Uma pesquisa desenvolvida na UNIFAL-MG propõe um protocolo para o atendimento pré-hospitalar em saúde mental. A iniciativa visa padronizar as ações em situações de urgência, diante do aumento de ocorrências relacionadas a essa área.
Priscila Freire Pereira Santana, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGENF), está elaborando e validando o protocolo. O trabalho é orientado pela professora Sueli de Carvalho Vilela e foca na macrorregião Sul de Minas Gerais.
A pesquisadora, que atua como enfermeira no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) do Consórcio Intermunicipal de Saúde da Macrorregião do Sul de Minas (CISSUL) há mais de 11 anos, identificou a necessidade de padronização. “A pesquisa surge de inquietações práticas diante da complexidade do atendimento em saúde mental, falta de padronização deste tipo de atendimento e despreparo por grande parte dos profissionais”, afirma.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), transtornos mentais afetam cerca de uma em cada oito pessoas globalmente. Dados do SAMU/CISSUL, coletados entre 2015 e 2025, indicam um crescimento nos atendimentos relacionados à saúde mental.
Casos como agitação psicomotora com comportamento agressivo, tentativas de suicídio e intoxicações por abuso de substâncias são frequentes. O protocolo em desenvolvimento considerará variáveis como sexo, faixa etária e microrregião para sua funcionalidade.
A revisão de escopo, parte da pesquisa, apontou a falta de padronização global e a escassez de protocolos específicos. Práticas ainda centradas no modelo biomédico foram observadas.
Priscila Santana destaca que os resultados parciais já indicam benefícios para pacientes, profissionais e o sistema de saúde. Estes incluem a redução de erros e a humanização do atendimento.
“Um protocolo baseado em evidências e adaptado à realidade do serviço proporciona maior segurança para pacientes e profissionais, melhora da qualidade assistencial, padronização das condutas e aplicabilidade direta ao SUS”, explica a pesquisadora. Ela acrescenta que o material pode ser replicado em outros consórcios do país.
Construção do Protocolo
A pesquisa, iniciada em 2023, é uma tese de doutorado com abordagem metodológica dividida em etapas. A primeira etapa combinou revisão de escopo e um estudo transversal com registros do SAMU/CISSUL.
Essa base permitiu identificar quatro categorias de manejo: ambiental (segurança da cena), verbal e comportamental (desescalonamento verbal), físico e mecânico (contenção, como último recurso) e farmacológico. Este último é usado especialmente em casos de agitação psicomotora e intoxicações.
A segunda etapa, em andamento, consiste na construção do protocolo. Ele será baseado em evidências mapeadas, documentos de órgãos oficiais, guias, manuais e na expertise das pesquisadoras e de juízes especialistas.
A terceira etapa prevê dois momentos de validação. O primeiro, interno, utilizará o instrumento AGREE II para avaliação de diretrizes. O segundo, externo, contará com especialistas que analisarão a aparência, pertinência e relevância do documento.
A quarta etapa contempla a publicação e divulgação do protocolo diretamente às equipes do SAMU/CISSUL. A conclusão da tese está prevista para dezembro de 2026.
Resultados Acadêmicos
A pesquisa já gerou frutos acadêmicos. O artigo “Práticas e intervenções no atendimento pré-hospitalar a urgências e emergências em saúde mental: revisão de escopo” foi aceito para publicação na Revista Latino-Americana de Enfermagem (RLAE).
A RLAE é um periódico da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP e do Centro Colaborador da OPAS/OMS para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem, com DOI já registrado. Um segundo artigo, sobre o perfil dos atendimentos na macrorregião Sul de Minas entre 2015 e 2025, está em fase de escrita para submissão.
