A imagem de Santa Efigênia, datada do século XVIII e desaparecida por cerca de 20 anos, foi devolvida à comunidade de Monsenhor Horta, em Mariana, Minas Gerais. A restituição ocorreu em 7 de agosto, por iniciativa do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), através da Coordenadoria das Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Cultural (CPPC).
A obra, de autoria desconhecida, foi localizada após uma denúncia que indicava sua inclusão em um leilão virtual. A imagem agora reintegra o conjunto artístico sacro da Igreja Matriz de São Caetano, atendendo a um desejo da comunidade local.
De acordo com a plataforma Sondar, do MPMG, a peça é uma figura feminina jovem, esculpida em madeira, medindo 50cm de altura, 24cm de largura e 19cm de profundidade. A santa, de pele negra, segura na mão esquerda uma miniatura de igreja em chamas, simbolizando milagres a ela atribuídos.
A vestimenta da imagem consiste em capa e túnica pretas, adornadas com detalhes dourados. A peça foi entregue à Igreja Matriz de São Caetano, em Monsenhor Horta, embalada com plástico bolha, espumas de proteção e em uma caixa vedada para garantir sua integridade.
Após o desempacotamento, os padres Carlos Geovane Magri, da Comissão Arquidiocesana de Arte Sacra, e Fabrício Lopes Fernandes, pároco local, examinaram a imagem. Eles observaram as características artísticas do item, incluindo o nível de detalhamento e as feições do rosto da santa.
A imagem apresenta evidências de pinturas e envernizamentos realizados ao longo do tempo, que são considerados grosseiros. Essas intervenções indicam a necessidade futura de uma restauração, pois alguns detalhes dourados e coloridos perderam sua intensidade original devido a essas modificações.
Apesar das intervenções, a peça não possui trincas ou rachaduras que comprometam sua segurança estrutural. O bem cultural faz parte do conjunto da Igreja Matriz de São Caetano, que é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A Igreja Matriz, construída em 1742, possui uma fachada relativamente simples. Em contraste, seu interior é ricamente decorado com detalhes em estilo barroco joanino, muitos deles retocados a ouro. A edificação está situada em um vasto gramado natural e conta com um cemitério histórico ao fundo.
Monsenhor Horta, um distrito de Mariana, possui 1,7 mil habitantes e aproximadamente 600 casas. A localização da imagem ocorreu em novembro de 2025, após um denunciante avistá-la em um site de leilões.
O anúncio do leilão mencionava Santa Efigênia e o distrito de Monsenhor Horta. Diante disso, o MPMG expediu uma Recomendação à empresa leiloeira para que retirasse a peça do leilão e a encaminhasse para perícia técnica. A perícia, após a entrega, confirmou a origem da obra.
Pronunciamentos
Ao término da celebração, o padre Fabrício convidou Paula Carolina Novais Miranda, servidora do MPMG, para a assinatura do termo de devolução da peça. Dirigindo-se à comunidade, o pároco mencionou outras peças de devoção do povo preto que foram furtadas em Monsenhor Horta, além de Santa Efigênia.
O padre Fabrício destacou: “Além de Santa Efigênia, este altar contava com imagens de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário”. O padre Magri, por sua vez, ressaltou a importância de dar visibilidade às peças sacras, afirmando que “Essas peças não são propriedade privada de ninguém. São da comunidade.”
Ele defendeu que “É importante que as peças tenham uso sacro. Imagem não é feita para ficar guardada”. O sacerdote enfatizou a importância de os moradores conhecerem as obras pertencentes ao conjunto da igreja, pois esse conhecimento pode ser crucial em casos de furto, como o ocorrido em Monsenhor Horta.
Paula Carolina relembrou as investigações que levaram à prisão de uma quadrilha especializada em furtos em 2003, ocorrida há mais de uma década. Segundo a historiadora, a localização e devolução das peças é um processo complexo, pois os criminosos rapidamente escoam os bens para receptadores.
Esses receptadores, por sua vez, destinam as peças a colecionadores distantes da origem. Em contrapartida, Paula elogiou duas moradoras locais que contribuíram para a identificação da peça por meio de memórias pessoais, validando o parecer técnico do MPMG.
Paula Carolina discursou: “Qualquer informação que tiverem sobre outros bens desaparecidos são importantes para reavê-los e voltar viver momentos felizes como este de hoje”.
Sondar
O Sondar é uma ferramenta colaborativa desenvolvida pelo MPMG em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A plataforma unifica bancos de dados de bens culturais desaparecidos no estado e disponibiliza informações sobre bens resgatados e restituídos.
O sistema oferece recursos que permitem a contribuição ativa das comunidades. É possível adicionar novas informações sobre bens cadastrados, solicitar a inclusão de bens desaparecidos em sua cidade, informar sobre a localização de um bem desaparecido e realizar a restituição voluntária de um objeto de valor cultural.
Além disso, a plataforma permite denunciar vendas ilegais ou suspeitas. O objetivo do Sondar é intensificar a participação das comunidades na preservação e defesa do patrimônio cultural de Minas Gerais.
Para acessar o Sondar, clique neste link.
