O agronegócio brasileiro, que enfrenta perdas anuais de até R$ 55 bilhões por conta de pragas, está adotando drones para um controle mais preciso. A tecnologia permite a aplicação direcionada de defensivos, o que reduz custos e o impacto ambiental da sobreutilização, um problema identificado em mais de 80% dos municípios do país. A ferramenta otimiza o uso de insumos e aumenta a eficiência no campo.
De acordo com o livro “Defesa Vegetal – Fundamentos, Ferramentas, Políticas e Perspectivas”, da Sociedade Brasileira de Defesa Agropecuária (SBDA), o agronegócio brasileiro perde anualmente até R$ 55 bilhões devido à incidência de pragas. Um exemplo é a cigarrinha-do-milho, que, conforme um estudo da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), causa perdas de aproximadamente 31,8 milhões de toneladas por ano.
No combate a essas pragas, os drones são utilizados para mapear as áreas afetadas e pulverizar defensivos agrícolas de forma direcionada. A tecnologia permite identificar os locais exatos que necessitam de aplicação, ao contrário de métodos como a pulverização por aviões, que cobrem toda a área, incluindo locais não críticos. Isso otimiza o uso dos insumos e direciona o tratamento de maneira mais eficaz.
A utilização de drones também auxilia na questão da sobreutilização de defensivos. Um artigo do Ipea, divulgado no final do ano passado, aponta que mais de 80% dos municípios no Brasil sobreutilizam agrotóxicos. De acordo com informações do jornal O Tempo, essa prática gera riscos à saúde humana e reforça a necessidade de métodos de aplicação mais precisos e controlados no campo.
Em Minas Gerais, a startup Green Growth, fundada em 2024, tem auxiliado lavouras a reduzir o uso de defensivos em até 40%. “A partir do drone multiespectral, a gente consegue identificar as áreas que precisam de pulverização e as que não precisam”, explica Matheus Nogueira, CTO da empresa. “Ele trabalha exatamente onde está o problema. Isso gera economia de água, insumos e evita degradação desnecessária”.
A produtora de café Maria Emília Souzalima Campos, de Viçosa, na Zona da Mata, é uma das clientes da startup. Ela relata que a pulverização manual durava cinco dias e custava quase R$ 1.000, enquanto com o drone o serviço leva uma hora. “Prefiro pagar R$ 200, por hectare, nós temos 3,8 hectares de plantas, do que não ter segurança de que aquela pessoa está passando planta por planta”.
O pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Rafael Soares, destaca a versatilidade da ferramenta. Ele enumera benefícios como: “Menor uso de combustíveis fósseis, menor uso de água, não amassar as plantas de culturas de lavoura, não compactar o solo, realizar aplicações noturnas, aplicar defensivos agrícolas de forma localizada gastando menos produto, entre outras situações”.
Expertise humana caminha junto com a tecnologia no campo
A tecnologia atua em conjunto com a expertise de agentes de campo, que indicam o defensivo e o momento correto para aplicação. Em Minas Gerais, o Programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg) auxiliou produtores de café a aumentar a produção em 26% e reduzir custos em 40%. “Sem uma prevenção correta, o produtor acaba fazendo uso desnecessário de vários produtos”, comenta o analista de assistência técnica e gerencial do Sistema Faemg Senar, Altino Júnior.
O técnico de campo do ATeG, João Mateus, explica que as visitas às propriedades direcionam os produtores. “Muitas vezes, o produtor chega a uma revenda e fala que está com um problema x na lavoura. O revendedor não conhece a lavoura, ele vai indicar um produto que pega todas as doenças, ou mais de um produto”, diz, conforme apurado pelo jornal O Tempo.
João Mateus acrescenta que a assistência técnica permite identificar a doença antes que ela atinja um nível de dano econômico. Com isso, o controle é feito em uma infestação menor, otimizando o uso de produtos. “O produtor consegue trabalhar em uma infestação menor, sendo mais eficiente com os produtos, economizando dinheiro e não tendo o prejuízo que a doença poderia causar”, finaliza.
