O Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) sediará o lançamento do livro “Correspondência e Eternidade: Cartas de Murilo Mendes a Alceu Amoroso Lima e Outros”. O evento ocorrerá nesta quinta-feira, 27 de agosto, às 19h, no museu.
A obra foi organizada e anotada por Leandro Garcia, pesquisador com mestrado e doutorado em estudos literários pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Garcia é professor de teoria literária e literatura comparada na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Simultaneamente ao lançamento do livro, o museu inaugurará, na galeria Poliedro, uma exposição homônima. Esta mostra estabelece um diálogo entre os documentos da pesquisa e o acervo da instituição, que é vinculada à Pró-reitoria de Cultura da UFJF.
O livro, publicado pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), é resultado de uma pesquisa sobre a correspondência de Murilo Mendes. Ele reúne documentos que abrangem décadas de contato entre o poeta e figuras da literatura e cultura brasileiras.
Um dos destaques é a amizade com o escritor, crítico literário e intelectual católico Alceu Amoroso Lima. A troca de correspondências entre Murilo Mendes e Alceu Amoroso Lima ocorreu de 1930 a 1974, registrando momentos da vida intelectual, artística e religiosa do poeta.
Leandro Garcia explica que “Murilo Mendes e Alceu Amoroso Lima foram amigos por mais de 40 anos. No início, Alceu foi uma espécie de mentor intelectual e diretor espiritual de Murilo, por isso a amizade de ambos foi tão marcante: começou por motivos literários e continuou por razões religiosas e pessoais”.
A pesquisa também inclui correspondências de Murilo Mendes com outras personalidades, como Ismael Nery e Frei Benevenuto de Santa Cruz. Esses documentos ampliam o panorama das redes de sociabilidade e intercâmbio intelectual do poeta.
Renata Zago, superintendente do Mamm, diz que iniciativa reafirma o papel do museu como espaço de preservação, pesquisa e difusão do conhecimento (Foto: arquivo pessoal)
Durante a pesquisa, Garcia esteve no Mamm e analisou a coleção muriliana sobre espiritualidades cristã e oriental. Ele transcreveu anotações e sublinhados de Murilo Mendes nesses exemplares para compreender o interesse do poeta pelos temas.
De acordo com a superintendente do Mamm, Renata Zago, a iniciativa reforça o papel do museu na preservação, pesquisa e difusão do conhecimento sobre Murilo Mendes. Ela destaca a importância do estudo ter sido realizado a partir dos acervos da instituição.
Zago afirma que “a preservação dos documentos e da biblioteca de Murilo Mendes possibilita novas investigações e leituras sobre sua trajetória”. Ela acrescenta que o livro de Leandro Garcia e a exposição contribuem para a propagação do conhecimento sobre a obra do poeta e suas relações de amizade.
A publicação e a mostra incluem cartas, cartões, bilhetes, fotografias, livros e dedicatórias. Esses documentos registram a comunicação entre os dois escritores e revelam a correspondência como um espaço de amizade e intercâmbio intelectual.
Em uma carta de 1931, Murilo Mendes escreveu a Alceu: “Vejo que você me toma a sério, o que para mim é muito importante: não vê no sujeito dos Poemas um jogral, nem um mistificador – mas sim um indivíduo dissociado, mas que se esforça por atingir uma ordem”.
Em 1960, Alceu solicitou textos a Murilo, que estava em Roma, para a revista “A Ordem”. Ele pediu uma carta em que o poeta abordasse “os assuntos que quisesse, sagrados ou profanos, políticos ou de arte, do seu próprio curso ou de um filme como La Dolce Vita, por exemplo”.
Murilo Mendes já havia publicado no periódico vinculado ao Centro Dom Vital, associação de católicos leigos no Rio de Janeiro. As edições destacadas na mostra, das décadas de 1930 e 1940, contêm textos de livros como “Contemplação de Our Preto”, “Metamorfoses” e “Poemas”.
Alceu Amoroso Lima, D. Maria Teresa e Murilo Mendes – única foto de Alceu e Murilo juntos (imagens do acervo no livro)
O pesquisador Leandro Garcia ressalta que o lançamento do livro e a exposição em Juiz de Fora destacam a relação de Alceu Amoroso Lima com a cidade. Uma filial do Centro Dom Vital foi estabelecida na cidade na década de 1930.
Essa filial foi fundada pelos intelectuais católicos Joaquim Ribeiro de Oliveira e Henrique José Hargreaves. Segundo Garcia, o primeiro contato de Murilo Mendes com o Centro Dom Vital ocorreu por meio da filial de Juiz de Fora.
Alceu Amoroso Lima, então presidente do Centro, frequentava os eventos da unidade juiz-forana devido à proximidade com o Rio de Janeiro. Garcia explica que “essa foi a filial que mais floresceu, com uma intensa programação intelectual. Então, praticamente a cada dois meses, Alceu estava na cidade para conferências e palestras, por exemplo”.
Garcia complementa que “é provável que foi ali que Murilo conheceu Amoroso Lima pessoalmente, uma vez que eles começam a se corresponder muito antes, porém passaram alguns anos se correspondendo intensamente sem se encontrarem”.
O grupo de intelectuais do Centro Dom Vital de Juiz de Fora participou da criação da Faculdade de Filosofia e Letras de Juiz de Fora (Fafile), que completa 80 anos. Eles tiveram apoio legal de Amoroso Lima, membro do Conselho Federal de Educação na época.
Garcia conclui que Amoroso Lima “contribuiu para a emissão da permissão legal para que a Fafile surgisse. Então, isso tudo o aproximou ainda mais de Juiz de Fora”. O Centro de Estudos Murilo Mendes, que deu origem ao Mamm, funcionou na antiga sede da Fafile.
Leandro Garcia Rodrigues possui mestrado e doutorado em estudos literários pela PUC-Rio. Ele também tem três pós-doutorados: em estudos literários (PUC-Rio), em teologia (Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – Faje) e em história moderna (Université Sorbonne Nouvelle – Paris 3).
Atualmente, é professor de teoria literária e literatura comparada na Faculdade de Letras da UFMG, atuando em graduação e pós-graduação. Suas especialidades incluem teopoética (estudos comparatistas entre literatura e teologia) e epistolografia (estudos de cartas/correspondências) de escritores e outros intelectuais.
O lançamento da exposição e do livro “Correspondência e Eternidade: Cartas de Murilo Mendes a Alceu Amoroso Lima e Outros” ocorrerá na quinta-feira, 27 de agosto, às 19h.
O evento será no Museu de Arte Murilo Mendes, localizado na Rua Benjamin Constant, 790, Juiz de Fora-MG. A visitação da exposição estará disponível de terça a sábado, das 9h às 18h, e aos domingos e feriados, das 13h às 18h.
A entrada é gratuita. Para mais informações, os interessados podem contatar o museu pelo telefone (32) 2102-3583 ou pelo e-mail producao.mamm@ufjf.br.
