Crianças e adolescentes que recebem mesada sem a contrapartida de tarefas domésticas ou metas de comportamento tendem a desenvolver uma melhor educação financeira. A conclusão é de um estudo publicado na revista Estudos Econômicos, da Universidade de São Paulo (USP), que analisou dados da principal avaliação educacional internacional, o Pisa, para chegar a essa conclusão sobre o tema.
A pesquisa, conduzida por Ivana Carla Strapazzon, Marco Tulio Aniceto França e Gustavo Saraiva Frio, baseou-se em dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). De acordo com o jornal O Tempo, a análise concluiu que o aprendizado sobre dinheiro é maior quando os jovens têm liberdade para administrar a própria mesada, em vez de recebê-la como recompensa por obrigações.
O Pisa possui um módulo opcional para avaliar o conhecimento financeiro desde 2012, no qual os alunos brasileiros participam. A edição de 2018, analisada pelos economistas, contou com a participação de aproximadamente 38 mil adolescentes de 15 anos. Os tópicos abordados incluem compreensão sobre dinheiro, transações, planejamento, gestão de finanças, riscos e retornos, segundo a pesquisadora Ivana Strapazzon.
Os pesquisadores concluíram que crianças que recebem a mesada como um presente, sem exigências, aprendem mais sobre finanças. Embora a diferença nas notas não seja de grande dimensão, o estudo aponta que a prática de pagar a mesada sem a troca de obrigações melhora a nota em 0,06 ponto, em uma escala que vai de 0 a 10.
Essa é a prática na casa de Eduardo Gomes Lima, pai de Maria Eduarda, 13, e Estela, 8. A filha mais velha recebe R$ 100 mensais sem condicionantes. A intenção é que ela compreenda a necessidade de planejar compras maiores. “Não adianta só falar ‘economiza’, tem que praticar”, afirma ele, que deseja que as filhas desenvolvam noções de prioridades e paciência.
Já Daniela Gomes Serra estabeleceu uma regra diferente para os filhos. Atualmente, sua filha de 10 anos, Ellena, recebe cerca de R$ 100 por mês para realizar atividades como arrumar a cama e retirar o lixo. A mãe também busca ensinar os filhos a lidar com dinheiro e a entender a dinâmica do consumo, permitindo que a filha use o valor recebido de forma livre.
Outros fatores
Para a comparação, os pesquisadores controlaram outras 20 variáveis que poderiam influenciar a nota, como o envolvimento dos pais na educação, os minutos de estudo da criança e a matrícula em atividades extraescolares. O questionário socioeconômico do Pisa, no entanto, não detalha quais são essas atividades ou o tempo dedicado a elas, conforme explica a pesquisadora Ivana Strapazzon.
A pesquisa sugere que crianças recebendo dinheiro sem obrigações têm liberdade para gerir o valor, tomando suas próprias decisões sobre gastar ou economizar e, assim, desenvolvendo habilidades financeiras. Além disso, foi observado que nesse cenário a família tende a conversar mais abertamente sobre finanças, o que contribui para o aprendizado e a formação de uma base sólida.
No caso da mesada condicionada a tarefas, o mecanismo pode ser prejudicial. O principal problema identificado é o tempo: para receber o dinheiro, o aluno precisa realizar atividades, o que pode reduzir seu tempo de estudo. Consequentemente, isso pode impactar negativamente as notas em geral, incluindo as de matérias relacionadas a finanças, como matemática e economia.
A educadora financeira Carol Stange afirma que, embora pareça lógico, vincular a mesada a recompensas distorce a relação com o dinheiro. “Colaborar com a casa faz parte da convivência familiar e não deveria ser remunerado”, pontua. Para ela, a função da mesada é permitir que os jovens tomem decisões, cometam erros e aprendam com compras por impulso.
Uma limitação do estudo, apontada pela própria pesquisadora, é que o questionário do Pisa não detalha o tipo de atividade que o aluno realiza para ganhar a mesada. “Sabemos que o aluno faz alguma atividade para receber aquele dinheiro, mas não se são tarefas domésticas leves, horas de trabalho na loja da família ou até o cuidado dos irmãos mais novos”, afirma Strapazzon.
