Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) investiga o potencial da celulose bacteriana como alternativa sustentável para o design. O material, cultivado por bactérias, é biodegradável e produzido com baixo impacto ambiental, podendo auxiliar na reformulação da criação e descarte de objetos.
A professora Lia Benatti, do Instituto de Artes e Design (IAD) da UFJF, coordena o estudo. O objetivo é compreender o comportamento do material e suas aplicações no design, visando substituir materiais poluentes.
A celulose bacteriana é um biomaterial gerado por microrganismos durante a fermentação. As bactérias sintetizam uma película gelatinosa que, após tratamento e secagem, adquire diferentes espessuras, texturas e resistências, permitindo diversas aplicações.
Diferentemente da celulose vegetal, que depende da extração de recursos naturais, a celulose bacteriana é cultivada em ambiente controlado. A professora Lia Benatti explica que a abordagem muda de “extrair matéria-prima” para “cultivar o material”.
O interesse em biomateriais surge da necessidade de revisar os métodos de produção frente à crise ambiental. Segundo a pesquisadora, biomateriais possibilitam um ciclo de vida fechado, onde o material retorna ao solo após o uso.
A celulose bacteriana apresenta vantagens em relação ao plástico e ao couro animal. De acordo com a UFJF, “Ela é biodegradável e se decompõe naturalmente. Não vem do petróleo, como o plástico, e não exige criação de gado nem processos químicos pesados como o curtimento do couro tradicional”, afirma a professora.
O processo de fabricação também se destaca. O material é formado por microrganismos de maneira controlada, permitindo o crescimento em formatos específicos. Isso reduz o desperdício de matéria-prima e abre novas possibilidades de criação no design.

Bactérias produzem uma película gelatinosa que, após tratamento e secagem, ganha diferentes espessuras, texturas e resistências para uso no design (Foto: Twin Alvarenga/UFJF)
O grupo de pesquisa busca alternativas para tornar o cultivo mais sustentável e economicamente viável. “A bactéria precisa se alimentar para produzir a celulose. Se a gente usa açúcar puro, o custo fica alto. Então estamos investigando o uso de resíduos da indústria de alimentos, como cascas de frutas, para alimentar essas bactérias e baratear o processo”, comenta Lia.
Atualmente, a pesquisa está em fase de experimentação técnica e exploração de acabamentos. O foco é aprimorar propriedades como resistência à umidade e desempenho mecânico, além de expandir as propriedades estéticas do material.
“A gente está numa fase de testar acabamentos. Tentamos colocar outros materiais junto com a celulose enquanto ela cresce para ver se ela fica mais resistente ou muda de cor. É uma fase de ‘cozinha’, de testar receitas diferentes para chegar a um material mais comercial.”
Apesar do potencial, existem desafios para a celulose bacteriana alcançar o mercado em larga escala. A ausência de uma cadeia produtiva estruturada é um dos principais obstáculos. “Hoje a produção é muito artesanal, feita em laboratório. Para isso chegar ao mercado, precisamos de padronização, mesma espessura, mesma resistência, e também ganhar escala, com biorreatores maiores e mais eficientes.”
Pesquisa está em fase de experimentação técnica e exploração de acabamentos (Foto: Twin Alvarenga/UFJF)
O processamento industrial também necessita de avanços. “Como secar esse material? Como dar acabamento? Ainda faltam máquinas e processos específicos para esse tipo de biomaterial. É um campo que precisa de muita engenharia.”
Será necessário progredir em normas técnicas e certificações para garantir segurança e durabilidade ao consumidor final. “A pessoa precisa confiar que aquele produto feito de celulose bacteriana vai durar o tempo necessário. Isso envolve testes, padrões e regulamentações.”
O projeto integra estudantes e pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, destacando o caráter interdisciplinar da iniciativa. “Eu, como designer, não consigo fazer nada sozinha. Preciso da biologia para entender o organismo e da engenharia para processar o material. É essa conversa entre áreas que faz a pesquisa avançar”, destaca Lia.
A integração ocorre também entre instituições. O professor Guilherme Martin, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), colabora com a pesquisa na área da biologia, contribuindo para a compreensão dos processos que originam o material.
Estudante de Design, Camila Elevelyn (à esquerda), e Ana Beatriz Maximiano, estudante de Moda (à direita) (Foto: Twin Alvarenga/UFJF)
“A produção da celulose bacteriana depende diretamente do comportamento dos microrganismos e das condições de cultivo. Fatores como temperatura, pH, oxigênio e nutrientes influenciam na estrutura e nas propriedades finais do material, como resistência e espessura”, explica Martin.
A estudante de Design da UFJF, Camila Evelyn, contribui com a identidade visual e a produção de conteúdos informativos sobre biomateriais. Ela considera que a experiência amplia o diálogo entre ciência e criatividade.
“Tem gente que acha que criatividade e ciência não andam juntas. Mas quando você começa a estudar biomateriais, percebe que existe um universo enorme de alternativas sustentáveis. É fascinante.”
A estudante de Moda, Ana Beatriz Maximiano, atua na aplicação prática do material. “Eu trabalho principalmente no desenvolvimento de peças que possam substituir o uso do couro animal ou do plástico. Faço testes de costura, estudo pigmentações naturais, formas de estamparia e também pesquiso mercado para entender como o material pode ser inserido”, explica.
A estudante ressalta o impacto da pesquisa para além do laboratório. “Me sinto responsável por fazer parte de uma pesquisa que envolve sustentabilidade e visa mudança. O projeto questiona o uso de certos materiais e oferece uma alternativa prática. A celulose bacteriana pode ser utilizada não só na moda, mas em várias áreas.”
Para a professora, a celulose bacteriana não busca substituir todos os materiais, mas ocupar nichos específicos onde a sustentabilidade é essencial. “Ela é um material a mais. O design precisa entender e aproveitar a estética própria dela.”
A pesquisa aponta para uma transformação na concepção e descarte de produtos. “O sonho é que a pessoa possa descartar um objeto no jardim ou na composteira e aquilo vire nutriente para o solo. É sair da lógica de extrair, usar e jogar fora para cultivar, usar e devolver”, conclui.