Um estudo publicado na revista Nature Plants, que analisou mais de 1,5 mil parcelas de floresta em dez países, indica que a recuperação natural da mata pode combater plantas exóticas e invasoras ao longo do tempo. Os dados são considerados relevantes para a conservação da biodiversidade e a recuperação de serviços ecossistêmicos.
O Relatório de Avaliação Global sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos de 2019 da Organização das Nações Unidas (ONU) aponta as espécies invasoras como um dos cinco fatores para a perda de biodiversidade. Estas espécies, ao se tornarem dominantes, competem com as nativas por recursos como luz, água, nutrientes e espaço.
Em situações mais graves, as espécies invasoras podem reduzir a diversidade nativa, alterar o funcionamento do ecossistema e levar a estados degradados de difícil reversão. O estudo buscou compreender o comportamento de espécies arbóreas não nativas e invasoras em florestas tropicais em regeneração.
A pesquisa, que incluiu a participação de Pedro Manuel Villa, pesquisador da UFJF, focou em áreas de floresta secundária. Estas são formadas naturalmente após o abandono de locais utilizados anteriormente pela agropecuária.
O estudo confirmou que as florestas secundárias desempenham um papel na conservação da biodiversidade e na recuperação de serviços ecossistêmicos. De acordo com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), a Floresta Amazônica possui 850 milhões de hectares de florestas secundárias.
De acordo com Pedro Manuel Villa, professor visitante do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Conservação da Natureza (PPGBio) do Instituto de Ciências Biológicas (ICB/UFJF), uma espécie não nativa é aquela introduzida fora de sua área de distribuição natural, geralmente por ação humana.
Uma espécie é considerada invasora quando se estabelece, reproduz e se espalha no novo ambiente, causando impactos negativos à biodiversidade, ao ecossistema, à economia ou à saúde humana. Nem toda espécie introduzida é classificada como invasora.
Entre os fatores que facilitam a invasão, o pesquisador cita a abertura do dossel, o desmatamento, a fragmentação, as estradas, a urbanização e a introdução repetida de sementes ou mudas por pessoas. Estes elementos criam condições favoráveis para o estabelecimento de espécies não nativas.
Regeneração natural após abandono
O estudo aponta que a regeneração natural pode reverter a propagação de espécies invasoras. “Durante os primeiros 10 a 20 anos, o crescimento das árvores nativas e o fechamento do dossel reduzem a luminosidade”, explica Villa.
Ele acrescenta que “como muitas espécies não nativas são dependentes de luz, sua abundância e riqueza relativas diminuem fortemente. Portanto, permitir que a floresta continue sua regeneração é uma solução baseada na natureza para aumentar sua resistência às invasões”.
A pesquisa também indica as condições sob as quais a regeneração natural pode auxiliar na conservação. Quando a floresta é protegida e tem tempo para se desenvolver, a diversidade de espécies nativas aumenta.
O pesquisador destaca que a cobertura florestal da paisagem favorece esse processo. “Portanto, não basta proteger apenas a parcela que está regenerando, é necessário conservar a paisagem ao redor, manter fontes de sementes e reduzir distúrbios recorrentes”, afirma.
A principal conclusão é que florestas secundárias são ecossistemas em reconstrução, capazes de recuperar biodiversidade, carbono, proteção do solo, regulação hídrica e conectividade. Para que essa capacidade se manifeste, elas precisam permanecer e continuar envelhecendo.
Villa esclarece que uma ameaça é o desmatamento de muitas florestas secundárias antes que atinjam estágios avançados de regeneração. “Elas frequentemente ocupam paisagens agrícolas dinâmicas, nas quais uma área é abandonada, começa a se recuperar e, poucos anos depois, volta a ser derrubada ou utilizada”, explica.
Este ciclo interrompe a sucessão ecológica, mantém o ambiente aberto e favorece continuamente espécies pioneiras e invasoras. A interrupção do processo de regeneração impede o desenvolvimento completo da floresta.
A força da ciência em rede
O estudo envolveu 66 pesquisadores de 60 instituições e utilizou dados da 2ndFor Network, uma rede internacional dedicada ao estudo da regeneração de florestas secundárias tropicais. A colaboração internacional é vista como um fator que potencializa a qualidade das descobertas.
“Grandes redes internacionais permitem integrar dados, experiências e diferentes realidades ecológicas, produzindo respostas científicas muito mais robustas do que seria possível com estudos isolados”, explica o pesquisador. Ele ressalta que essa integração é essencial para compreender processos ecológicos em escala continental.
A publicação também contribui para a inserção internacional da UFJF e do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Tropical (PPGBio), abrindo caminhos para novos projetos conjuntos e intercâmbios acadêmicos. A participação em uma publicação na Nature Plants é considerada um motivo de satisfação.
Villa afirma que o maior legado dessa colaboração é a construção de uma rede internacional permanente de pesquisa. “Isso amplia as oportunidades para nossos estudantes, fortalece a internacionalização do PPGBio e posiciona a UFJF como uma parceira ativa em estudos de alcance global sobre biodiversidade, restauração ecológica e mudanças ambientais”, conclui.
