A atuação de profissionais de saúde de diferentes áreas foi decisiva na recuperação de um caso grave de pé diabético. O caso clínico foi detalhado por Thais Cristina de Aquino Lima, estudante do 12º período do curso de Medicina da UNIFAL-MG, em um artigo publicado pela Revista de Medicina, periódico bimestral da USP.
O estudo, intitulado Pé diabético complicado e manejo multidisciplinar: um relato de caso da iatrogenia à resolução, é assinado por Thais Lima. Ela contou com a colaboração dos professores da área de ortopedia e traumatologia: Tiago Soares Baumfeld, da Faculdade de Medicina da UFMG, e Eli Ávila Souza Júnior, da Faculdade de Medicina da UNIFAL-MG.
No trabalho, os autores descrevem o caso de um paciente de 80 anos com diabetes tipo 2. Ele sofreu um ferimento no pé que evoluiu para necrose. Ao buscar atendimento inicial, foi submetido a uma amputação em condições inadequadas, sem assepsia apropriada e sem suporte especializado.
Este procedimento inicial agravou o quadro do paciente, levando a uma infecção grave e sepse. De acordo com Thais Lima, “O caso ilustra uma situação em que uma conduta inicial iatrogênica [danos causados pela própria conduta médica] evoluiu favoravelmente após a aplicação de recursos multidisciplinares”.
Após o agravamento, o paciente foi encaminhado para atendimento especializado. Ele passou por uma nova intervenção cirúrgica, recebeu antibioticoterapia adequada e teve acompanhamento intensivo. A abordagem multidisciplinar foi crucial para a recuperação.
Abordagem multidisciplinar decisiva na recuperação
Durante toda a internação, o paciente recebeu acompanhamento semanal de uma equipe integrada. Esta equipe incluiu ortopedistas, equipe de enfermagem especializada, psicologia e o uso de tecnologias como terapia por pressão negativa e oxigenoterapia hiperbárica.
A atuação conjunta de diferentes profissionais da saúde foi fundamental para a reversão do caso. Thais Lima ressalta que “Esses recursos, aplicados de forma sinérgica, foram cruciais para o êxito terapêutico, mesmo após um tratamento inicial inadequado”.
Ela complementa que “O reconhecimento da gravidade de diabetes mellitus e da importância da assistência multidisciplinar foram fundamentais para o desfecho satisfatório no caso apresentado, apesar da iatrogenia inicial”. A evolução clínica após a alta hospitalar foi favorável, segundo a autora.
“Depois de 30 dias, o coto já havia recuperado aproximadamente 50% da epitelização inicial. Após 60 dias da alta, o coto apresentava epitelização quase completa, restando apenas área de granulação central bem formada, sem sinais infecciosos, permitindo a suspensão do antibiótico”, revela Thais Lima.
Além dos aspectos clínicos, o artigo aborda uma discussão ética. O procedimento inicial, realizado sem condições adequadas, contraria princípios do Código de Ética Médica, especialmente a obrigação de não causar dano ao paciente.
A autora aponta que “A imprudência e a não observância de aspectos como anestesia, assepsia e antissepsia contribuíram diretamente para um desfecho inicialmente ruim”. O caso reforça a necessidade de decisões clínicas baseadas em evidências científicas.
Para Thais Lima, isso é especialmente importante na atenção básica, onde muitos desses casos se iniciam. Ela destaca que “A assistência multiprofissional garante melhores desfechos nos pés diabéticos complicados, com destaque para a relevância de fundamentar os atos médicos no Código de Ética do Conselho Federal de Medicina em sua versão mais recente”.
O olhar sobre o paciente
A estudante também enfatiza a importância do cuidado centrado na pessoa. “A gente não está tratando só uma doença, a gente está tratando uma pessoa. Esse paciente tem uma família, tem uma história, e isso precisa ser considerado em toda decisão médica”, reflete.
Conforme Thais Lima, o trabalho reforçou a importância da formação contínua e da responsabilidade profissional. “Esse caso me marcou muito porque mostra que a gente precisa sempre basear a prática médica em evidência, em ética e em responsabilidade com o paciente”, completa a médica em formação.
O pé diabético é responsável por aproximadamente 25% das internações de urgência entre pessoas com diabetes no Brasil e nos Estados Unidos. Eleva em até 40 vezes o risco de amputação não traumática em comparação com a população sem a doença.
Apesar disso, os danos causados pela própria conduta médica são pouco documentados como fator de risco para amputações na literatura científica. O relato foi publicado na edição de abril da Revista de Medicina da USP e está disponível em acesso aberto neste link.
