Desastres relacionados à água afetaram quase 130 milhões de pessoas no Brasil entre 1991 e 2024, segundo estudo publicado na revista Environmental Research Letters. A pesquisa analisou cerca de 60 mil registros oficiais de inundações, secas, deslizamentos e tempestades.
De acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), esses eventos causaram 4.774 mortes, deixaram mais de 3 mil desaparecidos e geraram prejuízos econômicos superiores a R$ 740 bilhões. Mais de 91% dos municípios brasileiros registraram pelo menos um desastre no período.
O estudo revela que as secas foram os eventos mais frequentes, representando 53,6% das ocorrências e concentrando 58,5% das perdas econômicas. Já as inundações foram responsáveis por mais de 55% das mortes registradas, totalizando 2.662 óbitos.
Diferenças regionais nos impactos
A análise regional mostra padrões distintos: o Nordeste lidera em ocorrências, com predominância de secas e elevados prejuízos econômicos. O Sudeste registrou o maior número de mortes, principalmente por inundações e deslizamentos.
As regiões Sul, Norte e Centro-Oeste também apresentaram impactos significativos, com frequência de inundações, enxurradas e tempestades. O pesquisador Elton Vicente Escobar-Silva, primeiro autor do artigo, afirma que muitos impactos refletem deficiências em políticas públicas.
Escobar destacou que aproximadamente 1.660 municípios brasileiros ainda não possuem uma Defesa Civil estruturada. “Os padrões mostram que impactos não decorrem apenas de eventos climáticos extremos, mas de deficiências antigas”, explicou.
Avanso na monitoração e desafios
Parte do aumento nos registros está associada à implementação do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID) a partir de 2013. De acordo com os pesquisadores, isso não indica necessariamente maior frequência de eventos, mas melhor capacidade de notificação.
Os autores ressaltam que a notificação só se intensificou após 2019, indicando décadas de monitoramento limitado. Persistem desafios como subnotificação e dificuldade de registrar eventos simultâneos ou interdependentes.
O estudo fornece subsídios para políticas públicas, identificando áreas e municípios mais vulneráveis. As informações são estratégicas para orientar ações de prevenção e aprimorar sistemas de alerta precoce no país.
