O período seco no Cerrado levanta um alerta para a saúde pública. A baixa umidade relativa do ar, o aumento de queimadas e a concentração de poluentes na atmosfera contribuem para o desenvolvimento de doenças respiratórias. Crianças, idosos e pessoas com comorbidades são os grupos mais afetados.
De acordo com a UFU, o professor Rildo Costa, do Instituto de Geografia, Geociências e Saúde Coletiva da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), explica que o Cerrado possui duas estações climáticas bem definidas: seca e chuvosa. “No papel, estamos no outono, mas, na prática, nossa região funciona de forma diferente”, afirma.
Ele detalha que o período seco ocorre aproximadamente de abril ou maio até setembro ou outubro. Já o período chuvoso se estende entre outubro e março. O pesquisador ressalta que o período seco é uma característica natural do Cerrado.
No entanto, as emergências climáticas intensificam seus efeitos. Em 2025, Uberlândia registrou cerca de 135 dias consecutivos sem chuva. O clima seco não causa diretamente doenças respiratórias, mas potencializa quadros já existentes, como rinite e sinusite.
Isso ocorre devido à combinação de baixa umidade do ar e aumento do material particulado na atmosfera. “Sem chuva, a poeira e a fuligem permanecem suspensas no ar por mais tempo”, explica Costa. Quando a umidade relativa fica muito baixa, as vias respiratórias perdem lubrificação, facilitando irritações e sangramentos.
Atualmente, a umidade relativa do ar na região varia entre 35% e 40%. Contudo, pode atingir índices próximos de 15% entre agosto e setembro. O percentual considerado ideal para o organismo humano é em torno de 60%.
O pesquisador destaca que crianças e idosos sofrem mais neste período devido à maior vulnerabilidade fisiológica. Crianças ainda estão com o sistema imunológico em desenvolvimento, enquanto idosos podem apresentar doenças pré-existentes que se agravam com a poluição e o clima seco.
Queimadas aumentam internações
As queimadas urbanas e rurais representam um dos principais fatores de agravamento dos problemas respiratórios na região. Segundo o docente, além de incêndios em áreas rurais, a prática de colocar fogo em terrenos baldios e resíduos sólidos ainda é comum.
“Esse material particulado é inalado pela população e contribui para o agravamento das doenças respiratórias”, ressalta. O professor coordena uma pesquisa em Ituiutaba que relaciona queimadas e internações hospitalares.
O estudo analisa dados climáticos, registros de incêndios atendidos pelo Corpo de Bombeiros e internações por problemas respiratórios. Os resultados preliminares apontam um aumento entre 20% e 30% nas internações durante períodos com maior ocorrência de queimadas.
Aproximadamente 70% dos casos registrados envolvem idosos. As queimadas liberam partículas que irritam as vias aéreas, agravando condições como asma e bronquite. A fumaça também pode causar inflamação e reduzir a capacidade pulmonar.
Populações vulneráveis sofrem mais impactos
Segundo o pesquisador, os impactos do clima seco não atingem toda a população da mesma forma. Moradores de áreas periféricas costumam enfrentar condições mais desfavoráveis. Isso se deve à falta de arborização, ventilação adequada, proximidade com terrenos baldios e áreas suscetíveis a queimadas.
“Quem vive em casas com pouca circulação de ar, menos áreas verdes e infraestrutura inadequada, tende a sofrer mais”, afirma o professor. Ele também explica que as ondas de calor, cada vez mais intensas devido às emergências climáticas, não afetam todas as pessoas da mesma forma.
Enquanto quem possui maior poder aquisitivo consegue buscar conforto em ambientes climatizados e no uso de ar-condicionado e umidificadores, populações vulneráveis enfrentam mais dificuldades para suportar as temperaturas extremas. A falta de recursos impede o acesso a soluções que amenizam o calor e a baixa umidade.
O professor explica como amenizar a situação: “A arborização urbana é importante, porque a árvore não é só uma questão de estética. Ela vai filtrar o ar e vai gerar uma umidade relativa do ar um pouco melhor. Ela vai combater ondas de calor no sentido de amenizar as temperaturas de ondas de calor na cidade.”
Ele conclui: “Então, por exemplo, quase todos os municípios têm políticas de arborização urbana, mas são poucos que realmente funcionam, e isso ajuda a população a enfrentar esse período seco.” A implementação efetiva dessas políticas pode reduzir os impactos negativos na saúde pública.
