Os impactos da Covid-19 persistem na vida de milhões de pessoas, mesmo após quase cinco anos do início da pandemia. Sintomas como cansaço persistente, lapsos de memória, falta de ar, dores difusas, alterações no sono e dificuldades de concentração são relatados por indivíduos que enfrentaram quadros leves ou moderados da doença.
Este conjunto de manifestações, conhecido como Covid longa ou condições pós-Covid, pode surgir semanas após a infecção e prolongar-se por meses ou anos. A síndrome complexa representa um desafio para pacientes, pesquisadores e profissionais da saúde.
Diante da diversidade de sintomas e da necessidade de organizar o atendimento no SUS, o Ministério da Saúde desenvolveu o Guia de Manejo das Condições Pós-Covid.
O documento atualiza definições, orienta o acolhimento clínico e descreve o percurso do usuário na Rede de Atenção à Saúde. A proposta integra evidências recentes, reforça o papel da Atenção Primária e dedica seções específicas a populações vulneráveis, padronizando critérios de diagnóstico e protocolos de reabilitação.
Para aprofundar a compreensão sobre o tema, a Diretoria de Imagem da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) entrevistou o professor Aripuanã Watanabe.
Ele é coordenador do curso de Ciências Biológicas e uma das referências nacionais no estudo dos efeitos prolongados da Covid-19. O docente integrou o painel técnico convocado pelo Ministério da Saúde para revisar e avaliar o Guia de Maneejo das Condições Pós-Covid.
De acordo com a UFJF, o professor Watanabe iniciou sua pesquisa sobre os sintomas persistentes da Covid-19 após participar da ação da Universidade para diagnóstico da doença na comunidade de Juiz de Fora. No final de 2020, acompanhando relatos de pessoas com sintomas prolongados, ele direcionou seus estudos.
Um dos projetos de pesquisa do professor recebeu apoio financeiro, permitindo uma investigação específica sobre fatores de risco relacionados à evolução para Covid longa. Essa pesquisa contribuiu para o conhecimento na área.
O professor Watanabe explicou que o Ministério da Saúde elaborou uma versão inicial do guia e, posteriormente, convocou um painel de especialistas em Covid longa para analisá-lo. O objetivo era avaliar o conteúdo e sugerir correções, inserções ou retiradas de trechos.
A participação do professor ocorreu nesse painel, que teve um encontro presencial em Brasília. Durante o encontro, foram discutidos os pontos críticos para que o Ministério pudesse finalizar a versão atualizada do documento.
Sobre a resistência e desinformação na área da saúde em relação à Covid longa, o professor Watanabe apontou vários motivos. Ele mencionou a falta de consenso internacional sobre as características da síndrome e como diagnosticá-la.
Ainda não há padronização para o nome, que varia entre “condições pós-Covid”, “Covid longa” ou “sequelas da Covid”. Além disso, muitos sintomas são inespecíficos, como dor de cabeça, cansaço ou dor no corpo, o que pode levar a uma subestimação da condição.
No entanto, o professor ressaltou que a síndrome existe e é reconhecida pelo Ministério da Saúde e por órgãos internacionais. Ele afirmou que, apesar das dúvidas, trata-se de um quadro real com grande impacto na vida dos afetados.
Para quem teve Covid, o professor Watanabe considera que o guia traz o reconhecimento e a disseminação de informações sobre a doença. Este é o primeiro ponto crucial, pois profissionais da saúde e a população precisam estar cientes da existência da Covid longa.
O documento também apresenta orientações sobre diagnóstico diferencial, formas de acompanhamento e sugestões de tratamento para os sintomas. Este conjunto de informações, que inclui informar, orientar e padronizar condutas, representa um avanço para minimizar o impacto da doença.
A Atenção Primária à Saúde (APS) é essencial, pois é a porta de entrada para esses pacientes. A maioria não está hospitalizada e não apresenta quadro grave para procurar um hospital, buscando as unidades básicas de saúde.
A APS precisa reconhecer esses casos, identificar a doença e encaminhar o paciente dentro do sistema. O trabalho multiprofissional é fundamental tanto para o diagnóstico quanto para o tratamento, devido à variedade dos sintomas.
Frequentemente, é necessário o trabalho conjunto de fisioterapeutas, psicólogos, médicos, terapeutas ocupacionais e enfermeiros. Os sintomas variados dificilmente são resolvidos por um único profissional.
Alguns grupos apresentam maior risco de desenvolver Covid longa, como pessoas que tiveram Covid grave e foram hospitalizadas. Indivíduos com comorbidades e imunossuprimidos também estão entre os mais vulneráveis.
Populações socialmente vulnerabilizadas frequentemente enfrentam dificuldades de acesso a diagnóstico e tratamento. Isso as torna ainda mais suscetíveis aos impactos da Covid longa.
De acordo com o professor Watanabe, a UFJF é a instituição onde ele realiza suas pesquisas e que proporciona as condições para seu trabalho. A visibilidade da produção da universidade o levou a participar de discussões em nível nacional.
Durante a apresentação de projetos financiados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento (CNPq) em Brasília, ele teve contato com outros pesquisadores da área. Desse contato, surgiu um grupo menor de especialistas, do qual ele faz parte.
Este grupo, que inclui um integrante do Ministério da Saúde, foi convidado para colaborar na revisão do guia. A UFJF é fundamental para o avanço dessas pesquisas e para a qualificação das informações sobre a doença.
