A busca por uma vaga na universidade é uma fase desafiadora para muitos jovens. Durante a preparação, é comum que estudantes sintam pressão, tanto interna quanto de pessoas próximas, e medo de não corresponder às expectativas. Em níveis controlados, a apreensão pode ser benéfica, pois mobiliza para a ação. O problema surge quando essa emoção passa de aliada a um obstáculo paralisante.
“Quando o estudante entra na prova dominado pelo medo de errar, sua atenção se divide: parte da energia mental vai para resolver as questões e outra parte fica ocupada tentando lidar com o próprio nervosismo”, explica a psicóloga Rafaela Perim, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental. Ela compara a situação a tentar correr uma prova carregando um peso extra, onde o esforço é maior e o resultado tende a ser pior.
Além disso, o medo excessivo pode causar bloqueios, dificuldade de concentração e o chamado “branco” na hora da prova. De acordo com a psicóloga, isso ocorre porque a mente, tomada por esse sentimento, prioriza a proteção emocional em vez do raciocínio lógico. “É exatamente o mecanismo que, em outros contextos, nos protegeria de um perigo real, mas que, diante de uma prova, só atrapalha”, afirma.
Para muitos jovens, o vestibular é vivido como um divisor de águas que definirá o futuro, a carreira e o valor pessoal. Essa percepção, embora seja uma distorção da realidade, é muito presente na experiência emocional do estudante. “Esse tipo de pensamento, embora compreensível, é uma distorção, mas é uma distorção muito real na experiência emocional do estudante”, ressalta a psicóloga Rafaela Perim.
Segundo informações publicadas pelo jornal O Tempo, o cérebro nem sempre distingue uma ameaça real, como um perigo físico, de uma ameaça simbólica, como o medo de “não dar certo na vida”. Dessa forma, o sistema de alerta do corpo é ativado da mesma maneira, mesmo que racionalmente o jovem saiba que não há um perigo concreto e iminente naquela situação de avaliação.
A adolescência é, por natureza, uma fase de intensa reorganização emocional, na qual a busca por pertencimento e reconhecimento está em alta. Este contexto contribui para que o medo do fracasso ganhe uma proporção ainda maior do que teria em outra fase da vida, intensificando a pressão sentida pelos estudantes durante o período de preparação para os exames de ingresso no ensino superior.
Principais Fatores de Pressão
Nesse cenário, a autocobrança, a comparação com os colegas e a expectativa dos pais são fatores que se somam e se retroalimentam, criando um ambiente fértil para o medo. De acordo com a gerente pedagógica da Escola da Inteligência, a autocobrança excessiva faz o estudante acreditar que qualquer resultado abaixo do ideal é um fracasso, aumentando a carga emocional e a ansiedade.
A comparação com colegas coloca o estudante em uma corrida constante, na qual ele nunca se sente suficientemente preparado. A especialista acrescenta que a comparação social tem uma raiz evolutiva, ligada à necessidade de pertencimento ao grupo. Na adolescência, essa necessidade de validação social atinge seu ponto mais intenso, o que explica por que ela pesa tanto neste momento específico da vida.
Já a pressão dos pais, mesmo quando motivada por cuidado e expectativas positivas, pode ser sentida pelo jovem como mais uma cobrança. O estudante pode sentir que precisa corresponder a essa expectativa sob o risco de decepcionar as pessoas que ama, o que adiciona uma camada extra de estresse e ansiedade ao processo de preparação para as provas de vestibular e do Enem.
Como Cada Estudante Reage à Pressão
A forma como cada estudante reage a esses fatores de pressão também tem relação com traços de personalidade. Rafaela Perim explica que, segundo o modelo dos Cinco Grandes Fatores de Personalidade, estudantes com traços mais elevados de neuroticismo tendem a ser mais impactados pela autocobrança e pela comparação social, vivenciando emoções negativas como ansiedade e insegurança com maior intensidade.
Por outro lado, estudantes com traços mais elevados de conscienciosidade, marcados pela disciplina e orientação a metas, podem lidar melhor com a organização dos estudos. Paradoxalmente, eles também correm o risco de se cobrar em excesso, justamente por levarem o compromisso com o resultado muito a sério, o que pode gerar um ciclo de estresse e exaustão durante a preparação.
“Entender essas diferenças individuais é importante porque reforça que não existe um jeito único e correto de lidar com a pressão do vestibular”, defende a psicóloga. Para neutralizar os fatores de pressão, é importante que o estudante construa uma relação mais saudável com o erro, entendendo que ele faz parte do processo de aprendizagem e não define sua capacidade ou valor pessoal.
Como Lidar com a Insegurança
Para contornar o medo e a insegurança, a psicóloga Rafaela Perim cita algumas estratégias que podem ajudar os estudantes a atravessar o período de preparação com mais equilíbrio. As ações envolvem desde o planejamento dos estudos até o autocuidado, sendo fundamentais para reduzir a sensação de descontrole e a ansiedade, que são grandes fontes de estresse para os vestibulandos.
- Organização e planejamento dos estudos: ter um cronograma realista e claro reduz a sensação de descontrole. Saber o que estudar, quando e como, devolve ao estudante uma sensação de domínio sobre o próprio processo.
- Realização de simulados: simular a experiência da prova, com condições semelhantes às do dia do exame, ajuda o estudante a se familiarizar com o formato e com a própria ansiedade, tornando o momento menos assustador.
- Desenvolvimento da autoconfiança: ela se constrói reconhecendo avanços reais, por menores que sejam, ao longo da preparação. A autoeficácia não nasce de um dia para o outro, mas da percepção de superação de desafios.
- Manejo da ansiedade e do estresse: técnicas de respiração, pausas conscientes durante o estudo e o autoconhecimento ajudam o estudante a reconhecer os sinais de ansiedade antes que aumentem e a lidar com eles de forma equilibrada.
- Autocuidado: sono adequado, alimentação equilibrada e momentos de lazer não são luxo, mas parte da estratégia de estudo. Um corpo e uma mente exauridos não sustentam um bom desempenho, por mais conteúdo que tenha sido revisado.
Para a especialista, entender a origem do medo e sua função evolutiva é o primeiro passo para que o jovem deixe de se julgar por senti-lo e aprenda a lidar com ele. “Esse é, no fundo, um dos maiores objetivos da educação socioemocional: não eliminar as emoções desagradáveis, mas ensinar a atravessá-las com mais consciência e equilíbrio”, finaliza Rafaela Perim.
