O livro “O que vem antes da Violência”, de autoria de Nilmário Miranda, foi lançado neste sábado (22), em Belo Horizonte. A obra é resultado de uma pesquisa sobre municípios de Minas Gerais que passaram longos períodos sem registrar homicídios, investigando os fatores sociais e comunitários que contribuem para a ausência de crimes violentos, como a educação e a assistência social.
“É possível criar uma cultura de paz em um lugar. Qual é a chave de tudo? É educação”, afirmou Nilmário. O ex-ministro de Direitos Humanos investigou o que há por trás de cidades que não registram homicídios, buscando responder o que uma comunidade faz para impedir que a violência chegue ao seu estágio mais extremo, conforme apurado pelo jornal O Tempo.
A pesquisa teve início em 2015, quando Nilmário era secretário de Estado de Direitos Humanos de Minas Gerais. Na época, a pasta identificou 33 municípios sem homicídios por pelo menos dez anos. Posteriormente, com a inclusão de Serra da Saudade, o número subiu para 34 cidades, que se tornaram o objeto do livro-reportagem.
Anos mais tarde, os pesquisadores retornaram às cidades e constataram que 13 delas continuavam sem homicídios e três nunca haviam registrado uma morte do tipo. “Tem cidade que o último homicídio foi há 80 anos. Como assim, né?”, comentou Lucas Teles, diretor do Movimento Nacional de Direitos Humanos e pesquisador do livro.
O levantamento também abordou a violência doméstica, como o feminicídio e a violência sexual contra crianças. Nilmário defende que agressões e ameaças devem ser identificadas antes que o ciclo termine em morte. “O feminicídio começa muito antes”, afirmou. A prevenção e a proteção dentro das famílias são apontadas como centrais para enfrentar esses problemas.
Fatores para a ausência de violência
A cidade de Rio Doce, na Zona da Mata, foi um dos exemplos encontrados. No município, que nunca registrou um homicídio em seus 64 anos de existência, a antiga cadeia foi transformada em um espaço educacional. Este é um dos casos que ilustram a realidade de outras cidades com perfis semelhantes, segundo o autor.
Ao percorrer os municípios, os pesquisadores identificaram fatores recorrentes: crianças na escola, acesso à saúde e assistência social, e ausência de fome ou pessoas em situação de rua. A forte relação entre os moradores foi resumida por Lucas Teles em uma das respostas mais ouvidas durante as viagens: “Aqui a gente é uma grande família, todo mundo se conhece”.
O cuidado comunitário é acompanhado pela presença de serviços públicos básicos. “Não tem criança fora da escola, tem creche para todo mundo, o SUS atende todo mundo muito bem, o CRAS atende todo mundo muito bem, não tem ninguém passando fome, não tem ninguém em situação de rua”, afirmou Lucas Teles sobre as localidades pesquisadas.
Nilmário também destaca a educação como elemento central, especialmente a escola em tempo integral, que amplia o acesso das crianças a alimentação, cultura e esportes. “Na jornada alternativa tem cultura, tem cursos, tem esporte, tem teatro, tem música”, disse, ressaltando os benefícios do modelo para a formação de uma cultura de paz.
Polícia comunitária e distribuição do livro
Outro ponto identificado na pesquisa é a relação da polícia com a comunidade. Com a baixa ocorrência de crimes graves, os policiais desenvolvem uma atuação mais comunitária, visitando escolas para conversar com jovens sobre temas como bullying, violência contra a mulher e drogas. “A polícia militar ajuda. É uma polícia comunitária”, afirmou Nilmário.
Nilmário afirma que levantamentos posteriores indicam que a experiência não se restringe às 34 cidades. Segundo ele, 185 municípios mineiros passaram os anos de 2023 a 2025 sem homicídios, e que somente em 2025, mais de 400 cidades não registraram o crime. “Aí que veio essa ideia de que é possível um Estado que não tenha feminicídio, que não tenha homicídio”, afirmou.
Após o lançamento em Belo Horizonte, o livro percorrerá outras cidades de Minas Gerais. De acordo com o jornal O Tempo, estão previstos eventos em Ponte Nova e Conselheiro Lafaiete, além do retorno aos 34 municípios que fizeram parte da pesquisa. A obra será comercializada nos lançamentos, com previsão de chegar a livrarias e à internet posteriormente.
