A partir de junho, o Sistema Único de Saúde (SUS) iniciará a oferta da vacina pneumocócica conjugada 20-valente (VPC20), que substitui a versão 10-valente utilizada atualmente. A mudança amplia a proteção contra a doença pneumocócica, dobrando o número de sorotipos da bactéria combatidos pelo imunizante. A nova vacina será integrada ao Calendário Nacional de Vacinação para crianças e grupos de risco específicos.
O Ministério da Saúde publicou um guia técnico preliminar com orientações sobre a transição para os profissionais de saúde. A doença pneumocócica, causada pela bactéria *Streptococcus pneumoniae*, pode levar a infecções como sinusite e otite, além de quadros graves como pneumonia, meningite e sepse, representando um risco para a saúde pública.
Estima-se que o pneumococo seja a causa de até 50% dos casos de meningite bacteriana infantil, com uma taxa de mortalidade de aproximadamente 30%. De acordo com informações do jornal O Tempo, além das crianças pequenas, os idosos e indivíduos com comorbidades ou sistema imunológico comprometido são considerados os grupos mais vulneráveis à infecção e suas complicações mais severas.
A vacina VPC10 foi incluída no calendário infantil em 2010 e resultou em uma redução de 60% nos casos de doença meningocócica pelos sorotipos cobertos em crianças de até dois anos. Na mesma faixa etária, os registros de meningite pneumocócica caíram 65%. A medida foi importante na prevenção da doença no país, demonstrando a eficácia da imunização em larga escala.
Apesar do sucesso inicial, dados recentes indicam um aumento no número de casos. Entre 2013 e 2019, a média anual de meningite pneumocócica em crianças de até 5 anos foi de 164 casos. No período de 2022 a 2024, essa média subiu para 211,3 casos, sinalizando uma mudança no perfil epidemiológico da doença e a necessidade de novas estratégias.
Flávia Bravo, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, explica que o fenômeno é reflexo da própria efetividade da vacinação anterior. “A introdução da vacina 10-valente foi excelente na redução desses dez tipos, o que representou uma queda importante nas doenças graves. Mas o pneumococo tem uma característica que a gente chama de ‘replacement’: você controlando um tipo, reduzindo a circulação, outro tipo pode começar a ganhar o espaço”.
Dados de vigilância do Ministério da Saúde mostram que, entre 2018 e 2023, quase 40% dos casos graves foram causados por sorotipos não cobertos pela VPC10, mas incluídos na VPC20. “Isso significa que há a possibilidade da gente voltar a reduzir a curva de incidência porque estaremos protegendo exatamente contra os sorotipos que hoje prevalecem”, complementa Flávia Bravo.
As vacinas pneumocócicas conjugadas, como a VPC10 e a nova VPC20, também atuam impedindo que a bactéria se instale na nasofaringe dos vacinados. Essa característica, além de proteger o indivíduo, interrompe a cadeia de transmissão do pneumococo, gerando uma proteção indireta para a população não vacinada, conhecida como imunidade de rebanho, segundo informações do jornal O Tempo.
Programa Nacional de Imunizações
O Programa Nacional de Imunizações já disponibilizava as vacinas VPC13 e VPP23 para grupos com condições de saúde específicas, que também serão substituídas pela VPC20 conforme os estoques terminem. Fazem parte desses grupos pessoas com HIV/aids, pacientes oncológicos, transplantados, imunodeficientes, diabéticos, asmáticos graves e portadores de doenças crônicas renais, pulmonares, cardíacas e hepáticas, além de pessoas com síndrome de Down.
O calendário básico de vacinação infantil prevê duas doses da vacina pneumocócica, aos 2 e 4 meses, e um reforço aos 12 meses. Durante a transição, o esquema será adaptado: crianças que iniciarem a vacinação receberão a VPC20 na primeira dose e no reforço. Aquelas que já tomaram a primeira dose da VPC10 receberão a VPC20 na segunda dose e no reforço.
A vacina é contraindicada apenas para pessoas com histórico de alergia grave a algum de seus componentes ou que tiveram reação severa em doses anteriores. A recomendação geral é que indivíduos com febre aguardem a melhora do quadro clínico antes de receberem o imunizante, uma orientação padrão para a maioria das vacinas oferecidas no programa de imunização.
