Cida Falabella, que assumiu a Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte há quatro meses, detalhou as prioridades de sua gestão. Em entrevista, ela destacou o fortalecimento de políticas públicas, a descentralização de ações culturais para as periferias e o fomento aos Pontos de Cultura. A secretária também comentou sobre a organização de grandes eventos como a Virada Cultural e o Festival Internacional de Teatro (FIT).
A gestora, que se define como “vereatriz”, mencionou seus 50 anos de carreira no teatro e sua militância cultural como fatores que a prepararam para o cargo. Ela afirmou ter aceitado o convite do prefeito Álvaro Damião e destacou a continuidade do trabalho de sua antecessora, Eliane Parreiras. A Fundação Municipal de Cultura (FMC) está sob a gestão de Bárbara Bof, com Gustavo Bones e Karine Cajazeiras.
De acordo com informações do jornal O Tempo, Falabella explicou que Belo Horizonte possui dois órgãos culturais. A Secretaria Municipal de Cultura é responsável pelo fomento, participação social e patrimônio. Já a Fundação Municipal de Cultura (FMC) gerencia os 34 equipamentos culturais da cidade. Segundo ela, essa estrutura é resultado de uma demanda dos artistas para manter os dois órgãos, que se complementam.
Sobre a transição da Câmara Municipal para o Executivo, a secretária informou que o convite foi feito de forma rápida. Ela esclareceu que sua atuação no cargo representa sua figura política e o acúmulo de sua trajetória, não uma representação partidária do PSOL. A decisão, segundo ela, foi um processo tranquilo, apesar de críticas pontuais que considera apaziguadas, com a professora Nara (REDE) assumindo sua vaga na Câmara.
Fomento e Descentralização
A gestão de recursos é uma das principais mudanças em sua nova função. A secretaria trabalha com mais de R$ 50 milhões em editais de fomento em 2024. Falabella mencionou o lançamento de editais como o da Cultura Viva e o programa BH nas Telas, voltado para o audiovisual, que possui um fundo próprio e é apoiado pela BH Film Commission, que organiza a logística para filmagens na cidade.
Conforme divulgado pelo O Tempo, um edital Multilinguagens será lançado em breve, seguido por um edital com a nova categoria de Ações Continuadas. Inspirada na Funarte, essa modalidade prevê apoio por dois anos para cerca de 20 iniciativas, oferecendo mais estabilidade aos projetos. Também estão previstos editais para Mestres da Cultura Popular e para o Corredor Cultural da Praça da Estação, buscando adaptar os editais à realidade dos proponentes.
A descentralização da cultura é uma das prioridades. A secretária destacou que projetos em regiões mais vulneráveis recebem pontuação diferenciada nos editais para evitar a concentração de recursos na região Centro-Sul. A rede de centros culturais espalhados pelas regionais e os mais de 300 Pontos de Cultura são fundamentais para essa estratégia, conectando-se com artistas e comunidades locais e irradiando a produção cultural dos territórios.
Falabella defende o direito dos moradores da periferia de ocuparem também o centro da cidade. O projeto do Corredor Cultural da Praça da Estação é um exemplo dessa integração, abrigando manifestações como o Duelo de MCs, rodas de samba e skate. A política busca equilibrar o apoio a todas as áreas, reconhecendo a cultura como um direito de todos, incluindo povos e comunidades tradicionais.
Eventos e Equipamentos Culturais
A Virada Cultural, que ocorre no último fim de semana de agosto, é o próximo grande evento do calendário. A organização está a cargo da Fundação Municipal de Cultura, em parceria com a OSC H2A Soluções e Parcerias, e conta com apoio do Sesc e da Fecomércio. A programação, definida por curadoria, incluirá música, teatro, dança e intervenções artísticas, com foco na ocupação segura da cidade.
Outros eventos importantes incluem o Festival Internacional de Teatro (FIT), que terá uma edição compacta em novembro deste ano e uma edição maior em maio de 2025. A mudança visa retirar o festival dos anos eleitorais. O calendário conta ainda com o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), um dos mais importantes da América Latina, e o recém-realizado Festival de Arte Negra (FAN).
Quanto às obras, o Espaço Lô Borges, no Parque Municipal, já foi iniciado e passa por uma revisão de planejamento. A expectativa é que a obra seja concluída no segundo semestre do próximo ano. Outro projeto relevante é a reforma do Museu de Arte da Pampulha (MAP), que está em processo de licitação e deve ser entregue até o final da atual gestão.
A manutenção de equipamentos existentes também é uma prioridade. Estão previstas reformas nos centros culturais e no Teatro Francisco Nunes, além de melhorias de acessibilidade, como a instalação de elevadores e rampas. A secretária ressaltou que manter os espaços em boas condições é tão importante quanto inaugurar novos, garantindo a continuidade das políticas de descentralização cultural.
Relações Institucionais e Legado
O diálogo com o governo federal é considerado forte, especialmente na política da Cultura Viva e na adesão a programas como a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). A secretaria mantém boa relação com a Funarte e participa do Fórum de Secretários de Capitais. Um desafio atual é a aplicação do Marco Regulatório do Fomento, que visa flexibilizar a gestão de projetos culturais.
Em contrapartida, a secretária avalia que o diálogo com a Secretaria de Estado de Cultura e Turismo poderia ser melhor. Segundo ela, a fusão das pastas no âmbito estadual rebaixou o espaço da cultura. Falabella mencionou problemas com editais estaduais e atrasos, o que aumenta a pressão sobre o município. Ainda assim, a busca por parcerias continua, visando beneficiar artistas e o público.
Para o futuro, Cida Falabella pretende deixar como legado o fortalecimento da política municipal das artes e um programa de apoio às manifestações tradicionais. Ela também quer consolidar a rede de Pontos de Cultura, conectando-os aos centros culturais, e ampliar o apoio às iniciativas de vilas e favelas, reconhecendo a força artística e cultural desses territórios.
