A Polícia Federal (PF) investiga negociações para a exploração de uma área de mineração em Ouro Preto, Minas Gerais, que inclui a barragem Água Fria. A estrutura, pertencente à Topázio Imperial Mineração, foi apontada pelo Ministério Público Federal (MPF) como uma das sete com maior risco de rompimento no Brasil. As tratativas envolveram empresários e um ex-superintendente da PF, segundo desdobramentos da Operação Rejeito.
De acordo com um relatório da Polícia Federal, ao qual o jornal O Tempo teve acesso, as negociações contaram com a participação do ex-superintendente da corporação em Minas, Rodrigo de Melo Teixeira, e do empresário João Alberto Paixão Lages. A investigação aponta que uma empresa de fachada de Teixeira receberia 8% dos lucros da exploração mineral, sem qualquer investimento, em negócios que se estenderam de 2021 a 2025.
A situação da barragem já era de conhecimento das autoridades. Em 2023, o MPF moveu uma ação civil pública para que a Topázio Imperial adotasse medidas de segurança. Uma decisão da Justiça Federal em abril de 2025 reconheceu o risco potencial da estrutura, que estava classificada em Nível de Emergência 1. A Agência Nacional de Mineração (ANM) também havia reclassificado a barragem como construída por alteamento a montante.
O método de alteamento a montante é o mesmo utilizado nas barragens de Fundão, em Mariana, e Córrego do Feijão, em Brumadinho, que se romperam em 2015 e 2019, respectivamente. Os dois desastres resultaram na morte de 291 pessoas, além de causarem extensos danos ambientais. A ANM determinou a descaracterização da estrutura de Água Fria devido a essa característica de construção.
Conhecimento dos Riscos na Negociação
Documentos apreendidos pela PF indicam que os negociadores estavam cientes do risco. Em um áudio de março de 2023, enviado a um consultor ambiental, João Alberto Paixão Lages mencionou estudos preliminares e afirmou ser necessário resolver a questão de “assumir os danos da barragem”. A mensagem demonstra preocupação com o impacto dessa responsabilidade no contrato que estava sendo negociado, conforme o relatório policial.
A PF afirma que o diálogo evidencia o conhecimento dos envolvidos sobre os problemas da barragem e que a estrutura era um fator nas negociações comerciais. O relatório da corporação destaca que as tratativas contaram com a participação direta de Rodrigo Teixeira e que o empreendimento se encontrava em situação de emergência, com risco de provocar uma nova tragédia socioambiental.
As negociações investigadas envolviam o arrendamento e a exploração do grupamento minerário da Topázio Imperial. Segundo a PF, os investigados criaram empresas para intermediar e negociar ativos do setor. O relatório aponta que o ex-superintendente Rodrigo Teixeira teria exercido um papel de liderança nessas tratativas, que se inseriam em um contexto mais amplo de negócios com direitos minerários.
Em sua defesa, Teixeira contestou ter conhecimento detalhado sobre os problemas da barragem, afirmando saber apenas da existência da ação civil pública, uma informação pública. No entanto, para os investigadores, as conversas obtidas durante a apuração indicam que ele tinha ciência da questão e a discutia no âmbito das negociações, conforme informações do jornal O Tempo.
A negociação da área que inclui a barragem Água Fria é uma das frentes da investigação. O relatório da PF aponta que o grupo atuava na compra, cessão e valorização de direitos minerários, com suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e uso de empresas de fachada. Projetos em Caeté, Santa Bárbara, Congonhas e Bela Vista de Minas também são citados no inquérito.
A reportagem do jornal O Tempo solicitou um posicionamento aos investigados citados e à Topázio Imperial, mas não obteve contato até a publicação da matéria original. O espaço permanece aberto para manifestação.
