Uma pesquisa conduzida pelo professor Jefferson Silva, do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), revelou que crianças do ensino básico, em diversos países, associam a engenharia predominantemente ao trabalho manual e à figura masculina. Os resultados indicam que estereótipos formados na infância podem influenciar o interesse e o acesso a carreiras na área de engenharia.
O estudo faz parte de uma série de publicações internacionais na área de Educação STEAM (Ciências, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática). A metodologia incluiu a análise de desenhos feitos por crianças a partir da proposta “Desenhe uma pessoa engenheira”.
Essa análise permitiu investigar as concepções dos estudantes sobre a profissão, suas conexões com Matemática e Ciências, e as representações de gênero. A pesquisa busca compreender como essas percepções iniciais podem moldar futuras escolhas profissionais.
Em um dos artigos, intitulado Systematic Review Students’ Conceptions of Engineering Accessed Through Drawings: Implications to STEAM Education, publicado na revista International Journal of Cognitive Research in Science, Engineering and Education (IJCRSEE), o pesquisador realizou uma revisão sistemática de estudos em vários países.
Os resultados indicam que as crianças geralmente percebem a engenharia como uma atividade manual, sem reconhecer o uso de conhecimentos científicos e matemáticos. Além disso, a maioria dos desenhos representa engenheiros como homens, evidenciando uma desigualdade de gênero.
Uma pesquisa similar foi realizada em uma escola espanhola e publicada na revista Enseñanza de las Ciencias. O artigo “Concepciones del alumnado sobre ingeniería y sus conexiones con las matemáticas y las ciencias” apresentou resultados consistentes com os observados em outros países.
De acordo com o professor Jefferson Silva, a pesquisa teve início durante seu doutorado em Educação na Espanha, com foco na Educação STEAM e na engenharia. A discussão sobre equidade de gênero se intensificou a partir dos resultados empíricos e da colaboração com a pesquisadora chilena Marcela Hormazábal.
“O ingresso reduzido de alunas em cursos de engenharia não é apenas fruto de escolhas individuais. É resultado de um processo que começa na infância e se cristaliza no imaginário social de que engenharia é trabalho manual e para homens”, afirma o professor.
Compreender como estudantes do ensino fundamental veem a engenharia é crucial para desenvolver políticas de acesso, permanência e sucesso nos cursos da área. A pesquisa busca identificar os fatores que influenciam essas percepções.
Um momento da pesquisa envolveu uma atividade de Estatística com alunos de 10 a 12 anos. Após desenharem engenheiros, os estudantes analisaram quantitativamente suas produções, constatando um número maior de figuras masculinas.
Essa observação levou a um debate sobre gênero na engenharia, com os alunos levantando hipóteses e organizando a contagem dos desenhos. A discussão demonstrou a capacidade das crianças de realizar análises estatísticas e refletir sobre o tema.
Além de identificar o problema, a pesquisa propõe soluções. No artigo Conectando matemáticas e ingeniería a través de la estadística: una actividad STEAM en educación primaria, publicado na Revista Electrónica de Conocimientos, Saberes y Prácticas, o professor e outros pesquisadores sugerem atividades pedagógicas no contexto STEAM.
A proposta é que a escola atue para desconstruir estereótipos que podem ser reforçados por livros infantis, familiares e educadores, muitas vezes de forma não intencional. O uso da estatística permite que os próprios alunos reflitam sobre as representações produzidas.
No IFMG, o instrumento de pesquisa foi aplicado a professores da rede municipal de Arcos durante uma formação no campus. Os docentes reconheceram a presença de concepções estereotipadas e a necessidade de repensar as práticas pedagógicas.
A atividade também é aplicada a ingressantes do curso de Engenharia Mecânica do campus Arcos, promovendo reflexão no início da formação acadêmica. Essa abordagem visa sensibilizar os futuros profissionais para a questão de gênero na engenharia.
Para o pesquisador, trabalhar engenharia na perspectiva STEAM desde as séries iniciais é estratégico. A área desenvolve habilidades como observação analítica, reconhecimento de padrões, compreensão de geometria e elaboração de estratégias para produtos e processos.
A abordagem STEAM pode funcionar como um elemento integrador, conferindo sentido prático aos conhecimentos de Matemática e Ciências. A pesquisa contribui para o debate sobre a formação de novos profissionais e o fortalecimento de estratégias institucionais.
O objetivo é ampliar o interesse de crianças e adolescentes, especialmente meninas, pelos cursos de engenharia oferecidos pelo IFMG. A pesquisa de Jefferson Silva revela como a imagem da engenharia é construída na infância.
Jefferson Silva defendeu seu doutorado em 2023, sob a orientação do Pesquisador Àngel Alsina, recebendo o reconhecimento Cum Laude. Posteriormente, foi agraciado com o Prêmio Extraordinário de Melhor Tese de Doutorado na área de Educação da Universidade de Girona.
A tese “Revisiting STEAM in the interplay between extrinsic and intrinsic goals of education: Implications for teaching and teacher training” resultou na publicação de mais de 20 artigos científicos, incluindo estudos desenvolvidos em parceria com pós-graduandos do IFMG.
Parte das publicações contou com financiamento do Edital da Arinter, além de apoio institucional durante o período de afastamento para capacitação. O trabalho de Jefferson Silva e seus colaboradores busca impactar a educação e a percepção da engenharia.
