Uma pesquisa de opinião pública, realizada pela UNIFAL-MG em 2025, revelou que as populações de Poços de Caldas-MG e Varginha-MG demonstram preocupação com o meio ambiente e os impactos das mudanças climáticas. No entanto, o estudo aponta dificuldades em converter essa consciência em ações coletivas de proteção ambiental.
O estudo, intitulado “Atitudes e ações pró-ambientais em Poços de Caldas-MG e Varginha-MG (2025)”, foi financiado pela FAPEMIG. Ele foi desenvolvido pelo grupo de pesquisa OIKOS da Universidade, com a participação de discentes de pós-graduação e graduação da UNIFAL-MG e de outras instituições.
A coordenação dos trabalhos ficou a cargo do professor José Roberto Porto de Andrade Jr., do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA). Foram realizadas 800 entrevistas entre agosto e dezembro de 2025, sendo 400 em cada município, com foco na população urbana acima de 16 anos.
O estudo apresenta um grau de confiança de 95% e margem de erro de 4,9%. De acordo com a UNIFAL, os dados indicam que a maioria da população das duas cidades está preocupada com o meio ambiente e reconhece os efeitos do aquecimento global no cotidiano.
Mais de 75% dos entrevistados acreditam que as mudanças climáticas podem prejudicar suas vidas e de suas famílias. O coordenador da pesquisa, José Roberto Porto de Andrade Jr., destacou a contradição entre a percepção e o engajamento.
José Roberto Porto de Andrade Jr. afirmou: “A pesquisa identificou uma crescente preocupação ambiental climática nas populações das nossas regiões e uma crescente consciência da gravidade dos problemas climáticos e do impacto dos problemas climáticos na vida cotidiana das pessoas.”
Ele complementou: “Por outro lado, também identificou alguns problemas e sobretudo dificuldades das nossas populações regionais em converter essas preocupações em práticas efetivas de proteção da natureza, sobretudo quando a gente olha para as práticas de esfera pública”.
Os índices de participação em ações coletivas, como manifestações, petições e audiências públicas, são baixos e não correspondem ao nível de preocupação declarado pela população. José Roberto Andrade Jr. observou que “Os índices de participação popular são baixíssimos, incondizentes com o grau elevado de preocupação que as populações manifestam em relação aos temas ambientais”.
Ações ambientais concentradas no cotidiano individual

Um dado do levantamento indica que as práticas pró-ambientais estão concentradas na esfera privada. A maioria dos entrevistados afirma adotar comportamentos como economizar água e separar o lixo para reciclagem, com índices superiores a 80% e 90%, respectivamente.
As ações coletivas, por sua vez, apresentam menor adesão. Mesmo a prática mais frequente, como votar em candidatos com propostas ambientais, atinge apenas cerca de metade da população. O coordenador da pesquisa comenta que esse padrão revela uma tendência mais ampla.
“Os comportamentos pró-ambientais estão muito mais ligados à esfera privada, ao consumo, do que à esfera pública. As práticas de maior adesão chegam a mais de 90%, enquanto as de esfera pública não atingem nem metade da população”, enfatizou o coordenador.
Ele informou que essa é uma tendência regional que também se manifesta nacional e internacionalmente. Os resultados apontam para a necessidade de estratégias que incentivem a participação em ações coletivas.
Mineração de terras raras divide opiniões
A pesquisa também abordou o tema da mineração de terras raras, relevante para a região. Os resultados mostram diferenças entre os municípios de Poços de Caldas e Varginha.
Em Poços de Caldas, 37% da população conhece ou já ouviu falar sobre o tema. Em Varginha, o assunto é desconhecido por dois terços da população e conhecido por um terço.
Entre os que conhecem o assunto, predomina uma postura cautelosa ou contrária à atividade. Em Poços de Caldas, a opinião majoritária é de que a mineração não deve ocorrer independentemente do impacto ambiental.
Já em Varginha, prevalece a ideia de que a mineração só deve ocorrer se o impacto ambiental for pequeno. O coordenador da pesquisa apontou que “Nas duas cidades, a gente tem um apoio popular muito pequeno, menor que 5%, à ocorrência da mineração de terras raras”.
Desconfiança em movimentos ambientalistas chama atenção
O nível de confiança nos movimentos ambientalistas é um resultado considerado preocupante. A maioria dos entrevistados declarou confiar pouco ou nada nessas organizações, o que foi uma surpresa para o grupo de pesquisa.
“As respostas predominantes são negativas. Esse é um tema que precisa ser melhor entendido”, comentou o pesquisador. A desconfiança pode impactar a capacidade dos movimentos ambientalistas de mobilizar apoio popular.
Para o coordenador do levantamento, os movimentos ambientais dependem de apoio e participação popular para que suas pautas de preservação da natureza sejam encaminhadas. A falta de confiança pode enfraquecer a atuação desses grupos.
Ele lamentou que “Se a gente tem uma população que não confia no movimento ambientalista, a gente vai ter um movimento ambientalista enfraquecido, que não vai conseguir se impor diante do poder econômico e não vai conseguir converter os seus pleitos de proteção da natureza em decisões políticas efetivas”.
As redes sociais, sites e televisão são as principais fontes de informação sobre temas ambientais, utilizadas por grande parte da população. As conversas sobre o tema ocorrem principalmente entre familiares, amigos e colegas de trabalho.
Apesar do acesso à informação, a pesquisa indica que isso ainda não se traduz, na mesma proporção, em mobilização social. Este cenário sugere a necessidade de estratégias para converter a informação em ação coletiva.
Pesquisa será debatida em evento no campus Varginha
Os resultados do estudo serão apresentados e debatidos no dia 31 de março, das 19h às 21h. O evento ocorrerá no auditório do campus Varginha da UNIFAL-MG, localizado na Avenida Celina Ferreira Ottoni, 4000, no bairro Padre Vitor.
A expectativa é aprofundar a análise dos dados e ampliar o debate sobre o papel da sociedade e das instituições no enfrentamento da crise ambiental. Mais informações podem ser encontradas aqui.
Nas próximas semanas, o Jornal UNIFAL-MG irá divulgar outros resultados da pesquisa. O Sumário Executivo do levantamento está disponível para acesso.
Os microdados estão disponíveis para consulta pública e podem ser solicitados ao coordenador, pelo e-mail jose.junior@unifal-mg.edu.br.