Uma pesquisa da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) sobre a dinâmica do calor urbano em cidades do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, sob o cenário de mudanças climáticas, obteve reconhecimento internacional. O estudo foi publicado na revista Urban Climate, um periódico internacional na área de Climatologia Urbana.
O artigo, intitulado “Using surface relief classes with LCZs for an improved heat island methodology: Demonstration in a small Brazilian city”, aborda a dificuldade de incorporar o relevo na medição e interpretação dos efeitos sobre os climas térmicos das cidades. A publicação é resultado da colaboração entre pesquisadores.
Entre os autores estão Leandro de Godoi Pinton, professor do Departamento de Geografia (DEGEO/UFTM), Iain D. Stewart, da University of British Columbia (Canadá), e Tainá Medeiros Suizu, geógrafa da Secretaria de Planejamento da Prefeitura Municipal de Uberaba (SEPLAN).
O sistema de classificação das Zonas Climáticas Locais (LCZs), desenvolvido por Stewart e Tim Oke, padronizou a investigação das temperaturas urbanas globalmente. No entanto, a influência da altitude e das formas de relevo ainda é pouco explorada em muitos estudos recentes sobre o tema.
Para abordar essa lacuna, os pesquisadores desenvolveram uma metodologia que combina tipos de paisagens e formas de relevo, criando as “classes de relevo LCZ”. Essa abordagem permite selecionar locais de monitoramento mais representativos e aprimorar a interpretação das diferenças de temperatura entre bairros e cidades.
Ilustração do modelo conceitual das classes de relevo LCZ. (Fonte: Fig. 5 do artigo de Pinton, Stewart e Suizu (2026), Urban Climate. Reprodução autorizada sob licença Creative Commons CC BY 4.0).
De acordo com Leandro de Godoi Pinton, “Os trabalhos do Stewart já haviam destacado a importância do relevo nos estudos clássicos de Climatologia Urbana, e como esse aspecto recebeu menos atenção na literatura moderna sobre as ilhas de calor.” Ele acrescenta que o desafio era separar os efeitos da urbanização daqueles associados ao relevo para obter um sinal térmico urbano mais preciso.
Pinton explica que essa questão é relevante na região, onde cidades em diferentes altitudes e com variações de relevo na malha urbana dificultam comparações. As características geográficas locais impactam a identificação de padrões térmicos regionais, mesmo em cidades de pequeno porte.
Os resultados indicaram agrupamentos nos valores de temperatura do ar e nas magnitudes das ilhas de calor, conforme as formas de relevo. Áreas urbanas em platôs planos foram consistentemente mais quentes devido à maior exposição solar e menor ventilação noturna.
Bairros com edificações densas, que geralmente são mais aquecidos, apresentaram redução das ilhas de calor quando situados em vertentes ou patamares de vertente. Esse comportamento térmico em elevações menores sugere influências naturais na dissipação do calor, como sombreamento e menor incidência solar direta.
Para Sacramento e Conceição das Alagoas, duas cidades pequenas investigadas, a abordagem produziu estimativas mais confiáveis das magnitudes máximas das ilhas de calor. Os valores médios variaram de 2,2–3,7 °C em bairros com casas pequenas e alta densidade de ocupação.
Em bairros com edificações mais espaçadas e maior cobertura permeável, as magnitudes oscilaram entre 1,4 e 3,3 °C. Essas evidências reforçam o potencial da abordagem para subsidiar estratégias de planejamento urbano sensíveis às características ambientais locais.
Diante do estágio inicial de expansão dessas cidades, os resultados indicam oportunidades para intervenções de baixo custo. Tais intervenções podem equilibrar a densidade construtiva e a infraestrutura verde, por meio da ampliação da arborização e criação de parques urbanos vegetados.
Comparação dos padrões térmicos urbanos em duas cidades pequenas do Triângulo Mineiro. (Fonte: Painel B da Fig. 14 do artigo de Pinton, Stewart e Suizu (2026), Urban Climate. Reprodução autorizada sob licença Creative Commons CC BY 4.0).
Segundo os autores, a aplicação das “classes de relevo LCZ” também ajuda a identificar áreas que funcionam como fontes de ar mais frio para as cidades. Isso inclui superfícies vegetadas localizadas no platô e vertentes, cuja preservação pode reduzir os efeitos do aquecimento urbano em futuras expansões territoriais.
Para consolidar a abordagem como ferramenta de apoio ao planejamento urbano sensível ao clima, os autores destacam a necessidade de novos estudos em cidades com relevo mais complexo. “Acreditamos que um olhar mais atento à influência do relevo é fundamental para ampliar a compreensão das ilhas de calor em cidades do nosso ambiente tropical”, afirma Leandro.
Ele complementa que as interações entre as características da paisagem urbana e o relevo tendem a ser mais complexas no Brasil. Padrões observados em cidades planas da América do Norte e Europa nem sempre podem ser diretamente aplicados à realidade brasileira.
A publicação reforça a inserção do Departamento de Geografia da UFTM nos debates científicos internacionais sobre clima urbano. Contribui também para o desenvolvimento de abordagens mais precisas na investigação das ilhas de calor em cidades brasileiras.
O artigo completo está disponível na revista Urban Climate: AQUI
