as rurais, que abordam tradições e superstições do interior. Conforme a pesquisadora, ambas as vertentes possuem um forte caráter de resgate histórico e de valorização da identidade mineira, dando continuidade ao legado do escritor.
Juventude
A literatura fantástica mineira tem forte conexão com o público jovem. Juliano Loureiro, escritor de ficção científica e criador do podcast Pod Ler e Escrever, acompanha o crescimento deste movimento no estado. Ele também é o idealizador do Plin Fest – Palco da Literatura Independente, um evento que reflete essa tendência de consumo e produção do gênero.
“Minas Gerais sempre foi um celeiro de grandes contadores de histórias. Esse solo fértil permite que a nova geração de autores mineiros ressignifique mitos, folclores e a própria identidade local com uma pegada moderna e independente, transformando o estado em um polo de produção original que atrai leitores de todo o país”, afirma o escritor.
A demanda do público jovem é notável. De acordo com informações do jornal O Tempo, Loureiro menciona que “a fantasia é o gênero número 1 na busca de jovens e adolescentes nas bibliotecas, segundo a curadoria do Sesi Cultural”. A procura pelo Plin Fest 2025, cujo tema foi anunciado, foi imediata e intensa, segundo o organizador.
“Fomos inundados por contatos de autores querendo somar ao projeto. O público quer consumir histórias fantásticas, e os nomes nacionais e locais estão ganhando o mesmo peso de grandes best-sellers estrangeiros no coração desses leitores”, pontua o escritor, destacando o interesse crescente pelo gênero no país e a força da produção local.
